UOL Notícias Internacional
 
06/08/2010 - 02h41

Enquanto os indonésios vão para Meca, muitos ficam de olho em seu dinheiro

The New York Times
Norimitsu Onishi
Jacarta (Indonésia)
  • Membro da equipe de uma agência de viagens especializada em pacotes islâmicos em Jacarta, na Indonésia

    Membro da equipe de uma agência de viagens especializada em pacotes islâmicos em Jacarta, na Indonésia

Na condição de país com maior população muçulmana do mundo, a Indonésia envia todo ano o maior número de peregrinos para Meca. Aproximadamente um entre 10 fiéis que realizaram o hajj no ano passado era indonésio.

Cerca de 1,2 milhão de fiéis estão atualmente em uma lista de espera do governo para ir para Meca, preenchendo a cota anual deste país pelos próximos seis anos. Mas se o rápido crescimento da lista é um testamento da crescente devoção da Indonésia, ele também se torna fonte de um de seus problemas perenes: a corrupção.

Autoridades governamentais e políticos fazem uso indevido do dinheiro depositado por aqueles na lista de espera – atualmente totalizando quase US$ 2,4 bilhões– segundo investigadores do governo e grupos anticorrupção. Com a ajuda de empresários aliados e agentes de viagem amistosos, as autoridades exploram a miríade de exigências do hajj conduzido pelo governo para engordar seus bolsos, dizem grupos de vigilância. A corrupção, eles dizem, contribui para queixas consistentes a respeito de acomodações apertadas para os peregrinos na Arábia Saudita e serviços de catering que deixam de fornecer o alimento na metade da viagem.

O Parlamento e autoridades do Ministério dos Assuntos Religiosos determinaram recentemente o preço do hajj deste ano após negociações incomumente demoradas e acusações, amplamente noticiadas pela imprensa daqui, de que alguns legisladores e burocratas concordaram em dividir US$ 2,8 milhões em subornos do ministério. As negociações anuais são usadas por legisladores e burocratas veteranos para fechar acordos pessoais, segundo grupos anticorrupção e a imprensa, que os rotularam de “máfia do hajj”.

“Nós ainda não podemos provar a existência da máfia do hajj”, disse Muhammad Baghowi, um legislador que foi eleito no ano passado e integra a comissão parlamentar que supervisiona os assuntos religiosos. “Mas dadas todas as indicações, é possível realmente senti-la.”

Os líderes parlamentares e funcionários do ministério negaram as acusações de suborno. Abdul Ghafur Djawahir, um alto funcionário da divisão do hajj do ministério, disse que grupos anticorrupção interpretaram erroneamente os procedimentos do ministério e a forma de lidarem com o dinheiro depositado. Ele disse que eles também calcularam de forma errada os custos de voos para a Árabia Saudita e compararam injustamente a gestão do hajj na Indonésia com a da Malásia, onde dizem que os peregrinos pagam menos e obtêm um serviço melhor.

“No final, é isso o que cria a opinião pública de que há uma enorme corrupção aqui”, disse Djawahir, acrescentando que “não há máfia do hajj” e que o ministério está “completamente limpo”.

Funcionários do ministério e legisladores apontaram que o preço do hajj deste ano, que está marcado para meados de novembro, foi reduzido em US$ 80 para US$ 3.342, em comparação ao ano passado.

Grupos anticorrupção argumentam que sem a propina e má gestão, o custo seria várias centenas de dólares mais baixo.

Apesar das condenações em 2006 de funcionários do ministério, incluindo um ex-ministro, por malversação dos fundos do hajj e tentativa de suborno dos auditores para aprovação das contas do ministério, os fiscais anticorrupção dizem que pouco mudou.

Segundo a Indonesian Corruption Watch, nos acordos entre o ministério e o Parlamento, os legisladores ganham descontos imensos nas viagens do hajj para si mesmos e seus parentes; as agências de turismo e outras empresas com laços políticos recebem contratos para fornecer a alimentação ou transporte. Em troca, os legisladores não questionam a forma como o ministério faz uso dos US$ 2,4 bilhões em depósitos, especialmente os juros obtidos.

