UOL Notícias Internacional
 
13/08/2010 - 03h39

Forças indianas enfrentam maior revolta na Caxemira

The New York Times
Lydia Polgreen
Srinagar, Caxemira
  • Manifestantes da Caxemira atiram pedras em policiais indianos durante protesto em Srinagar

    Manifestantes da Caxemira atiram pedras em policiais indianos durante protesto em Srinagar

No fim de noite de domingo, após seis dias em suporte de vida com uma bala em seu cérebro, Fida Nabi, um estudante colegial de 19 anos, teve seus aparelhos desligados em um hospital daqui.

Nabi foi a 50ª pessoa a morrer no sangrento verão de fúria da Caxemira. Ele levou um tiro na cabeça, disseram sua família e testemunhas, durante um protesto contra a presença militar da Índia nesta província disputada.

Por décadas, a Índia manteve centenas de milhares de forças de segurança na Caxemira para lutar contra uma insurreição patrocinada pelo Paquistão, que também reivindica esta região de fronteira. A insurreição foi em grande parte derrotada. Mas as forças indianas permanecem aqui e hoje enfrentam uma ameaça potencialmente mais perigosa para a maior democracia do mundo –uma revolta popular, semelhante à intifada palestina, contra a presença militar indiana, que inclui não apenas homens jovens atirando pedras, mas também suas irmãs, mães, tios e avós.

Os protestos, que estouraram pelo terceiro verão consecutivo, levaram a Índia a uma de suas crises internas mais sérias na memória recente. Não apenas por causa de sua ferocidade e persistência, mas porque sinaliza o fracasso de décadas de esforços para obter o apoio dos caxemires usando todas as ferramentas disponíveis –dinheiro, eleições e força.

“Nós precisamos rever completamente nossas políticas na Caxemira”, disse Amitabh Mattoo, um professor de assuntos estratégicos da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Déli, e um hindu caxemir. “Não se trata de dinheiro – foram gastas somas imensas de dinheiro. Não se trata de eleições justas. Trata-se de conquistar uma geração de caxemires que pensam na Índia como sendo um monstro imenso, representado por bunkers e forças de segurança.”

De fato, a exigência da Caxemira pela autodeterminação é maior hoje do que talvez em qualquer outro momento na história turbulenta da região. Isso ocorre enquanto os esforços diplomáticos permanecem congelados –e em parte por causa disso– para solucionar a disputa criada há mais de 60 anos com a divisão da Índia de maioria hindu e o Paquistão muçulmano. Atualmente, cada país controla parte da Caxemira, cuja população é de maioria muçulmana.

Negociações secretas em 2007, que chegaram perto de criar uma região autônoma compartilhada pelos dois países, fracassaram quando Pervez Musharraf, o então presidente do Paquistão, perdeu seu controle do poder. Os ataques terroristas em Mumbai, a capital financeira da Índia, por militantes paquistaneses em 2008, minaram qualquer esperança de novas negociações.

A Índia também tem rejeitado qualquer tentativa de mediação externa ou de solicitações diplomáticas, incluindo esforços americanos. A intransigência deixou os caxemires de mãos vazias e as autoridades americanas com pouco a oferecer ao Paquistão em relação à sua preocupação central –a Índia e a Caxemira– enquanto lutam para encorajar a ajuda do Paquistão na repressão ao Taleban e outros militantes no país.

Sem nenhum espaço aparente para progresso, muitos caxemires estão entrando em desespero de que sua luta está transcorrendo em um vácuo, e estão tentando resolver o assunto com as próprias mãos.
“O que estamos vendo hoje é uma reação a 20 anos de opressão”, disse Mirwaiz Umer Farooq, o clérigo chefe da mesquita principal de Srinagar e um líder separatista moderado. Os caxemires, ele disse, estão “furiosos, humilhados e dispostos a enfrentar a morte”.

Apenas neste verão (no Hemisfério Norte) ocorreram quase 900 confrontos entre manifestantes e forças de segurança, que deixaram mais de 50 civis mortos, a maioria deles por ferimentos de bala. Apesar de mais de 1.200 soldados terem sido feridos pelas pedras atiradas pela multidão, nenhum foi morto nos distúrbios, levando à pergunta sobre o motivo das forças de segurança indianas estarem usando força letal contra civis desarmados – e por que há tão poucos protestos internacionais.

“O mundo está em silêncio enquanto os caxemires morrem nas ruas”, disse Altaf Ahmed, um professor de 31 anos.

Na terça-feira, o primeiro-ministro Manmohan Singh fez um apelo emocionado pela paz.
“Eu posso sentir a dor e entender a frustração que leva os jovens às ruas na Caxemira”, disse o primeiro-ministro indiano em um discurso televisionado. “Muitos deles nunca viram nada além de violência e conflito em suas vidas e estão marcados pelo sofrimento.”

