UOL Notícias Internacional
 
31/07/2010 - 01h24

Jovens abandonam suas casas para ingressar em grupos radicais

The New York Times
Souad Mekhennet
Em Frankfurt (Alemanha)
  • Mulher chora após receber a notícia de que o filho morreu em um ataque promovido pela Al Qaeda

    Mulher chora após receber a notícia de que o filho morreu em um ataque promovido pela Al Qaeda

Antes de Abi deixar a casa de seus pais no norte da Alemanha no ano passado, ela perguntou: “Pai, o que posso trazer para você da minha jornada?” Ele levantou os olhos de seu livro e respondeu: “Algum óleo perfumado”. “Eu trarei”, ela disse, o abraçando em despedida.

Mais de um ano depois, ele ainda está aguardando pelo retorno dela.

Abi, atualmente com 23 anos, e seu marido nunca fizeram a viagem que disseram que fariam para a Arábia Saudita, para visitar Meca e Medina. Em vez disso, eles se tornaram parte de um crescente número de jovens muçulmanos da Alemanha e de outros países europeus que viajam para a região de fronteira do Paquistão-Afeganistão, para ingressar nos campos de grupos afiliados à Al Qaeda e ao Taleban.

Um alemão, Eric Breininger, foi posteriormente declarado morto em um combate contra tropas paquistanesas.

Um site de língua turca anunciou que, nos últimos dias, nove combatentes estrangeiros foram mortos enquanto viajavam para realizar operações com o Taleban. Dois deles foram identificados como alemães, de Bonn e Berlim.

Outros foram presos sob várias acusações. Em um caso, várias pessoas foram condenadas por planejarem ataques contra instalações militares americanas na Alemanha.

Autoridades de inteligência estão preocupadas que os jovens, a maioria em seus 20 anos, serão usados por militantes para fins de propaganda ou treinados para pegar em armas. Eles também temem que alguns voltarão para a Alemanha para recrutar outros ou para ingressarem em células dormentes, para no final cometerem atos de terrorismo.

“Esta é uma situação muito perigosa e os serviços de segurança alemães estão muito nervosos a respeito dela”, disse Guido Steinberg, especialista em terrorismo do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim. “A Al Qaeda e outras organizações colocaram a Alemanha em sua lista de principais alvos, entre os mais altos.”


Autoridades de segurança acreditam que o número de jovens alemães que fazem a viagem é relativamente pequeno, talvez menos de 200 desde o início dos anos 90. Mas elas também acreditam que o número está crescendo, inspirado em parte pelos vídeos em alemão na Internet, incluindo alguns feitos por um grupo chamado Mujahedeen Taleban Alemão, que promete uma vida feliz com outros dedicados à lei Shariah.

É difícil estabelecer um número exato, porque a maioria daqueles que seguem para as regiões de fronteira primeiro deixa a Alemanha de carro, para driblar as checagens de segurança nos aeroportos; muitos vão para a Turquia e depois ilegalmente ao Irã, onde se encontram com contrabandistas que os levam até seu destino.

Autoridades de segurança também estão perturbadas porque parece que famílias inteiras agora estão tomando essa decisão, após venderem todos os seus bens e sacarem suas economias do banco.

Um homem que ajuda a contrabandear estrangeiros para a região ofereceu uma explicação para a necessidade de dinheiro. No passado, disse Abu Yahia, que é do Waziristão, os grupos militantes antes tinham dinheiro para sustentar aqueles que se juntavam a eles. Agora, ele disse, com todo o combate que está transcorrendo, é pedido aos recém-chegados para que “tragam dinheiro suficiente para que possam ajudar os grupos e sustentarem a si mesmos”.

Os pais de Abi –sua mãe é alemã e seu pai é de um país do Oeste da África– estão atônitos com a transformação de sua filha, de uma estudante de odontologia ocidentalizada a uma radical muçulmana. (Por temerem ser molestados, os pais consentiram em ser entrevistados apenas se seus nomes não fossem relevados. Abi é uma abreviação do verdadeiro nome da filha deles.)

As mudanças ocorreram lentamente, eles disseram, após Abi se apaixonar por um jovem iraniano que cresceu na Alemanha. Após se casarem em uma mesquita em 2008 –um choque para seu pai, apesar dele ser um muçulmano– o jovem casal mudou seu comportamento e modo de se vestir. Ele se converteu do xiismo e passou a seguir uma forma sunita radical do Islã, deixando crescer sua barba; ela começou a usar lenço de cabeça e a cortar contato com seus amigos. “Meu marido disse para ela que aquilo não era o que o Islã pregava, abandonar as amizades, mas ela não dava ouvido”, disse a mãe de Abi.