“No que o dinheiro é usado, nós não sabemos”, disse Ade Irawan, um pesquisador da Indonesian Corruption Watch, a principal organização privada anticorrupção do país. “Isso é dinheiro das pessoas, dinheiro público, dinheiro dos peregrinos.”

A Indonesian Pilgrims Rabithah, uma organização privada que há muito pressiona pela reforma da gestão do hajj, disse que o ministério e os legisladores negociam longe de espaços públicos para manter seus acordos secretos.

“Nunca há qualquer prestação de contas”, disse Ade Marfuddin, o presidente da organização, acrescentando: “Ninguém sabe quem recebe o que, exceto eles.”

Em um relatório recente, a Comissão para Erradicação da Corrupção, o principal órgão anticorrupção do governo, identificou 48 práticas na gestão do hajj que poderiam levar a corrupção. Mochammad Jasin, um vice-presidente da comissão, disse que esta aguardaria para ver se o ministério implantará as reformas sugeridas antes de considerar uma investigação plena de possível corrupção.

Segundo as cotas estabelecidas pelas autoridades sauditas, 211 mil indonésios serão autorizados a ir para Meca neste ano. Cerca de 17 mil deles irão em excursões privadas custando muitas vezes mais o preço do pacote público, de US$ 3.342 – uma soma que frequentemente representa uma vida inteira de economias e a venda de imóvel ou rebanho.

Incapaz de pagar pelo hajj público, Arif Supardi, 53 anos, entrou na Arábia Saudita com um visto de negócios pouco antes do hajj, há dois anos. (O governo saudita estimou que 30% dos 2,5 milhões de peregrinos do ano passado foram a Meca sem permissões válidas.) Ele disse que conseguiu concluir sua peregrinação por US$ 2 mil, se tornando o que ele e outros chamam de “mochileiros do hajj”.

“Havia muitos da Indonésia, a maioria por causa do custo”, ele disse.

Os candidatos a peregrinos devem depositar atualmente US$ 2.500 para registro para o hajj, na prática emprestando ao ministério esse valor até que chegue sua vez de ir ao hajj, daqui seis anos. Segundo o ministério da religião, entre 15 mil e 20 mil pessoas se registram a cada mês. O interesse em realizar o hajj, uma peregrinação que é uma obrigação para todo adulto muçulmano física e financeiramente capaz, aumentou na última década à medida que os indonésios se tornavam mais ricos e o Islã ganhava uma importância cada vez maior em suas vidas.

Mas Ian Imron, 38 anos, que foi dono de uma agência de viagens que oferecia excursões privadas do hajj de 1988 a 2006, disse que o aumento do interesse também levou a uma ênfase excessiva no lado comercial do hajj. As agências de viagem com laços políticos e grande capital incharam. Quando ele enfrentou dificuldades financeiras em 2006, Imron as interpretou como um sinal para abandonar o ramo.

“Talvez no início, realmente se tratava de religião”, disse Imron. “Mas então virou apenas negócios.”

Em um rico bairro no sul de Jacarta, a agência de viagem Al Amin Universal se gaba de ter levado políticos proeminentes ao hajj em excursões privadas. Os funcionários da agência disseram que seus proprietários – a família de Melani Suharli, um vice-presidente da Assembleia Consultiva Popular, uma divisão do Legislativo– não estavam disponíveis para falar.

Apesar do serviço ruim amplamente noticiado nas viagens públicas, a maioria dos peregrinos não se queixa, já que os funcionários do ministério alertam que a manifestação das queixas prejudicará sua experiência religiosa, disseram grupos anticorrupção.

Achmad Fachin, 50 anos, que vendeu seu carro para ir para Meca com sua esposa, disse que não reclamou durante o hajj, mas que tem ficado furioso com a corrupção.

“Mas, no final, deixe estar”, ele disse. “Eles responderão por aquilo que fizerem. Nós estávamos cumprindo um dever religioso e pagamos as taxas com sinceridade.”

Muktita Suhartono contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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