UOL Notícias Internacional
 
11/08/2010 - 02h03

Merkel enfrenta decisão difícil em energia nuclear

The New York Times
Judy Dempsey
Berlim (Alemanha)
  • A chanceler alemã, Angela Merkel, durante conferência de imprensa na sede do governo alemão, em Berlim

    A chanceler alemã, Angela Merkel, durante conferência de imprensa na sede do governo alemão, em Berlim

A chanceler Angela Merkel, que tornou o combate à mudança climática uma de suas prioridades, está tendo dificuldade para encontrar um consenso até mesmo dentro de seu próprio governo a respeito de uma nova política de energia, especialmente em relação ao assunto mais controverso de todos: o futuro das usinas nucleares da Alemanha.

É um debate que está ocorrendo na Itália, Reino Unido, Suécia e em outros lugares, à medida que os governos buscam formas mais limpas de gerar energia e tentam reduzir ao mesmo tempo sua dependência do petróleo e gás natural estrangeiros. A maioria dos países decidiu que não é possível abrir mão da energia nuclear, pelo menos no futuro previsível.

Aqui na Alemanha, onde muitas pessoas estão genuinamente preocupadas com a mudança climática, há menos certeza sobre se a energia nuclear deve ser incluída como parte da solução.

Com a expectativa de que a demanda por eletricidade crescerá apenas lentamente, os oponentes argumentam que manter as 17 usinas nucleares do país operando no futuro minaria o esforço de desenvolver mais fontes de energia renováveis.

Os defensores argumentam que a energia nuclear, que é responsável pela geração de 11% da eletricidade alemã, é confiável e uma parte relativamente barata da matriz energética, que não deve ser abandonada caso o país queira atender suas necessidades.

O público alemão está dividido no meio. Um levantamento do Forsa, um instituto de pesquisa independente, publicado no mês passado na revista “Stern”, apontou que 46% dos alemães são favoráveis ao prolongamento do uso dos reatores existentes e 46% querem que eles sejam desativados.

A mudança do cenário econômico também está influenciando o difícil ato de equilibrismo, à medida que o governo luta para elaborar sua nova política de energia, que será apresentada no próximo mês.

Merkel, uma física e ex-ministra do meio ambiente, foi elogiada pelos tablóides como “Miss Mundo” em 2007, por fazer com que o então presidente George W. Bush concordasse em um compromisso de redução das emissões de gases do efeito estufa.

Mas quando a conferência da ONU sobre o clima em Copenhague ocorreu dois anos depois – no meio da recessão global– ela fracassou em persuadir o presidente Barack Obama, sem contar a China ou a Índia, a aceitar a posição ambiciosa da União Europeia de redução das emissões dos gases do efeito estufa, apesar de uma argumentação pessoal que durou 10 horas.

Agora há aqueles que desejam que Merkel ajude a retomar a iniciativa para a Europa, estabelecendo metas ainda mais ambiciosas em casa. Mas outros alertam contra fazer exigências que possam ameaçar a recuperação econômica que está apenas começando na Alemanha – liderada pelas exportações de indústrias pesadas, intensivas em energia.

“Merkel quer demonstrar que ela ainda está comprometida com a redução dos gases do efeito estufa”, disse Claudia Kemfert, uma especialista em energia do instituto de pesquisa econômica DIW, em Berlim. “Mas independente de para qual setor de energia ela olhe, ela se vê diante de lobbies poderosos.”

Em 2002, o governo anterior, liderado por uma coalizão de social-democratas e verdes, aprovou uma lei exigindo que todas as usinas nucleares do país fossem fechadas até 2022 e não fossem substituídas. Merkel não ousou questionar a lei em seu primeiro mandato, quando dividiu o poder com os social-democratas.

Os democratas livres pró-negócios, seus parceiros de coalizão desde outubro passado, são um assunto diferente. O líder do partido, Guido Westerwelle, que é também o ministro das Relações Exteriores, disse neste mês que queria ver uma prorrogação do funcionamento das usinas nucleares.

