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10/08/2010 - 07h53

Apropriando-se de um capítulo sombrio do Tibete, visando manter o controle

The New York Times
Edward Wong
Gyantse, Tibete (China)
  • Em frente ao Palácio de Potala, no Tibete, chineses celebram o 'Dia Anual da Emancipação dos Servos'

    Em frente ao Palácio de Potala, no Tibete, chineses celebram o 'Dia Anual da Emancipação dos Servos'

A fortaleza branca pairava acima dos campos, um reduto caindo aos pedaços, mas ainda imponente, empoleirado em um monte rochoso acima de uma extensão de colza dourada, cintilando à luz matinal.

Uma batalha que ocorreu aqui em 1904 mudou o curso da história do Tibete. Uma expedição britânica liderada por sir Francis E. Younghusband, o aventureiro imperial, tomou o forte e marchou para Lhasa, a capital, transformando-se na primeira força ocidental a arrombar o Tibete e tomar as concessões comerciais de seus altos lamas.

A invasão sangrenta fez os soberanos manchu da corte Qing, em Pequim, perceberem que precisariam colocar o Tibete sob seu controle em vez de continuar o tratando como um Estado vassalo.

Assim, em 1910, muito depois da partida dos britânicos, 2 mil soldados chineses ocuparam Lhasa. Isso acabou em 1913, após a desintegração da dinastia Qing, causando um período de independência de fato, que muitos tibetanos citam como a base moderna para a soberania do Tibete.

Os comunistas chineses tomaram o Tibete novamente em 1951, talvez influenciados pela decisão do imperador Qing de proteger as regiões de fronteira da China.

Atualmente, Gyantse lembra outras cidades na região central do Tibete. Suas ruas de terra são margeadas por lojas e restaurantes de propriedade de migrantes da etnia han, que muitos tibetanos veem como a onda mais recente de invasores.

Mas as autoridades chinesas preferem desviar a atenção mundial disso e apontar para os eventos em Gyantse em 1904, que convenientemente se encaixam na sua narrativa da história tibetana e chinesa.

O governo chinês insiste que o Tibete é uma parte “inalienável” da China, apropriando-se da invasão de 1904 como sendo outro capítulo na longa história dos esforços imperialistas para desmontar a China – o que o sistema de educação comunista chama de “100 anos de humilhação”.

Nessa narrativa comunista de Gyantse, os tibetanos representam os chineses que foram vítimas das potências estrangeiras durante a dinastia Qing.

“A população local resistiu à presença dos britânicos”, disse Dechu, uma mulher tibetana do escritório de relações exteriores em Lhasa, que acompanhou jornalistas estrangeiros em uma recente excursão oficial. “Eles montaram uma grande resistência, por isso ela se chama Cidade dos Heróis.”

No final dos anos 90, quando o Reino Unido devolveu Hong Kong à China, o governo chinês deu início a uma campanha de propaganda para acentuar esse tema.

Um filme melodramático sobre a invasão britânica de 1904, “Red River Valley”, foi lançado em 1997. Ele foi um sucesso e os chineses ainda o exaltam. Assisti-lo também foi obrigatório para as autoridades no Tibete e para muitos alunos escolares.

“Eu também vi um musical, duas peças, outro filme e um romance sobre o mesmo assunto, todos daquela época”, disse Robert Barnett, um estudioso sobre o Tibete da Universidade de Colúmbia, falando do final dos anos 90.

Mas ele disse que não encontrou nenhuma referência na literatura tibetana a Gyantse, como sendo a Cidade dos Heróis, antes disso.

Em 2004, no centenário da invasão britânica, as autoridades promoveram atividades para comemorá-lo, incluindo um musical: “O Massacre no Vale do Rio Vermelho”.

E há o museu do forte. Uma placa em inglês antes o identificava como sendo “Salão Memorial Antibritânico”. Em 1999, ele exibia “esculturas baratas de cenas de batalha, com legendas ininteligíveis”, segundo Patrick French, um historiador que descreveu sua visita ali em seu livro, “Tibet, Tibet”.

Então, o que aconteceu em Gyantse em 1904?

A expedição Younghusband foi enviada por lorde Curzon, o vice-rei da Índia, para forçar o 13º dalai lama a aceitar concessões comerciais. O Tibete também começou a se destacar pro eminentemente no que passou a ser conhecido como Grande Jogo, onde o império britânico e o russo disputavam por influência na Ásia Central.

As autoridades britânicas ouviram falar de uma presença russa na corte do dalai lama e queriam saber a verdade. Isso significava o envio de oficiais para Lhasa, algo que nunca tinha sido feito antes.

Younghusband se juntou ao general J.R.L. Macdonald na liderança de uma força de Sikkim, na Índia Britânica, para atravessar a Passagem de Jelap e entrar no Tibete. Eles cruzaram a fronteira em 21 de dezembro de 1903, com mais de 1.000 soldados, dois canhões Maxim e quatro peças de artilharia, segundo “Trespassers on the Roof of the World”, uma história dos esforços ocidentais para abertura do Tibete, de autoria de Peter Hopkirk. Atrás deles, na neve, vinham 10 mil operários, 7 mil mulas, 4 mil iaques e seis camelos.

Fora da aldeia de Guru, eles encontraram um acampamento de 1.500 soldados tibetanos.

O confronto teve início. Os soldados britânicos, que incluíam sikhs e gurkhas, abriram fogo. Em quatro minutos, 700 tibetanos mal armados estavam mortos ou moribundos. Posteriormente, no Cânion do Ídolo Vermelho, um desfiladeiro estreito a apenas 32 quilômetros de Gyantse, os britânicos mataram outros 200 tibetanos.

Os tibetanos montaram sua defesa final no forte em Gyantse, chamado dzong, ou jong, em tibetano. Após perderem o prazo para rendição em 5 de julho, os britânicos atacaram pelo canto sudeste do forte.

Uma linha estreita de oficiais e soldados escalou a face de rocha. “Era tão íngreme que um homem que escorregava quase necessariamente levava junto o homem atrás dele”, escreveu Perceval Landon, do “Times” de Londres.

Os tibetanos fizeram chover munição e pedras. Mas um tenente e um soldado indiano conseguiram chegar até a brecha, seguidos por outros. Os tibetanos fugiram, içando duas cordas.

“A rendição de jong teve um efeito esmagador sobre o moral tibetano”, escreveu Hopkirk. “Havia uma antiga superstição de que se o grande forte caísse nas mãos de um invasor, então uma maior resistência seria inútil.”

Os britânicos chegaram a Lhasa logo em seguida. Dois meses depois, na noite anterior à sua partida definitiva de Lhasa, Younghusband partiu para a montanha e de lá observou a cidade ancestral, onde ele teve uma curiosa epifania, que o inspirou a colocar um fim a todos os atos de derramamento de sangue e a fundar um movimento religioso, o Congresso Mundial das Fés.

“Essa euforia do momento cresceu e cresceu dentro de mim com intensidade avassaladora”, ele escreveu em um livro de memórias, “India and Tibet”. “Nunca mais eu poderia pensar de forma maligna, nem nunca mais seria inimigo de alguém. Toda a natureza e toda a humanidade foram banhadas em um brilho rosado; e a vida no futuro parecia apenas composta de alegria e luz.”

Helen Gao, em Pequim (China), contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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