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15/08/2010 - 00h05

Cantora teen usa botox, e não é só ela

The New York Times
Catherine Saint Louis
  • A adolescente Charice Pempengco, que fez procedimentos estéticos para participar da segunda temporada da série Glee

    A adolescente Charice Pempengco, que fez procedimentos estéticos para participar da segunda temporada da série "Glee"

No mês passado, Charice Pempengco, a pequena adolescente filipina cuja voz impressionante deixou Oprah e outras milhões de pessoas em todo o mundo boquiabertas, causou outro tipo de furor.

Para se preparar para sua aparição no programa “Glee” da Fox neste outono, Pempengco, que tem 18 anos, tomou injeções de Botox e fez um tratamento para esticar a pele chamado Thermage. “Quero parecer jovem quando ficar diante da câmera”, disse ela na televisão filipina durante a visita ao médico Vicki Belo, que fez o procedimento na mandíbula da cantora.

O procedimento causou indignação. Médicos, especialistas em educação infantil e outras pessoas – incluindo as revistas New York e Psychology Today – lamentaram a mensagem deplorável transmitida aos fãs de “Glee”, um programa cujo tema é a autoaceitação. Até o blogger de celebridades Perez Hilton ficou furioso e disse que o que Pempengco fez foi “DOENTIO!!!”.

Queiram ou não, Pempengo tem muita companhia. De acordo com a Sociedade Norte-Americana de Cirurgiões Plásticos, só no ano passado a toxina botulínica, que é vendida sob os nomes fantasia de Botox e Dysport, foi injetada em norte-americanos de 13 a 19 anos cerca de 12 mil vezes, incluindo alguns adolescentes que receberam múltiplas doses. O número representou um aumento de 2% em relação a 2008, disse a sociedade.

É desnecessário dizer que os adolescentes não têm rugas, que costumam ser o motivo pelo qual os adultos procuram o Botox. Antes que o FDA (agência norte-americana que regulamenta alimentos e medicamentos) aprovasse o Botox, uma toxina que relaxa os músculos, para o uso cosmético em 2002, ele era usado como tratamento médico para problemas nos olhos e neuromusculares.

Hoje, ninguém sabe quantos adolescentes que recebem injeções de Botox ou Dysport as utilizam para fins médicos e não estéticos. A linha divisória pode ser tênue, uma vez que a droga pode ajudar com problemas físicos – como dor na articulação temporomandibular do queixo – e a melhora da aparência dos pacientes pode ser um efeito colateral.

Do ponto de vista médico, o Botox é aprovado pelo FDA para uso terapêutico em crianças de até 12 anos que têm espasmos nas pálpebras ou estrabismo. Ele também pode ajudar pacientes de 16 anos ou mais que apresentam contração dos músculos do pescoço, e pessoas acima de 18 anos no combate ao suor excessivo.

A controvérsia, entretanto, vem do uso não aprovado do Botox por crianças e jovens adultos. Os médicos estão injetando a toxina nos adolescentes por causa de uma variedade de supostas imperfeições, desde um sorriso em que a gengiva aparece demais até um queixo muito quadrado.

Em fevereiro, Phu Pham, que tem 19 anos e mora em San Antonio, recebeu injeções de Botox para reduzir os músculos de sua mandíbula que ele achava parecidos com o de um “halterofilista” e que não combinavam com seu rosto fino.

“Eu ficava me criticando um pouco”, diz Pham, que é estudante e técnico de raio X da Força Aérea. Antes do procedimento de Botox de US$ 800, o músculo do lado esquerdo da mandíbula se sobressaía um pouco mais do que o do lado direito, diz ele, e agora “nenhum dos lados se sobressai tanto”.

Depois do tratamento, diz Pham, seus pais perguntaram se ele havia perdido peso. Não tinha. “Eu disse a eles que não tinha feito cirurgia”, diz ele. “Não faria nada drástico. Só injetei Botox nos meus músculos da mastigação”, ou músculos masseter. Depois da surpresa inicial, seus pais não protestaram, diz ele.

Seu médico, Samuel M. Lam, é um cirurgião plástico de Dallas que diz ter recebido mais de 100 pacientes para redução de mandíbula com Botox. Cerca de 90% deles buscaram o tratamento por motivos estéticos, diz ele, mas até os 10% que tinham problemas médicos também queriam o tratamento também por razões estéticas.

“É causa e efeito”, diz Lam. O problema inicial pode ser a dor na articulação temporomandibular (ATM), “mas o efeito é um rosto mais largo”, diz ele.

Lam diz que ele injetou muitos adolescentes e jovens adultos de vinte e poucos anos, mas nenhum menor. Mas ele diz que não se opõe a tratar crianças dessa forma, dependendo de sua maturidade e motivação. “Muitos adolescentes provocam os outros por causa disso e de outras coisas que os adultos podem não considerar tão importantes”, diz Lam, acrescentando que já fez cirurgias plásticas em adolescentes, incluindo cirurgias de nariz e uma operação para criar vincos nas pálpebras de menores da Ásia.

Os representantes de Pempengco discordam das razões pelas quais ela passou pelo tratamento com Botox. Numa entrevista à televisão filipina, Belo disse que injetou sua paciente para reduzir seu rosto e os músculos da mandíbula que a deixavam com cara de “mataba”, ou gorda. Em outras palavras, ele usou o Botox para moldar o rosto de Pempengco.

