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07/08/2010 - 01h58

História de cambojano que perseguiu assassino dos pais vira filme

The New York Times
Seth Mydans
Em Phnom Penh (Camboja)
  • Thet Sambath, que foi atrás do assassino de seus pais; história virou filme

    Thet Sambath, que foi atrás do assassino de seus pais; história virou filme

Por sete longos anos, Thet Sambath viveu em um mundo de segredos enquanto cortejava e conquistava a confiança do ex-líder do Khmer Vermelho, que ele considerava responsável pela morte de seus pais.

Mês após mês, ele disse, ele se sentava por horas com o líder idoso, Nuon Chea, compartilhando refeições e confidencias, gravando suas palavras em milhares de horas de áudio e vídeo até ele finalmente confessar sua culpa.

Sua busca por Nuon Chea se tornou uma obsessão que ele disse ter escondido de todos, até mesmo de sua esposa, que nunca soube para onde ele ia, no que ele chamava de sua investigação.

“Eu esqueci de tudo”, disse Thet Sambath, 42 anos. “Eu esqueci de ganhar dinheiro para sustentar minha família. Eu vendi minhas terras. Eu vendi tudo. Meu irmão me disse: ‘Você precisa parar de ir para a província. Para quê? Você precisa cuidar de seus filhos, de sua esposa, construir uma casa’.”

“Ele não sabia o que estava fazendo. Eu nunca contei para ninguém. Se dissesse, eles teriam me impedido.”

Nuon Chea, o ideólogo chefe de Pol Pot, que morreu em 1998, é um dos quatro líderes do Khmer Vermelho que deverão ser julgados no próximo ano por crimes contra a humanidade, devido às mortes de 1,7 milhão de pessoas de 1975 a 1979.

Esse julgamento ocorrerá após a condenação no mês passado do diretor de prisão do Khmer Vermelho, Kaing Guek Eav, conhecido como Duch.

As mortes foram uma parte necessária da revolução, disse Nuon Chea para Thet Sambath durante suas discussões, que formam parte de “Enemies of the People” (Inimigos do Povo), um filme sobre a busca de Thet Sambath por respostas, que está atualmente em exibição em Nova York e Los Angeles.

Thet Sambath e seu co-produtor britânico, Rob Lemkin, recusaram o pedido do tribunal por uma cópia do filme, dizendo que prometeram a Nuon Chea que seus comentários seriam usadas “para fins históricos, não evidência”.

“Eles foram mortos e destruídos”, disse Nuon Chea, atualmente com 84 anos, frágil e doente, mas sem arrependimento. “Se tivéssemos os deixado vivos, eles teriam tomado as diretrizes do partido.”

Até quase o final de suas entrevistas, em 2007, pouco antes de Nuon Chea ser preso, Thet Sambath manteve outro segredo: o de que seus pais estavam entre as vítimas.

Se Nuon Chea tivesse conhecimento disso, ele disse, ele poderia não ter baixado sua guarda.

O pai de Thet Sambath foi esfaqueado após resistir à ordem do Khmer Vermelho de entregar sua propriedade, ele disse. Sua mãe morreu durante o parto após ser forçada a se casar com um miliciano do Khmer Vermelho.

“Após 1979, eu chorava quase toda noite”, disse Thet Sambath.

“Eu senti que era um órfão sem pais que cuidassem de mim, e esse sentimento me levou a tentar descobrir o que aconteceu.”

Quando Nuon Chea soube a respeito de seus pais, ele disse, “ele ficou chocado. Ele não conseguia falar. Ele ficou muito triste”.

E então, possivelmente pela primeira vez respondendo a uma morte individual, Nuon Chea pediu desculpas.

Foi Nuon Chea que pediu a ele que mantivesse segredos, disse Thet Sambath, da mesma forma que pode ter instruído os jovens quadros militares do Khmer Vermelho quando o movimento ainda era uma insurreição secreta. “No início, foi muito difícil para mim, mas depois eu me acostumei”, ele disse.

