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22/08/2010 - 00h01

Pais adiam envio de crianças à pré-escola em busca de melhores resultados na educação

The New York Times
Pamela Paul
  • Suzanne Collier observa seu filho de 5 anos brincar

    Suzanne Collier observa seu filho de 5 anos brincar

Após todos aqueles rituais cuidados da primeira infância –baralhos educativos, Kumon, Dora a Aventureira, as manhãs passadas em playgrounds sofisticados– quem não gostaria de dar aos seus filhos uma vantagem inicial na hora de começar a escola?

Suzanne Collier, por exemplo. Em vez de enviar seu filho de 5 anos, John, para o jardim de infância neste ano, a mãe de 36 anos de Brea, Califórnia, o matriculou em um jardim de infância “de transição”, “sem tanto rigor”. Ele é uma criança ativa, disse Collier, “que ainda não está pronto para se concentrar em um dia inteiro de trabalho em sala de aula”. Citando um estudo do “The Tipping Point” a respeito dos jogadores de hóquei canadenses, que apontou que os jogadores mais fortes eram os mais velhos, ela disse, “se ele for mais velho, terá mais chances de apresentar o seu melhor”.

A escola de pensamento dela é uma popular e não é nova. “Redshirting” (adiar) a pré-escola –o termo vem da prática de adiar a participação dos atletas universitários em jogos competitivos– começou a crescer nos anos 90 e não exibe sinais de estar diminuindo.

Em 2008, o ano mais recente para o qual há dados de censo disponíveis, 17% das crianças tinham 6 anos ou mais quando entraram na pré-escola. Mesas de areia têm sido substituídas por folhas de papel com uma velocidade surpreendente até mesmo para os padrões de uma década atrás.

Culpe o programa “Nenhuma Criança para Trás” e a corrida para deixar as crianças prontas para provas já na terceira série: o jardim de infância tem se transformado, segundo muitos educadores, na “nova primeira série”.

O que antes parecia uma aberração –algo que provocava fortes debates em jantares– passou a ser a norma. Mas isso não facilita as coisas para os pais.

“Nós agonizamos a respeito disso o ano todo”, disse Rachel Tayse Baillieul, uma educadora alimentar em Columbus, Ohio, onde a data limite para matrícula é para os nascidos até 1º de outubro. As crianças cujos aniversários caem depois dessa data devem aguardar até o ano seguinte para começar a escola. Mas sua filha, Lillian, 4 anos, nasceu cinco dias antes, em 25 de setembro, o que a tornaria a mais nova da classe.

Com a grande diferença de idade nas salas de aula dos jardins de infância, cada nova geração de pais de crianças em idade pré-escolar deve lidar com a decisão de quando matricular seus filhos. Meninos inquietos, que se distraem facilmente e são menos maduros têm maior probabilidade de ter suas matrículas adiadas do que as meninas, mas o adiamento da matrícula agora é comum para ambos os sexos.

“Tecnicamente, Lillian poderia ir para o pré-primário”, disse Tayse Baillieul. Tirá-la do maternal de período curto permitiria a Tayse Baillieul voltar a trabalhar e ganhar renda. Mas os professores de Lillian a aconselharam adiar mais um ano. “Eles disseram que a permanência dela no maternal por mais um ano não prejudicaria e provavelmente ajudaria, especialmente com o desenvolvimento social e emocional.”

Mesmo assim, uma sala de aula com uma diferença de idade de 18 meses criará disparidades sociais.

“Alguém terá que ser o mais novo da classe”, apontou Susan Messina, uma mãe de 46 anos de Washington. “Independente do que você faça.” Quando Clare, atualmente com 9 anos, entrou na pré-escola com 4, Messina estava ciente da prática de adiamento da matrícula.

“Eu pensei, eu não estou quebrando as regras, eu não estou me antecipando, nós estamos fazendo exatamente o que devemos fazer”, ela disse. “Então percebi que nos dias de hoje, há esse interesse em manter seu anjinho brilhante por mais tempo na pré-escola, para que ele possa ser o mais esperto e o mais alto para o time de basquete. Mas minha filha não precisa de ajuda. Ela está bem.”

Ainda assim, a incomoda o fato de que crianças na mesma sala de aula serem até um ano e meio mais velhas do que Clare. “Ela tem amigas que têm 11 anos e que em breve vão começar a menstruar, enquanto ela ainda está brincando com bonecas American Girl.” Outra mãe se queixou de que sua filha de 4 anos ficou viciada em Hannah Montana por causa de suas colegas de classe mais velhas. Um menino de 6 anos empunhando um sabre de luz pode ser intimidante para um menino que ainda dorme com seu ursinho de pelúcia.