De fato, há um senso palpável de oportunidades perdidas. Apesar dos protestos dos últimos anos, o Vale da Caxemira desfrutou nos últimos anos de um período de paz.

A insurreição dos anos 90 praticamente secou e as eleições de 2008 atraíram o maior percentual de eleitores em uma geração. O novo ministro chefe, Omar Abdullah, herdeiro de uma importante família política da Caxemira e cujo rosto novo parecia adequado para trazer uma melhor governança e prosperidade ao território, foi recebido com expectativas elevadas.

Mas as promessas eleitorais, como a derrubada das leis que protegem as forças de segurança de investigação e a desmilitarização do Estado, não foram cumpridas. Após dois verões de protestos contra queixas específicas, a inquietação deste verão assumiu um novo caráter, um mais difícil de definir e aplacar.

Essa revolta levou a um ciclo de violência que o governo indiano parece impotente para deter. Os eventos que se desenrolaram na semana passada em Pulwama, uma pequena cidade a cerca de 30 quilômetros de Srinagar, ilustram como a violência alimenta a si mesma.

Tudo começou em 2 de agosto, quando um jovem, Mohammad Yacoub Bhatt, de uma aldeia próxima de Pulwama, foi morto a tiros durante uma marcha em protesto pelas mortes de outros jovens manifestantes.

Quatro dias depois, uma marcha ocorreu em protesto por sua morte. Logo ela inchou para milhares. A polícia bloqueou a estrada e se recusou a deixar que os manifestantes passassem, temendo que a multidão incendiasse os prédios do governo, como fizeram multidões anteriores.
O que aconteceu em seguida é contestado. Os manifestantes alegam que ao tentarem ultrapassar a barricada, a polícia abriu fogo.

“Nós não achávamos que eles atirariam”, disse Malik Shahid, 17 anos, que participou da marcha. “Não havia violência. Era um protesto pacífico.”

Primeiro a polícia disparou para o alto, disseram testemunhas, depois contra a multidão que se dispersava. Uma bala derrubou o tio de Shahid, Shabir Ahmed Malik, um motorista de 24 anos, e o matou na hora. Shalid, um colegial que espera se tornar um engenheiro, disse que a recente violência serve como evidência para ele que permanecer parte da Índia é impossível.
“Se a Índia tomasse medidas contra aqueles que nos matam, talvez as pessoas na Caxemira se mostrariam mais dispostas”, ele disse. “Mas como não há justiça, como podemos permanecer parte da Índia? Eles não fazem nada, apenas nos matam. Então buscaremos a liberdade.”

O comandante Prabhakar Tripathy, porta-voz da Força Policial da Reserva Central, a principal força paramilitar que tenta manter a ordem na Caxemira, se recusou a comentar o episódio, mas disse que os protestos não foram tão espontâneos quanto pareceram.

“Militantes estão se misturando à multidão, disparando balas em meio à multidão”, disse Tripathy. “Eles agora estão tentando fomentar este confronto entre as pessoas e as forças de segurança.”

“Nós estamos reagindo com gás lacrimogêneo, balas de borracha, disparando contra o ar, mas nada funciona aqui”, ele disse. “Quando uma multidão de milhares ataca o quartel, o que você pode fazer?”

As autoridades indianas tentaram retratar os jovens atiradores de pedra da Caxemira como peões iletrados das forças jihadistas do outro lado da fronteira paquistanesa, sugerindo que desenvolvimento econômico e empregos são a chave para tirar os jovens das ruas.

Mas muitos dos atiradores de pedras estão longe de ser iletrados. Eles se organizam no Facebook, criando grupos como nomes como “Eu Sou um Atirador de Pedras Caxemir”. Um jovem que participa regularmente dos protestos e atende pelo nome de guerra de Khalid Khan, tem um MBA e um emprego bem-remunerado.

“Atirar pedras é uma forma de resistência aos atos deles de repressão diante de protestos pacíficos”, ele disse em uma entrevista. “Eu chamaria de autodefesa. Pedras não matam. As balas deles matam.”

Cada morte parece alimentar ainda mais revolta nas ruas, criando novos recrutas para a revolta. O irmão de Fida Nabi, Aabid, 21 anos, acompanhou enquanto aquele caminhava para a morte nesta semana, com sua cabeça envolta em bandagens brancas, seu peito expandindo e contraindo ao ritmo do respirador artificial.

Aabid achou que tinha toda sua vida mapeada – ganhando mais de US$ 200 por mês como repórter fotográfico. Mas desde a morte de seu irmão, suas prioridades mudaram.
“Eu costumava cobrir os protestos”, ele disse. “Mas agora me juntarei a eles.”’

*Hari Kumar contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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