UOL Notícias Internacional
 
19/08/2010 - 02h12

Protestos com mortes na Caxemira testam ideais inclusivos da Índia

The New York Times
Lydia Polgreen
Srinagar (Caxemira)
  • Moradores da Caxemira protestam contra a polícia na vizinhança de Srinagar, na Índia

    Moradores da Caxemira protestam contra a polícia na vizinhança de Srinagar, na Índia

Atualmente é difícil encontrar um canto distante da maior democracia do mundo que não esteja envolvido em algum tipo de luta divisora. No extremo nordeste da Índia, minorias étnicas lutam pela independência. Em seu centro coberto por florestas, um levante maoísta tenta derrubar o governo. Casta, religião, gênero e pobreza – todos são linhas divisoras que rasgam o tecido da Índia.

Mas se a Índia é a terra de um milhão de motins, na famosa frase de V.S. Naipaul, ela é também é a terra de um milhão de conciliações – soluções criativas, apesar de frequentemente enroladas, para problemas aparentemente intratáveis.

Falando para as multidões reunidas no domingo no Forte Vermelho de Nova Déli, na comemoração do Dia da Independência da Índia, o primeiro-ministro Manmohan Singh declarou: “A democracia da Índia tem a generosidade e a flexibilidade de poder tratar das preocupações de qualquer área ou qualquer grupo do país”.

Por toda a história, a Índia conseguiu conciliar um grau extraordinário de diversidade dentro de suas fronteiras muito disputadas, mas ainda assim sacrossantas. Muitos grupos étnicos, linguísticos e religiosos tentam provar, por palavras e atos, que não são indianos, mas de alguma forma a Índia conseguiu envolvê-los em seu amplo abraço.

Mas como os dois últimos meses mostraram, a Caxemira é uma exceção sangrenta. Quase 60 civis morreram em protestos furiosos contra a presença militar da Índia lá, e os pedidos de autonomia parecem crescer mais fortes a cada novo corpo enterrado no crescente Cemitério dos Mártires desta cidade. A Índia já tentou força militar bruta, democracia ao estilo indiano e gastos na região. Nada funcionou.

Por que o charme da Índia, tão eficaz em outras partes, fracassou aqui?

É um clichê político indiano dizer que a Caxemira é uma parte integral da Índia. Em seu discurso do Dia da Independência, Singh proferiu esse mantra praticamente ao mesmo tempo em que pedia pelo diálogo para solução da crise na Caxemira. O problema, dizem analistas e historiadores, é que a reivindicação da Caxemira pela Índia está longe de ser blindada.

“Esta é uma disputa genuinamente internacional”, disse Ramachandra Guha, um historiador cujo livro, “India After Gandhi” (Índia após Gandhi), detalha o processo complicado pelo qual a Caxemira se tornou parte da Índia, após a partição de 1947. “A Índia tem um argumento para sua posição, mas ele não é inatacável.”

Na independência, a Caxemira era um dentre centenas de principados que tiveram que ser conquistados tanto pela Índia quanto pelo Paquistão. Um marajá hindu governava a Caxemira, mas sua população era predominantemente muçulmana. O marajá, um playboy fã de pólo chamado Hari Singh, queria a independência, mas diante de uma invasão dos pathans do Paquistão, ele concordou em se juntar à Índia em troca de ajuda militar.

Mas o Paquistão também reivindicava a região e a Índia acabou recorrendo à Organização das Nações Unidas, o que levou a uma resolução do Conselho de Segurança pedindo para que um plebiscito fosse realizado para determinar se os caxemires queriam se juntar à Índia ou ao Paquistão. Por insistência do Paquistão, a independência não foi incluída como opção. Esse plebiscito nunca ocorreu e agora uma semifronteira instável chamada Linha de Controle divide a Caxemira.

O primeiro primeiro-ministro da Índia, Jawarhalal Nehru, era de origem caxemir e queria muito que a Caxemira permanecesse com a Índia, mas, como ele escreveu ao marajá, “por mais que seja nossa vontade, isso não poderá ser feito exceto por meio da boa vontade da massa da população”.

