UOL Notícias Internacional
 
13/08/2010 - 00h01

Erros humanos antigos são responsáveis por incêndios de turfeiras na Rússia

The New York Times
Andrew E. Kramer
Em Elektrogorsk (Rússia)
  • Habitante de Moscou (Rússia) utiliza máscara para cobrir rosto da fumaça, provocada por incêndios

    Habitante de Moscou (Rússia) utiliza máscara para cobrir rosto da fumaça, provocada por incêndios

Durante duas semanas, soldados portando motosserras derrubaram todas as árvores que viram. Bombeiros instalaram uma tubulação em um lago próximo e bombearam continuamente 380 litros d'água por minuto, até que a superfície da área conhecida como “Incêndio Número 3” transformou-se em um local repleto de tocos de árvores derrubadas. E mesmo assim o fogo continuou queimando.

Sob a superfície, o fogo insinuou-se em uma turfeira praticamente impenetrável, provocando a fumaça que – até o vento mudar de direção, na quinta-feira (12/08), proporcionando aquilo que os meteorologistas afirmaram ser provavelmente um alívio temporário – está sufocando a capital russa neste verão.

Dentre todos os problemas que vêm afligindo a Rússia neste verão de excessivo calor, incêndios florestais, fumaça e quebra de safras sem precedentes, talvez nenhum seja tão persistente e incontrolável quanto os incêndios de turfeiras. Muitos afirmam que é especialmente desesperador o fato de se saber que o problema foi provocado por seres humanos.

Já em 1918, engenheiros soviéticos drenaram pântanos para que fosse possível extrair turfa com o objetivo de alimentar usinas termoelétricas. Essa prática foi abandonada na década de cinquenta, após reservas de gás terem sido descobertas na Sibéria, mas as turfeiras jamais voltaram a ser inundadas, embora as autoridades russas estejam atualmente cogitando fazer isso.

Por ora, no entanto, os bombeiros têm enfrentado incêndios subterrâneos que estão entre os mais difíceis de apagar em todo o mundo, segundo a pequena comunidade de especialistas em incêndios de turfeiras. “Toda vez que acreditamos que um incêndio foi extinto, ele recomeça a emitir fumaça”, afirma Sergei A. Andreyev, um soldado que maneja uma mangueira no “Incêndio Número 3”.

O único método comprovado de supressão de incêndios em turfeiras é inundar novamente esse material, um trabalho extremamente difícil. No vasto universo do combate a incêndios, existe muita glória a ser conquistada. Mas isso não se aplica aos homens que combatem os incêndios em turfeiras.

Este é acima de tudo um trabalho de engenharia e escavação. Infelizmente para os moradores da capital russa, a região em torno de Moscou é especialmente vulnerável a esse tipo de incêndio. Dos dez incêndios registrados nos arredores de Elektrogorsk, ou Cidade Elétrica, que recebeu este nome devido a um antigo projeto para iluminar Moscou com a energia da turfa, quatro estão ardendo nas turfeiras secas.
Incêndios de turfeiras geralmente consomem uma área bem menor do que os incêndios florestais, que avançam com rapidez. Mas eles são capazes de queimar uma quantidade de biomassa por hectare dez vezes maior do que os incêndios ocorridos acima da camada do solo. E eles emitem muito mais fumaça.

Neste verão, na Rússia, as autoridades anunciaram a ocorrência de 26.509 incêndios, que até o momento queimaram uma área de 770 mil hectares. E 1.104 deles são incêndios em turfeiras, que correspondem a um total de cerca de 1.700 hectares. “A dinâmica, as emissões e o combate a este tipo de incêndio são completamente diferentes do que se vê em um incêndio acima do solo”, explicou em uma entrevista por telefone Guillermo Rein, um professor da Universidade de Edimburgo, na Escócia, que é uma autoridade em incêndios de turfeiras. “Este é um problema enorme que ninguém está examinando. Já os incêndios florestais estão sempre nos noticiários”.

