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07/08/2010 - 00h01

A guerra dos e-books: função específica versus funções múltiplas

The New York Times
Randall Stross*
  • A Amazon lançou duas máquinas de 3ª geração - menores, mais leves e com textos mais nítidos

    A Amazon lançou duas máquinas de 3ª geração - menores, mais leves e com textos mais nítidos

O Kindle da Amazon.com foi projetado para permitir que nós façamos uma só coisa muito bem: ler. Para sobreviver, ele tem que ser excelente nisto, não apenas se esforçando para ficar um pouco à frente dos outros e-readers, mas também mantendo uma enorme liderança sobre o iPad da Apple e os seus futuros concorrentes. O iPad, que executa múltiplas tarefas, pode fazer milhares de coisas muito bem. Quando é usado para a leitura de livros, ele não é excelente, mas quebra o galho.

No mês passado a Amazon lançou duas máquinas de terceira geração – menores, mais leves e com textos mais nítidos. Uma delas tem o preço novo, e mais baixo, de US$ 139 (R$ 245).

“Eu acredito que haverá uma décima e uma vigésima geração do Kindle”, afirmou Jeffrey P. Bezos, o diretor executivo da Amazon. Se as palavras dele soaram meio defensivas, isso provavelmente se deve ao sucesso imediato do multifunções iPad: 3,3 milhões de unidades vendidas desde o seu lançamento em abril deste ano.

Nós sabemos quantos iPads foram vendidos porque a Apple é transparente ao anunciar a quantidade de unidades vendidas de todos os seus produtos.

Mas, no caso da Amazon, a história é diferente. Nós não sabemos a magnitude das vendas do Kindle pela Amazon porque a companhia é avessa a revelar detalhes das suas operações. Quando anuncia os seus resultados financeiros, a Amazon, que vende praticamente tudo que possa ser colocado em uma caixa ou enviado eletronicamente, divide os seus negócios em apenas três categorias: “mídia”, que coloca livros, música e vídeos em um aglomerado indistinto; “produtos eletrônicos e outros produtos gerais”, um aglomerado também indistinto e ainda maior; e “outros”.

“Os números da Amazon são uma verdadeira caixa preta”, afirma Colin W. Gillis, diretor de pesquisas do BGC Financial. “A Apple nos informou quando vendeu um milhão de iPads”, diz ele. “E a Apple anuncia a cada semestre quantos dos seus produtos, de todas as categorias, foram vendidos. Por que a Amazon não faz o mesmo em relação ao Kindle? Vamos lá, se vocês tem orgulho do produto, nos digam quantos venderam!”.

Uma porta-voz da Amazon procurou justificar essa atitude na semana passada: “Nós não divulgamos números por motivos de concorrência”.
A Amazon chama o Kindle de “purpose-built device” (algo como “dispositivo de função específica”), deixando espaço para usos secundários, mas preservando a ideia de que o aparelho tem um objetivo central. Quando o usuário está sob a luz do sol, o texto do Kindle força menos a vista. E a duração da bateria do aparelho é medida em semanas, e não em horas.

A Amazon poderia introduzir cores no Kindle – existe uma versão a cores da tecnologia E-Ink que a empresa utiliza no aparelho –, mas o acréscimo desse recurso iria reduzir a resolução da imagem ou comprometer de alguma outra forma a experiência de leitura. “Na maior parte dos livros que os usuários leem, a imagem em preto e branco é um recurso, e não um problema”, afirma Russ Grandinetti, vice-presidente do setor responsável pelo Kindle.

Não é nenhuma surpresa o fato de um “purpose-built device” apresentar um desempenho melhor na sua única função. A questão é saber por quantos anos – digamos, na temporada de férias de 2020 – os consumidores ainda estarão dispostos a comprar dispositivos de função única além dos irresistíveis aparelhos de múltiplas tarefas.