No outro lado, pais que colocam seus filhos na pré-escola antes dos 5 anos são frequentemente vistos como agressivos, “quase ogros”, disse Messina. Mas suponha que sua filha já esteja lendo com 4 anos? Você a mantém de fora de uma pré-escola que será terrivelmente entediante ou a coloca em uma sala de aula com meninos enormes de 6 anos? Em 1970, 14,4% dos alunos pré-escolares começavam aos 4 anos. Esse número caiu para menos de 10%.

O movimento de autoestima inspirou os pais a cuidarem tanto do bem-estar emocional quanto da realização acadêmica, e com a frágil imagem própria ainda em formação, o pior temor dos pais é conduzir seus filhos ao fracasso. Uma mãe de Connecticut, em Fairfield County, enviou seu filho nascido em outubro para o jardim de infância aos 4 anos, apesar da “regra informal de que todos seguram seus filhos nascidos em setembro a dezembro”. O jardim de infância parecia ir bem, mas quando seu filho entrou na primeira série, ela disse, “eu recebi uma paulada na cabeça. Eles me disseram que ele estava bem atrasado”.

Ela assistiu horrorizada a autoconfiança de seu filho despencar. “Ele estava se esforçando terrivelmente só para acompanhar”, ela lembrou. “Ele até mesmo foi retirado da classe por má caligrafia.” No final da segunda série, ela o retirou para repetir o ano em uma escola particular. “Tem sido uma jornada longa e difícil”, ela disse. “Eu realmente me arrependo de tê-lo colocado no jardim de infância aos 4 anos.”

Muitos pais se sentem compelidos a adiar a matrícula de seus filhos diante do que consideram exigências acadêmicas absurdas para crianças de 4 e 5 anos. Mas manter as crianças na pré-escola, tanto segundo a pesquisa acadêmica quanto à experiência dos pais, não necessariamente oferece só vantagens.

Jennifer Harrison, uma mãe de dois de Folsom, Califórnia, adiou a matrícula de seu filho nascido em outubro, Elliott, para que ele não fosse “rotulado como fora de controle”. No geral, ela disse, foi a decisão correta. “Mas sua capacidade com matemática está bem acima das de seus colegas de classe.”

Como atender as diversas necessidades das crianças e quais devem ser as prioridades? “Não parece haver regras”, disse Rebecca Meekma, uma mãe de dois de Laguna Beach, Califórnia. “As pessoas dizem: eu quero que ele seja maior no colégio para prática de esportes!’ Como assim? Não dá para saber como eles serão no colégio”.

E quanto às crianças cujos talentos não despertam tardiamente? “Eu já encontrei muitas mães que estão adiando intencionalmente a matrícula por um ano”, disse Jennifer Finke, uma mãe de dois em Eaglewood, Colorado. “Elas dizem que não querem que seus filhos sejam os mais novos ou os mais baixos. Isso está certo? É justo?”

O filho de Finke, Benjamin, logo iniciará o jardim de infância aos 5 anos. “Haverá meninos na classe dele que serão um ano mais velhos ou mais do que ele. Eles ficarão entediados e então o ritmo será elevado, e as crianças que estão na idade certa descobrirão que são incapazes de acompanhar.” O que acontecerá na educação física, quando os meninos maiores forem escolhidos primeiro por causa de sua força bruta, deixando os menores para trás? “Eu temo que meus filhos possam se sentir inferiorizados.”

Nem todos os pais podem escolher quando seus filhos começarão a frequentar a escola. “Apesar do adiamento da matrícula ser comum nos subúrbios, em Manhattan, são as escolas –e não os pais– que decidem”, disse Emily Glickman, cuja empresa, Abacus Guide Educational Consulting, orienta os pais a respeito da matrícula na pré-escola. Nas escolas particulares de Nova York, a data limite de matrícula é para os nascidos até 1º de setembro; na prática, os bebês de verão, particularmente os meninos, geralmente ingressam na pré-escola aos 6 anos. “É um mundo reforçado”, disse Glickman. “E a forma mais fácil das escolas assegurarem que suas crianças se sairão melhor é serem mais velhas e mais maduras.”

Enquanto isso, as escolas públicas de Nova York têm uma data limite para nascidos até 31 de dezembro.

Frequentar a pré-escola não é obrigatório pelo Estado, de forma que os pais podem manter as crianças de fora, mas então elas já teriam que começar pela primeira série. E nem todo mundo pode arcar com dois a três anos de escola maternal ou creche.

“Entre os pais aqui, há uma demanda tremenda por antecipar o jardim de infância”, disse Eva Moskowitz, fundadora da Harlem Success Academy Charter School, que adiou sua data limite para 1º de dezembro. “Se os pais pudessem colocar seus filhos na escola com 2 anos, eles colocariam.” Nem todo mundo define o privilégio acadêmico da mesma forma.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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