No início de março do ano passado, Abi, seu marido e três outros deixaram suas casas na Alemanha e no final chegaram até a região de fronteira pasquistanesa do Waziristão. No início, Abi disse aos seus pais, por meio de e-mail, que ela e seu marido queriam viver em uma sociedade islâmica, apesar de seu marido posteriormente ter enviado sinais aos pais dele que queria voltar para a Alemanha. Mas então ele apareceu em um vídeo de propaganda com uma arma na mão. “Aí eu soube que seria muito difícil para eles retornarem”, disse a mãe de Abi.

Autoridades de segurança, assim como os pais de Abi, seu marido e outros pais de jovens que foram para a região de fronteira paquistanesa, esperam saber mais sobre a situação deles com Rami Makanesi, um alemão de 25 anos descendente de sírios, que foi recentemente preso pelas autoridades paquistanesas enquanto estava no distrito tribal do Waziristão do Norte.

Desde sua prisão, Makanesi está sob custódia do principal serviço de espionagem do Paquistão, o ISI. Segundo um alto funcionário do ISI, Makanesi disse aos investigadores paquistaneses que era membro da Al Qaeda e que treinou homens-bomba para eles no Waziristão. “Ele não deixou a impressão de que era alguém que não tinha ideia do que estava fazendo lá”, disse o funcionário do ISI, que falou sob a condição de anonimato por não estar autorizado a falar publicamente sobre o caso.

Makanesi também falou sobre dezenas de europeus recrutados pela Al Qaeda que estão lutando no Afeganistão e Paquistão. “Ele falou sobre seis outros alemães que estavam na mesma região com ele”, disse o funcionário.

“Há conexões entre os círculos de Hamburgo e os círculos em Berlim, Bonn e Frankfurt”, disse um alto funcionário de inteligência alemão, que falou sob a condição de anonimato por não estar autorizado a falar sobre o caso. “É muito possível que Makanesi tenha encontrado algumas pessoas da Alemanha, que tenham vindo de outras cidades.”

Uma das famílias desesperadas por alguma informação é a de Thomas, um convertido ao Islã de 24 anos, que passou a ser mais devoto nos últimos dois anos. A família ficou alarmada quando Thomas, agora usando o nome de Haroun, e sua esposa começaram a falar sobre se mudarem para um lugar onde pudessem praticar sua fé mais completamente.

“Nós fomos à polícia e ao serviço de inteligência e pedimos ajuda, porque notamos como eles mudaram”, disse sua mãe. “Nós imploramos por ajuda.” Mas as autoridades não tinham base legal para intervir.

Em setembro, ele e sua esposa disseram aos seus pais que estavam deixando Berlim para uma viagem para celebrar seu primeiro aniversário de casamento. Em vez disso, eles foram para o Waziristão.

No início, Thomas enviava e-mails para seus pais, dizendo para eles que as condições de vida eram difíceis. Em dezembro, ele escreveu que não sabia se veria o próximo verão.

“Desde então mais nenhuma mensagem, não temos ideia se ele está vivo ou morto, nenhuma certeza, o que torna tudo muito complicado”, disse sua mãe.

As autoridades de segurança alemãs disseram acreditar que Thomas passou por treinamento militar no Waziristão. “Nós temos indicações de que ele apareceu em um vídeo de propaganda, mas com seu rosto coberto”, disse uma autoridade.

Os pais de Abi e Thomas ainda esperam que seus filhos voltarão para a Alemanha. Mas as autoridades de segurança dizem que em quase todos os casos, aqueles que retornam continuam associados a mais muçulmanos militantes.

A mãe de Abi disse que os sinais que ela está recebendo de sua filha sobre um retorno não são muito esperançosos.

Abi disse para sua mãe que os muçulmanos no Afeganistão e Paquistão são oprimidos e precisam de ajuda. É uma reação típica de sua filha, que sempre quis ajudar pessoas, disse a mãe de Abi, acrescentando. “Eu sempre tive orgulho dela por isso.”

Então lágrimas encheram seus olhos, enquanto ela dizia: “Meu marido e eu ficamos muito fracos por causa do que ela fez, e eu gostaria de perguntar para ela: ‘O Alcorão não diz que nunca se deve mentir para os pais e que se deve respeitá-los?’”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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