Se os encontros deles se tornassem conhecidos, um deles poderia sair ferido, lhe disse o velho revolucionário. “Ele disse que ganhou experiência nos anos 60”, disse Thet Sambath, “e foi assim que ele chegou até 1975”, quando o Khmer Vermelho tomou o poder.

“Ele me disse para manter segredo até da minha própria família, e então eu teria sucesso”, disse Thet Sambath, e foi o que ele fez. Até mesmo após a conclusão de seu filme, ele não contou para sua esposa e filhos a respeito, talvez por se sentir incapaz de abrir mão da missão que o consumiu.

Mesmo em suas orações, ele ainda não contou às almas de seus pais, em nome dos quais ele realizou sua busca.

“Algum dia eu planejo realizar uma cerimônia para eles”, ele disse. “Eu acenderei uma vela e queimarei um incenso e direi: ‘Sim, fui bem-sucedido. Eu entendo o que aconteceu a vocês e ao povo cambojano. Vocês podem encontrar sua paz e renascerem em uma vida melhor’.”

Foi essa missão que atraiu Thet Sambath ao jornalismo, onde ele esperava aprender as ferramentas de investigação, ele disse. Ele trabalhou primeiro para o “The Cambodia Daily” e agora trabalha para o “Phnom Penh Post”; eles são os dois jornais de língua inglesa do Camboja.

“O jornalismo me ensinou a como fazer contato com as pessoas e como fazer perguntas”, ele disse. Seus anos de entrevistas tornaram “Enemies of the People” um documentário cativante, que foi premiado no Festival de Cinema de Sundance e outros festivais.

Além de Nuon Chea, ele fez contato com outros agentes de menor escalão do Khmer Vermelho, algumas das pessoas que realizaram as execuções que faziam parte da visão de Nuon Chea.

Os resultados são assustadores. Em uma entrevista para a câmera, um agricultor descreve seu trabalho nos campos de extermínio, trabalho no qual sua mão ficou tão cansada de cortar gargantas que ele teve que mudar o modo de segurar a faca.

“Ela estava no último grupo”, diz o matador, lembrando de uma execução. “Nós matamos muitos, exceto ela. Ela agarrou minhas pernas e gritava: ‘Tio, por favor, me deixe viver com você’. Eu disse: ‘Você não pode viver comigo’. Ela disse: ‘Por favor, apenas me deixe viver com você’. Eu disse: ‘Você viverá comigo para sempre?’ Ela disse: ‘Sim, eu vou’. Ela abraçou minhas pernas. Então Eng gritou comigo: ‘O que você está esperando? Depressa, mate ela’.”

“Então eu comecei a matá-la e a arrastei para a vala.”

Os matadores, executando ordens que chegavam até eles por meio de uma cadeia de comando que vinha de cima, falam de um profundo remorso que Nuon Chea parece não ter experimentado.

“Eu me sinto desesperado, mas não sei o que fazer”, disse um homem após descrever seu trabalho como matador. “Eu nunca mais verei a luz do sol como um ser humano neste mundo. Este é o meu entendimento do dharma budista. Eu me sinto desolado.”

Mesmo assim, Thet Sambath disse que não conseguiu deixar de gostar de Nuon Chea.

“Ele é uma pessoa muito calorosa”, ele disse.

“Eu digo que gosto dele agora”, ele acrescentou. “Não significa que goste dele por seu regime 1975 a 1979. Eu claramente separo isso.”

Eles ainda conversam de vez em quando pelo telefone da prisão, disse Thet Sambath. “Quando eu pergunto, ‘Como você está?’ ele responde, ‘Oh, eu estou bem’, e ri.”

Em um dos últimos momentos do filme, Nuon Chea é escoltado a um helicóptero que o levará de seu lar rural para Phnom Penh, para julgamento.

A prisão foi um final para a longa busca por respostas de Thet Sambath e um momento complicado para o filho de duas vítimas de Nuon Chea.

“Quando ele foi levado para o helicóptero, aquilo me deixou muito triste”, diz Thet Sambath enquanto o filme se aproxima do fim. “Não que ele seja um bom homem, mas porque nos acostumamos a trabalhar juntos por quase 10 anos. Sim, eu estou triste.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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