Na última terça-feira, o primeiro-ministro Vladimir V. Putin só confirmou a observação de Rein ao decolar, alegadamente na função de copiloto, em um avião anfíbio Be-200 de combate a incêndios, e voar sobre uma floresta em chamas na Rússia central, embora, ao que se saiba, ele nunca tenha feito nenhum curso de pilotagem de aeronaves. O primeiro-ministro foi mostrado na televisão estatal pressionando um botão da aeronave para despejar toneladas de água sobre um foco de incêndio, e perguntando a seguir: “Acertei?”.“Foi bem no alvo”, respondeu o piloto.

O combate a incêndios de turfeiras é um trabalho exaustivo, executado em meio à lama, e que demora semanas ou meses. Durante todo esse período, dificilmente se vê qualquer chama. A vegetação coberta e decomposta queima lentamente e libera vapores nas profundezas do subsolo.
Os russos, que são conhecidos pela sua habilidade em combaterem incêndios de turfeiras, empregam diversas técnicas.

No “Incêndio Número 3” eles estão encharcando a turfa com uma mangueira dotada de um bico de irrigação, que muda de local de hora em hora. Os caminhões de bombeiros também são equipados com um bico de mangueira em formato de agulha, que é fincado no solo. À medida que a água é bombeada para debaixo da terra, o vapor sai, com um chiado. E às vezes os bombeiros também escavam a camada de turfa até a estrutura rochosa subjacente, criando um aceiro de contenção em torno da turfa seca.

Os incêndios de turfeiras podem apresentar perigos especiais. Às vezes, por exemplo, o fogo cria cavidades subterrâneas na turfeira, nas quais bombeiros ou os seus caminhões podem afundar. Isto, porém ainda não aconteceu neste ano, afirma Mikhail A. Mironov, porta-voz do Ministério para Situações de Emergência na região de Moscou. Os incêndios de turfeiras podem também destruir as raízes das plantas, de forma que árvores aparentemente saudáveis caem sem nenhum aviso. Elas são cortadas como medida de precaução.

Aqui, os soldados enxugam o suor misturado com cinzas dos seus rostos, e a cada meia hora eles transferem as mangueiras de local para molhar outro trecho do terreno afetado. Talvez a característica mais nociva e perigosa dos incêndios de turfeiras seja a densa fumaça. Em um fogo de superfície, o calor lança a coluna de fumaça na atmosfera. Mas no incêndio de turfeiras, com as suas temperaturas superficiais relativamente baixas, a fumaça avança pelo solo, infiltrando-se em residências, sufocando pulmões e interrompendo voos nos aeroportos.
Todos os países que possuem reservas de turfa – os quatro maiores, segundo Rein, são Rússia, Canadá, Estados Unidos e Indonésia – experimentam incêndios de turfeiras. Os incêndios são mais comuns nas turfeiras tropicais do que nas boreais, diz o especialista, embora o aquecimento global possa modificar essa situação.

A dificuldade de contenção de um incêndio de turfeira depende da profundidade em que se encontra a turfa e do seu teor de umidade. Os campos mais profundos e secos em torno de Moscou, com camadas de turfa de até cinco metros de espessura, representam um problema especial. Uma quantidade tão grande de água é necessária para extinguir os incêndios de turfeiras que, neste verão, o governo russo está instalando uma tubulação de 50 quilômetros de extensão do Rio Oka até uma região a leste de Moscou que está sendo atingida por esse tipo de incêndio. O ministro das Situações de Emergência, Sergei K. Shoigu, visitou a área na última quarta-feira para inspecionar a tubulação, e na quinta-feira a água começou a fluir.

Aleksei A. Yermolenko, diretor do Departamento de Preservação da Agência Federal de Florestas, afirma que uma onda de incêndios de turfeiras em 2002 fez com que o governo da região de Moscou elaborasse planos no sentido de voltar a inundar as antigas minas de turfa, mas esses planos ainda não se materializaram. Segundo ele, neste verão a questão será novamente discutida. “É claro que seria mais fácil extinguir esses incêndios se nós não tivéssemos drenado os pântanos”, acrescenta Yermolenko.
 

Tradução: UOL

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