Nas décadas após a independência, os caxemires podem não ter ficado particularmente felizes com o domínio indiano, mas uma revolta violenta contra ele parecia impensável.

Foi apenas nos anos 70 e 80, quando a democracia da Índia correu maior risco, que uma série de eleições fraudadas e promessas não cumpridas plantou a semente da rebelião. O Paquistão, ávido para tomar a região da Índia pela força, ajudou a iniciar uma insurreição em 1989. Tão logo a luta pela independência, por mais genuína e nativa que pudesse ser, foi manchada pelo envolvimento do Paquistão, a Caxemira adquiriu um tom mais sombrio.

Durante a insurreição, 60 mil pessoas morreram. Os hindus caxemires, que antes conviviam em paz com seus vizinhos muçulmanos, fugiram em grande número. O Islã político penetrou em seu território. As relações entre a Índia e o Paquistão pioraram e a reação atingiu a Caxemira. Em 1999, ocorreu a Guerra de Kargil, em 2001 o ataque ao Parlamento por militantes paquistaneses e, finalmente, os terríveis atentados em Mumbai de 2008.

Hoje, a insurreição da Caxemira foi tudo, menos derrotada. Uma recente pesquisa realizada por um pesquisador da Chatham House, um instituto de pesquisa de Londres, revelou que não mais do que 7% das pessoas nas áreas mais anti-Índia desejam que a Caxemira se junte ao Paquistão. A questão que a Índia enfrenta agora, disseram analistas, é como convencer os caxemires de que mesmo se a independência fosse uma opção, fazer parte da Índia seria a melhor escolha. A Caxemira seria um minúsculo país vulnerável na encruzilhada de três grandes potências nucleares asiáticas. Ela quase certamente seria dominada pelo Paquistão ou pela China.

“Hoje, a meta é a liberdade, a independência”, disse Mehbooba Mufti, um líder do principal partido político de oposição da Caxemira. “Nós políticos temos que encontrar uma forma de reconciliar as aspirações do povo com o interesse nacional.”

Os caxemires têm o hábito de corrigir os visitantes que se referem a eles como indianos – eles são, eles insistem, caxemires. Mas a Índia também adquiriu o hábito de não tratar os caxemires como indianos. A vida na Caxemira é cheia de indignidades e inconveniências impostas em nome da segurança. Toques de recolher intermináveis prendem as pessoas dentro de casa. Mensagens de texto, adoradas por adolescentes e organizadores de protestos, frequentemente são impedidas.

As forças de segurança são protegidas de escrutínio por leis especiais, permitindo o uso de força ilegítima sem preocupação com as consequências. Apesar de qualquer governo ter a responsabilidade pela manutenção da lei e da ordem, quase 60 mortes de civis desarmados parece para muitos aqui um uso excessivo de força.

Malik Sajad, um cartunista do “Greater Kashmir”, um jornal de língua inglesa publicado em Srinagar, disse que se a Índia quisesse que os caxemires pensassem em si mesmos como indianos, ela precisaria começar a tratá-los como cidadãos, não como vassalos.

“A presença da Índia na Caxemira se limita a tropas e exército, nada mais”, ele disse em uma entrevista em seu estúdio aqui, onde está confinado há semanas, desde o toque de recolher. “O que a Índia está fazendo para provar que nosso futuro está com ela? Ela está apenas enviando mais tropas para nos esmagar.”

Em recentes comentários na Caxemira, Singh e outras autoridades indianas evitaram se referir aos manifestantes como agentes do Paquistão. O reconhecimento de que a população da Caxemira tem queixas e aspirações legítimas é uma mudança bem-vinda, disse Amitabh Mattoo, um professor de Estudos Estratégicos da Universidade Jawarhalal Nehru e um hindu caxemir. Mas isso não basta.

“Se você quiser manter a Caxemira, será necessária uma verdadeira perestroika e glasnost juntas”, ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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