Mas outro representante de Pempengco disse que ela não usou o Botox por motivos estéticos, e recusou um pedido de entrevista com a cantora.
O fato de que adolescentes usem a toxina para melhorar sua aparência surpreende e desconcerta muitos adultos. Em seu site, Michele Borba, autora de muitos livros sobre educação dos filhos, não escondeu seu escárnio.

“Se sua filha está implorando por Botox, acredite, uma injeção não é a cura”, escreveu Borba. “Há um problema muito mais profundo e aposto que é de autoestima. Diga não à injeção. Lide com os sentimentos de “inadequação” dela e não com sua necessidade de cobrir a suposta ruga.”
Mas numa cultura na qual os adolescentes têm feito plásticas de nariz, alguns médicos questionam por que uma injeção temporária da toxina do botulismo deveria causar mais polêmica do que uma cirurgia permanente. A doutora Lisa M. Donofrio, dermatologista dona de quatro clínicas, incluindo uma em Manhattan, diz que “as plásticas de nariz são amplamente aceitas”, mas os enchimentos e lipoaspirações não.

Donofrio já fez lipoaspiração no queixo de menores com peso normal que têm um histórico familiar de queixo duplo. Ela também já injetou Botox em alguns adolescentes preocupados com suas gengivas. Seus pacientes – a maioria de mulheres maiores de 16 anos - “não tinham só um pouco de gengiva à mostra, mas muita gengiva”, diz ela. “Eles sentem que tem um sorriso de cavalo.”


Donofrio, que recebe pacientes de dentistas e ortodontistas, injeta Botox nos músculos que elevam o lábio superior para relaxá-lo, para que o lábio fique mais baixo quando o adolescente sorri, por até quatro meses. Sua justificativa? “Um sorriso é muito importante”, diz ela, acrescentando que o tratamento custa cerca de US$ 100.

É interessante que todos os seus pacientes com gengivas aparentes “crescem e abandonam” seu desejo por Botox, diz ela. “Eles ficam ocupados, e isso deixa de ser tão importante”, diz Donofrio.

Ela não está surpresa com a reação que Pempengco gerou. Há um “extremo mau-gosto associado a fazer procedimentos cosméticos em menores”, diz Donofrio, que é uma consultora paga pelos fabricantes do Botox e Dysport.


O doutor Rod J. Rohrich, chefe de cirurgia plástica no Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas, diz que aplica “muito Botox” seletivamente em seu consultório para rugas em pacientes de quase 30 anos. (Modelos costumam começar aos 20 e poucos.)

No que diz respeito aos adolescentes, Rohrich, que é editor do Journal of Plastic and Reconstructive Surgery, diz que não costuma fazer muitos procedimentos – e normalmente apenas para alívio da dor de cabeça. “Isso funciona bem”, diz ele. “Faço muitos procedimentos na época de provas finais.”

Alguns adolescentes acham equivocadamente que o Botox pode evitar rugas. Em março, depois que um adolescente britânico que recebeu injeções de Botox aos 15 anos disse ao tablóide “The Sun”: “quero o Botox por dois motivos – ele previne rugas e todo mundo na minha escola está falando em fazer o 'B'”, a Coalizão Médica para Segurança de Injetáveis publicou uma declaração denunciando a “Intoxicação Adolescente” no Reino Unido e lembrado às pessoas que o Botox não evita o envelhecimento natural.

Quanto a esculpir a mandíbula com Botox, Rohrich já o fez em adultos, mas alerta que essa técnica não regulamentada exige um dermatologista muito hábil ou cirurgião plástico que “tenha muita consciência ao injetar Botox nessas áreas”. Problemas como paralisia do nervo facial e enfraquecimento da mastigação podem ocorrer. (Donofrio diz que as complicações advindas de tratar as gengivas expostas incluem um sorriso assimétrico ou problemas de dicção.)

Usar o Botox para atenuar uma mandíbula quadrada não é algo incomum na Ásia, principalmente na Coreia. Nos Estados Unidos, alguns médicos disseram que injetaram em algumas mulheres, principalmente asiáticas, para mudar suas mandíbulas quadradas.

No cerne do “apocalipse do Botox” de Pempengco, como disse uma manchete das Filipinas, está uma “colisão de normas culturais”, diz o doutor Richard G. Glogau, um professor clínico de dermatologia na Universidade da Califórnia em San Francisco. Moldar o rosto com Botox “não é um objetivo incomum se você mora no sudeste asiático ou na China”, diz ele.

Sim, esse tipo de transformação com Botox não é tão comum nos Estados Unidos, e talvez seja por isso que o fato de uma estrela com cara de bebê como Pempengco querer alterar sua mandíbula intriga – ou ofende – muitos norte-americanos.

“Uma menina de 16 anos de Nova York fazer uma rinoplastia, é como um presente de aniversário”, diz Glogau, pesquisador pago pelos fabricantes do Botox e Dysport. “Se você disser isso aos adolescentes do sudeste asiático, eles provavelmente ficarão chocados. Isso nunca ocorreria a eles.”

Tradução: Eloise De Vylder

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