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23/08/2010 - 00h02

Apesar dos riscos, um doce viciante alimenta uma cidade chinesa

The New York Times
Dan Levin
Em Xiangtan (China)

Se os moradores desta cidade parecem um pouco animados demais mesmo nos dias mais quentes ou nas noites mais gélidas, cheque suas bocas. Aquele cheiro de hortelã e estalos vem de um estimulante fragrante que homens, mulheres e até mesmo crianças mascam do café da manhã até a hora de irem para a cama.

A fonte de sua euforia é “binglang”, a fruta seca da palmeira areca, às vezes chamada de noz de betel, que deixa o sistema nervoso zunindo e aquece o corpo, especialmente após um grande banquete.

"Ela ajuda com a digestão e deixa você sóbrio”, disse Xie Shuo, um técnico de aparelhos celulares que disse que consome 100 por dia. Ele sorriu para revelar as gengivas escurecidas e dentes manchados, um dos efeitos colaterais menos atraentes de mascar a fruta. “Eu sou viciado em binglang, mas realmente adoro, então não é um problema”, ele disse.

Esse é um sentimento compartilhado por muitos dos 1 milhão de moradores de Xiangtan, cujo apreço pela guloseima tem alimentado a prosperidade da cidade. Situada na província de Hunan, ela é a principal produtora de binglang da China. Seus fabricantes importam os ingredientes frescos, principalmente da ilha província de Hainan, e vendem as frutas secas por toda Hunan –e em menor quantidade para outros lugares.

A indústria de US$ 1,18 bilhão emprega mais de 100 mil pessoas em Xiangtan. Não é de se estranhar que o governo local tenha pedido para as sete fábricas e quase 50 oficinas da área para aumentarem a produção, para manterem a economia local zunindo em meio à crise financeira global. Mas a guloseima viciante tem um efeito colateral, arruinando as bocas quando mascada e sujando as calçadas quando cuspida.

Em muitas partes da Ásia, a fruta da areca fresca é mascada, às vezes envolta em folha de bétel ou tabaco, um hábito associados às taxas elevadas de câncer bucal. A população de Hunan prefere comer apenas a casca conservada, o que parece deter os efeitos carcinogênicos da fruta, segundo estudos recentes. Mas médicos e dentistas locais condenam a prática, dizendo que pode causar outras doenças bucais.

Ainda assim, a binglang é um símbolo do orgulho de moradores, líderes empresariais e autoridades locais, que desdenham as sugestões de que a fruta é prejudicial. “Binglang tem ajuda a fazer a fama de Xiangtan”, disse Li Lihua, 60 anos, um mascador veterano há 40 anos, que vende sacos de binglang por 75 centavos de dólar cada. “É como goma de mascar, só que mais forte, além de matar parasitas.”

Especialistas afiliados à Organização Mundial de Saúde estimam que 80% dos moradores de Xiangtan mascam binglang. Muitos começam por volta dos 10 anos, pegando o hábito dos pais, que acreditam que ela traz benefícios poderosos à saúde. Segundo a medicina chinesa tradicional, ela ajuda na digestão, remove placa e elimina vermes.

Parado do lado de fora de uma galeria ruidosa, Pan Bozhe, 24 anos, estava mascando binglang “Big Brother” durante sua estadia em casa, vindo da província de Guangdong, onde ele trabalha como vendedor de produtos eletrônicos. “Eu realmente sinto falta disso no restante do ano, já que ela não é vendida em Shenzhen”, ele disse, com sua boca trabalhando furiosamente. “Então, sempre que volto para Xiangtan, eu masco o máximo que posso.”

A paixão de Hunan pela binglang começou há mais de 300 anos, quando, segundo as histórias locais, um magistrado a promoveu como a cura para uma praga que varria a região. Durante as reformas econômicas da China do início dos anos 80, Xiangtan começou a transformar o passatempo em lucro, e atualmente ela processa mais de 700 toneladas por ano, segundo a Associação de Binglang de Hunan.

Os pais da cidade falam da binglang como se fosse uma panacéia para todos os males de Xiangtan, da cura de parasitas intestinais até a solução para o desemprego. Basta perguntar a Li Xuejun, 46 anos, um fabricante de binglang que batizou sua marca de “Enorme Bênção”. O apreço de sua avó pela fruta seca o inspirou a transformá-la em um negócio em meados dos anos 90, e ele atualmente vende US$ 410 mil em binglang por ano, empregando 200 pessoas.

As vendas têm crescido cerca de 50% ao ano, ele disse, o que ele atribui à maior propaganda e mais crianças adquirindo o hábito de mascar binglang em sabores como hortelã, canela e laranja. Mascando bingland e com um cigarro pendurado em seus lábios, Li descansava na sala dos fundos de um restaurante daqui, enquanto enaltecia as virtudes da planta que encheu a cidade de empregos, veículos utilitários esportivos e enviou seus filhos para importantes universidades.

Autoridades médicas locais têm pedido à prefeitura de Xiangtan para que torne o binglang mais seguro. Tang Jieqin, o vice-diretor do Hospital Estomatológico de Xiangtan, que estuda os hábitos de binglang da área há mais de 10 anos, acredita que as taxas de doenças bucais, como fibrose oral submucosa, são mais altas em Xiangtan do que em qualquer outro lugar na China, e deseja que o governo local divulgue os riscos do binglang à saúde.

Apesar do governo local ter estabelecido um padrão de produção em 2004, “para ser honesto, ele não tem dado muito apoio de forma prática”, disse Tang, citando a falta de alerta nos pacotes ou qualquer outra informação ao consumidor. Notando o valor econômico da indústria, ele acrescentou, “nosso governo pode apoiar o binglang, mas ninguém deve dizer que faz bem à saúde”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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