UOL Notícias Internacional
 
04/08/2010 - 01h54

Chávez tenta escrever uma nova história ao exumar Bolívar

The New York Times
Simon Romero
Caracas (Venezuela)
  • Hugo Chávez, presidente venezuelano, segura espada utilizada por Simon Bolivar, herói da independência do país, durante cerimônia para celebrar o 199º aniversário da libertação da Venezuela do domínio espanhol, em Caracas

    Hugo Chávez, presidente venezuelano, segura espada utilizada por Simon Bolivar, herói da independência do país, durante cerimônia para celebrar o 199º aniversário da libertação da Venezuela do domínio espanhol, em Caracas

O relógio tinha acabado de dar meia-noite. Grande parte do país estava dormindo. Mas isso não impediu o presidente Hugo Chávez de anunciar nas primeiras horas de 16 de julho que a mais recente fase de sua Revolução Bolivariana tinha sido colocada em ação.

Marchando ao som do hino nacional, uma equipe de soldados, legistas e assessores presidenciais se reuniu ao redor do sarcófago de Simón Bolívar, o aristocrata do século 19 que libertou grande parte da América do Sul da Espanha. Uma equipe da televisão estatal filmou o grupo, vestindo jalecos brancos de laboratório, tocas e máscaras, tentar o que parecia um meio-passo de ganso anêmico.

Então eles abriram o caixão, removeram sua tampa e retiraram uma bandeira venezuelana que cobria os restos mortais. Uma câmera suspensa no alto registrou as imagens de um esqueleto. Insones boquiabertos daqui assistiram a cobertura ao vivo da exumação de Bolívar pela televisão estatal, com narração fornecida pelo ministro do Interior, Tareck El Aissami.

Para aqueles que dormiram, sempre há o Twitter.

“Que momentos impressionantes vivemos esta noite!” disse Chávez aos seguidores em uma séria de mensagens pelo Twitter, enviadas durante a exumação e que foram redistribuídas pela agência de notícias estatal, poucas horas depois. “Levante-se, Simón, já que ainda não é hora de morrer! Eu lembrei imediatamente que Bolívar vive!”

Até mesmo os venezuelanos acostumados ao teatro político de Chávez ficaram surpresos com a exumação, que colocou de lado assuntos como o escândalo dos alimentos importados encontrados apodrecendo nos portos, a revolta com a economia atolada na recessão e as evidências fornecidas pela Colômbia de que guerrilheiros colombianos estão acampados em solo venezuelano.

Com tudo isso acontecendo, os venezuelanos estão coçando suas cabeças nas últimas semanas a respeito dos possíveis motivos para a remoção por Chávez dos restos mortais de Bolívar do Panteão Nacional.

O presidente ofereceu sua própria explicação. Ela envolve a necessidade urgente de realizar testes para determinar se Bolívar morreu de envenenamento por arsênico em Santa Marta, Colômbia, e não de tuberculose em 1830, como os historiadores há muito aceitam. Uma comissão formada aqui por Chávez está examinando esta teoria nos últimos três anos.

O trabalho deles se baseia nas alegações entre alguns bolivarianólogos, como são chamados aqui os especialistas na história de Bolívar, de que uma carta há muito perdida de Bolívar revela como ele foi traído pela aristocracia da Colômbia. Ao decifrar a carta usando códigos maçônicos, eles sugeriram que a conspiração era ainda maior, incluindo Andrew Jackson, o então presidente dos Estados Unidos, e o rei da Espanha.

Conclusões apresentadas em uma conferência médica neste ano nos Estados Unidos encorajaram Chávez ainda mais. Na conferência, Paul Auwaerter, um especialista em doenças infecciosas da Universidade Johns Hopkins, disse que Bolívar provavelmente morreu por ingestão de arsênico, uma afirmação explorada pela mídia estatal daqui para apoiar a alegação de que Bolívar foi assassinado.