Para responder a isso, Grandinetti cita como exemplo os calçados para corrida. “Se eu for correr 16 quilômetros, desejarei usar um calçado realmente bem projetado, em vez de um tênis Converse comum”, diz ele.

Um outro exemplo citado por ele é o das câmeras fotográficas. “Por melhor que seja a tecnologia da câmera do meu telefone celular, no aniversário de três anos do meu filho eu usarei a minha SLR 35mm”, afirma Grandinetti.

Entretanto, se o Kindle proporcionasse uma experiência de leitura tão superior à do iPad, não seria de se esperar que ouvíssemos o seguinte comentário sobre os indivíduos que possuem ambos: “Evidências preliminares indicam que os proprietários do Kindle estão comprando iPads e começando a transferir uma parte das suas compras de eBooks para a iBookstore da Apple”, escreveu Marianne Wolk, uma analista do Grupo Internacional Susquehanna, em um relatório para os clientes no final de junho último.

“Os usuários do iPad estão comprando muito mais livros do que nós esperávamos, tendo feito cinco milhões de downloads de e-books nos primeiros 65 dias, o que significa cerca de 2,5 livros por aparelho, contra a média de três livros por Kindle que foi registrada no trimestre”, disse ela. A iBookstore da Apple concorre com a loja Kindle da Amazon sem competir com os preços desta última (a uniformidade de preços da Amazon e da Apple para vários dos e-books mais populares chamou atenção de Richard Blumenthal, o procurador-geral do Estado de Connecticut, que afirmou na semana passada que o seu gabinete deu início a uma investigação dos acordos das duas empresas com as principais editoras de e-books que “ameaçam encorajar preços coordenados e desencorajar descontos”).

Quando o Kindle foi lançado no final de 2007, ele custava US$ 399 (R$ 702). Será que o novo preço de US$ 139 reflete uma decisão de abrir mão de lucros com o aparelho para incrementar as vendas da sua loja de livros Kindle? De jeito nenhum, segundo a Amazon.

“Nós acreditamos que cada um desses dois negócios deve preservar o seu próprio terreno”, afirma Grandinetti. Os compradores de e-books não precisam possuir um aparelho Kindle para lerem e-books comprados na loja Kindle: a companhia dele não acredita em dispositivos exclusivos e fornece softwares gratuitos para que os e-books Kindle possam ser lidos em aparelhos iPad, iPhone, Mac, PC, BlackBerry e Android.

Os analistas estão curiosos por saber qual é a margem de lucro da Amazon com a venda de aparelhos Kindle. “É difícil concluir que a Amazon está ganhando muito dinheiro com isso, já que o novo aparelho custa apenas US$ 139”, afirma Wolk.

O Nook, o aparelho de leitura de e-books da Barnes & Noble’s, e o Reader da Sony estão sendo vendidos por US$ 149 (R$ 262).

Muita gente acha que o preço do Kindle precisa ser abaixado para menos de US$ 100 (R$ 176) para entusiasmar o comprador hesitante. Mas os consumidores não estão esperando por essa pechincha. Os dois novos modelos do Kindle, que deverão começar a ser enviados em 27 de agosto, já estão esgotados, e as encomendas feitas hoje serão enviadas ainda mais tarde.

Isso não resolve a antiga dúvida em relação aos atrativos do Kindle em termos de mercado de massa em meio aos tabletes de múltiplas funções, que tornar-se-ão mais leves e baratos. Sem dúvida a Amazon pode falar sobre uma futura vigésima geração do Kindle. Mas, a menos que ela tenha coragem suficiente para revelar os números reais de vendas do Kindle, a impressão que se tem é que a empresa está tentando aparentar que tudo vai bem em meio a um desastre. Os processadores de palavras de função exclusiva e as máquinas de função única da década de setenta fizeram bastante sucesso durante cerca de dez anos.

* Randall Stross é um escritor e professor da Universidade Estadual San Jose, e mora na região do Vale do Silício, na Califórnia

Tradução: UOL

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