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05/08/2010 - 02h04

Nova Constituição se aproxima da aprovação no Quênia

The New York Times
Jeffrey Gettleman
Nairóbi (Quênia)
  • Mulheres da etnia Masai vestidas com seus coloridos trajes esperam para votar em referendo no Quênia

    Mulheres da etnia Masai vestidas com seus coloridos trajes esperam para votar em referendo no Quênia

A nova Constituição do Quênia, redigida para aliviar antigos problemas que minaram a boa governança daqui por décadas, parecia caminhar para a aprovação na quarta-feira, após um referendo nacional pacífico.

Enquanto funcionários eleitorais se debruçavam sobre mesas de madeira e realizavam a apuração dos votos à luz de lampião, os votos pró-Constituição lideravam por 66% a 34% com aproximadamente metade dos votos apurados.

A nova Constituição deverá ser um momento de virada crucial para a história pós-colonial deste país, ao finalmente tratar de muitas das questões políticas que perseguiam esta potência do Leste da África desde sua independência, em 1963.

Os eleitores compareceram em grande número na quarta-feira e a expectativa era de que a taxa de comparecimento dos eleitores seria alta. Mas a votação enfrentava o fantasma da eleição contestada de 2007, que provocou disputas étnicas por todo o país que deixaram mais de 1.000 mortos.

Para impedir uma repetição disso, o governo reformou todo o processo eleitoral – não apenas o registro, mas também como funcionariam as filas nos locais de votação, como os resultados das urnas seriam transmitidos (por celular e computador), como os votos seriam apurados e como os eleitores seriam protegidos. Milhares de policiais foram enviados para manter a ordem nas áreas rurais.

Na escola primária Baba Dogo daqui, prevaleceu a calma. A partir das 6 horas da manhã, antes do sol ter ultrapassado a linha do horizonte, os eleitores se reuniram em ordem em filas, organizadas por cordões. Ninguém estava gritando, cantando ou declarando como iria votar. Os vendedores ambulantes não foram impedidos preventivamente, como acontece frequentemente durante as eleições por temor de problemas, e estavam desfrutando de um movimento intenso de negócios, vendendo bananas, amendoins e refrigerantes para os eleitores que deixavam os locais de votação.

Era um clima totalmente diferente daquele da eleição de 2007, disseram as pessoas.

“Está pacífico”, disse Samson Omondi, um estudante universitário. “Nós aprendemos a lição da última vez.”

Mas a meta é bem maior do que uma votação limpa, sem violência posterior. Se a nova Constituição for aprovada, ela reduzirá os poderes do presidente, abrirá o caminho para uma reforma agrária muito necessária e dará aos quenianos uma carta de direitos, uma combinação que poderá significar o fim de um dos sistemas políticos mais corruptos e profundamente entrincheirados do continente africano.

É claro, o dia de votação em si em 2007 não foi o problema. Ocorreram apenas alguns poucos confrontos, mas as paixões estavam tão inflamadas que os simpatizantes foram às urnas exibindo as várias cores de seus partidos. As tensões começaram a crescer a partir daí. Quando dias depois pareceu que o governo tinha fraudado a eleição para permanecer no poder, os confrontos explodiram. Muitos quenianos se sentiam confiantes na quarta-feira de que este referendo era diferente o bastante e que não haveria problemas.

“As grandes forças estão todas do mesmo lado”, explicou Joash Mbulika, um gerente de recursos humanos de uma fábrica na região de Baba Dogo. Ele se referia ao fato de que os principais líderes do Quênia –o presidente, o primeiro-ministro, o vice-presidente, os vice-primeiro-ministros e muitos outros “samaki kubwa”, ou “peixe grande” em suaíli, estavam todos a favor da nova Constituição. Da última vez, eram eles que estavam lutando uns contra os outros pelo poder.

A única parte do país que poderia ser uma exceção era o Vale do Rift, a fonte de alimentos do país e também o epicentro da violência étnica de dois anos e meio atrás. O Vale do Rift é dominado pelo grupo étnico kalenjin, que apoiou a campanha pelo “não”, em parte por causa das preocupações com a reforma agrária.

Mas na quarta-feira, as autoridades nas áreas etnicamente diversas no Vale do Rift, que foram estopins de violência em 2007, disseram que até o momento não havia problemas.

“As coisas estão transcorrendo tranquilamente”, disse o chefe Nahason Jason Mwaniki. “Há muita segurança.”

De fato, não houve nenhum caso sério de violência ligada à votação relatado em qualquer parte do país. As expectativas eram de que a Constituição seria aprovada. As pesquisas apontavam que ela teria pelo menos 60% de aprovação (ela precisa de maioria simples e 25% dos votos em cinco das oito províncias do Quênia). Grande parte dos eleitores entrevistados em Nairóbi, na quarta-feira, disse ter votado pelo “sim”.

“Nós tivemos uma liderança parecida com ditadura desde a independência”, disse Oliver Ochieng, um professor colegial. “Nós precisamos mudar.”

Os primeiros resultados do referendo mostraram que os líderes políticos ainda possuem enorme influência sobre suas comunidades étnicas, uma influência que muitos observadores disseram ter sido explorada durante a eleição de 2007 e que incitou a violência.

Na quarta-feira, em alguns locais de votação em redutos de líderes que estavam apoiando a Constituição, os votos a favor lideravam com mais de 99%. O mesmo ocorreu nos redutos dos políticos contrários à Constituição. Em suas áreas, os votos contrários ultrapassavam 90%.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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