“Elas seriam uma tecnologia de ponte até que a energia renovável possa atingir uma meta”, após a qual as usinas seriam gradualmente desativadas, disse Westerwelle. Ele apoiou até mesmo a indústria do carvão, desde que a produção fosse “mais limpa, moderna e mais eficiente”.

O ministro da economia, Rainer Bruderle, outro democrata livre, tem a mesma opinião. Merkel e seus democratas cristãos ainda precisam adotar uma posição firme, mas em geral apreciam a ideia de prolongar o uso de usinas nucleares. O pequeno partido irmão da União Democrata Cristã na Baviera, a União Social Cristã, é veemente na posição de que permaneçam funcionando.

Mas no Ministério do Meio Ambiente, Norbert Rottgen, um democrata cristão, irritou muitos de seus companheiros conservadores ao questionar a necessidade de prolongar o uso de usinas nucleares. E não apenas isso.

Rottgen, que esteve na cúpula de Copenhague ao lado de Merkel, desde então tem falado mais abertamente do que Merkel na defesa da necessidade de maiores reduções nos gases do efeito estufa. Ele deseja que a União Europeia se comprometa unilateralmente em reduzir as emissões de dióxido de carbono em 30% em 2020, em comparação aos níveis de 1990, o ano referencial, em comparação ao atual compromisso de 20%.

Mas Merkel não está mais convencida de que a Europa pode fazer isso sozinha, após ser derrotada em Copenhague. E enquanto ela reconsidera que papel a Europa pode exercer de forma convincente, a perspectiva de reabertura da questão nuclear tem agradado as empresas de energia.

Jurgen Grossmann, o presidente-executivo da RWE, uma das maiores empresas de energia da Alemanha, insiste que o país não pode sobreviver sem energia nuclear, que ele argumenta ser segura, limpa e barata.

Mas Jurgen Trittin, um líder do Partido Verde atualmente de oposição e um ex-ministro do Meio Ambiente, rejeitou a ideia. “Prolongar o uso de usinas nucleares não é necessário; é danoso”, ele disse, se referindo à questão de descarte do lixo nuclear. Ele acrescentou que a “energia renovável em breve representará 12,5% do consumo doméstico bruto de energia”, mais do que a nuclear.

De fato, o Gabinete concordou neste mês com um plano de ação de energia renovável para que energia solar, eólica e de outras fontes renováveis representem 20% do consumo final bruto de energia em 2020, um aumento em comparação aos atuais 10%.

“Há um amplo consenso por toda a indústria de que temos que expandir a energia renovável”, disse Josef Auer, um especialista em energia do Deutsche Bank Research. “Mas realmente exigirá a expansão da grade para que a energia renovável possa ingressar nela.”

As companhias elétricas da Alemanha, como na maioria dos países da União Europeia, são obrigadas a comprar eletricidade gerada por fontes renováveis, produzida por indivíduos e empresas. Em alguns casos, essa energia é altamente subsidiada, e Merkel deseja reduzir esses subsídios.

Para Trittin, este é o centro do debate de energia. Quem, ele perguntou, estaria disposto a investir pesadamente em mais energia eólica e solar, quando o governo está reduzindo seu apoio e ao mesmo tempo está pensando em manter as usinas nucleares funcionando?

Assim que ela retornar de suas férias de verão em Tirol do Sul, no próximo fim de semana, Merkel terá que chegar a um acordo. Isso poderia significar o fechamento de algumas usinas nucleares, mas prolongar o funcionamento das mais modernas. Quanto às fontes renováveis, ela não pode recuar da meta para 2020, já que o custo político seria alto em um momento em que sua popularidade se encontra em baixa recorde.

Enquanto isso, os social-democratas e verdes estão buscando explorar o debate de energia, na esperança de enfraquecer ainda mais os partidos do governo antes de importantes eleições regionais, no ano que vem.

“É uma grande confusão”, disse Kemfert. “Não há uma política de energia real. Merkel deveria ter apresentado uma meses atrás.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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