Não importa que Auwaerter tenha dito que sua pesquisa foi mal interpretada, já que a ingestão de arsênico poderia ter sido não intencional, por meio de medicamentos contendo arsênico, comuns naquela época, ou de água contaminada. “Eu não concordo com as teorias do presidente Chávez”, ele disse por e-mail.

Sem perder o ânimo, o governo daqui diz que irá até o fim para desvendar a morte de Bolívar. O procurador-geral esteve presente na exumação, deixando claro que as autoridades veem o mistério dos ossos de Bolívar como o equivalente a uma cena de crime e um assunto de importância nacional.

A exumação poderia servir a múltiplos propósitos. Se Chávez puder dizer que Bolívar foi assassinado na Colômbia, ele poderia tentar usar isso contra o atual governo colombiano, com o qual a Venezuela tem relações tensas, reforçando ao mesmo tempo suas antigas alegações de que os colombianos e outros planejam assassiná-lo.

Também permitiria a Chávez reescrever um grande aspecto da história da Venezuela. O presidente já associa estreitamente a si próprio e seu movimento político a Bolívar, rebatizando o país de República Bolivariana da Venezuela, sua agência de espionagem de Serviço de Inteligência Bolivariano e assim por diante. Retratos de Bolívar ficam pendurados ao lado dos de Chávez nas repartições públicas federais.

A intelligentsia do país se fixa no legado de Bolívar e no uso de Bolívar não apenas por Chávez, mas por governantes desde o século 19.

Ao entrar em uma livraria, é possível encontrar prateleiras cheias de livros com títulos como “Divino Bolívar”, “O Culto de Bolívar”, “Pensamento do Libertador” e “Por Que Não Sou Bolivariano”. Acadêmicos discutem como foi possível para um ditador do século 20, Juan Vicente Gómez, compartilhar convenientemente as datas de nascimento e morte de Bolívar.

Alguns altos assessores de Chávez começaram a usar a exumação para atacar seus oponentes. No mês passado, o ministro da Cultura, Francisco Sesto, repreendeu Baltazar Porras, um arcebispo venezuelano, por “profanação verbal”, por argumentar que Bolívar estava, de fato, morto.

Movimentos políticos que exploram os restos mortais não são novos aqui ou em outros lugares na América Latina. Um exemplo recente veio de Carlos Menem, o ex-presidente da Argentina, que trouxe da Inglaterra os restos mortais de Juan Manuel de Rosas, um líder político e militar do século 19, para serem enterrados na Argentina em 1989.

“As disputas em torno de corpos são disputas de poder, poder sobre o passado e poder no presente”, disse Lyman Johnson, um historiador da Universidade da Carolina do Norte que é especializado nos cultos de corpos da América Latina. “Esses significados poderosos dão nova vida a corpos há muito mortos.”

Chávez, com sua remoção de dentes e outros fragmentos de ossos do esqueleto de Bolívar para exames de DNA, pode estar levando a apropriação dos mortos a novos níveis. As autoridades daqui ignoraram os pedidos dos descendentes da família de Bolívar (acredita-se que o próprio Bolívar não tenha deixado filhos) para que deixassem os restos mortais em paz.

“A exumação foi um dos espetáculos mais grotescos que já vi”, disse Lope Mendoza, 71 anos, um empresário proeminente daqui que é sobrinho-trisneto de Bolívar.

Ainda assim, as autoridades daqui dizem que estão longe de terem acabado. Elas planejam construir um novo panteão para Bolívar, que será concluído no próximo ano, no qual os ossos serão depositados em uma urna dourada, em vez de um sarcófago de chumbo.

A próxima a ser exumada, disse o vice-presidente Elias Jaua, é a irmã de Bolívar, María Antonia Bolívar, que está enterrada na Catedral de Caracas. Jaua disse que testes de DNA também precisam ser feitos em seu esqueleto para determinar se os ossos encontrados no túmulo de Bolívar são de fato deste.

“Assim que estivermos certos de que são de fato os restos mortais do Libertador”, disse Jaua, “nós prepararemos um documentário para dar testemunho à história”.

*Maria Eugenia Diaz contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,22
    3,148
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h22

    0,64
    65.099,56
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host