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23/08/2010 - 00h01

EUA pesam escolha difícil na ajuda ao Líbano

The New York Times
Robert F. Worth
Em Washington (EUA)
  • Amigos e parentes do militar israelense morto em conflito na fronteira com o Líbano

    Amigos e parentes do militar israelense morto em conflito na fronteira com o Líbano

No início deste mês, soldados israelenses estavam aparando uma árvore na fronteira norte de seu país, quando um tiroteio teve início com soldados libaneses do outro lado da cerca, deixando um israelense e quatro libaneses mortos. O combate parece ter sido acidental. Mas ele rapidamente provocou uma guerra de palavras em Washington e Beirute, com legisladores americanos alertando sobre uma infiltração do Hizbollah no exército libanês e ameaçando cortar os US$ 100 milhões em ajuda militar.

É uma situação que já ocorreu muitas vezes antes –no Iêmen, Paquistão e outros países que enfrentam insurreições ou movimentos militares e recebem ajuda militar americana –e isso provavelmente se repetirá. Os americanos querem ajudar seus amigos no Oriente Médio ao mesmo tempo em que insistem rigorosamente para combaterem grupos militantes como o Hizbollah, o movimento xiita comprometido com a destruição de Israel.

Mas as realidades em solo quase sempre exigem concessões difíceis, que podem parecer, em Washington, como concessões perigosas ao inimigo. O Líbano, por exemplo, é uma colcha de retalhos complexa de seitas e facções políticas, onde o exército exerce o papel precário de intermediário. Ninguém pode evitar trabalhar em certo grau com o Hizbollah, a mais poderosa força política e militar no país. A alternativa, as facções pró-Ocidente do Líbano, é muito pior.

“Nós devemos minar o exército e dar o país inteiro ao Hizbollah?” disse Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio, em Beirute. “É o clássico corte fora seu nariz para arruinar seu rosto.” Até o momento, o Departamento de Estado tem defendido fortemente a ajuda militar ao Líbano, dizendo que a presença do exército no sul ajuda a manter o país estável, e que a retirada do dinheiro poderia criar um vácuo perigoso. Mas a discussão provavelmente ressurgirá, especialmente diante da volta da influência da Síria no Líbano e a relativa fraqueza das facções políticas aliadas do Ocidente, mais seculares.

Mesmo antes do combate na fronteira, alguns no Congresso já expressavam profundo desconforto com uma ajuda militar a um país onde o Hizbollah participa do Gabinete e tem suas próprias redes de inteligência e comunicações. A ajuda americana foi concebida em 2005, depois que a Síria retirou suas forças armadas do Líbano e a aliança pró-americana parecia estar ganhando força, com a meta de desarmar o Hizbollah.

O governo do presidente George W. Bush deu forte apoio retórico à aliança parlamentar anti-Síria do Líbano e, em 2006, a guerra de 34 dias entre Israel e o Hizbollah fortaleceu a ideia de que o Líbano precisava de forças armadas mais fortes como uma alternativa nacional à milícia do grupo xiita. A ajuda militar americana começou a fluir para o Líbano pela primeira vez em décadas.

Posteriormente naquele ano, o governo de coalizão do Líbano ruiu em meio ao confronto entre os principais campos políticos do país. Quando a violência estourou em maio de 2008, os Estados Unidos e outros países ocidentais ficaram de lado enquanto seus aliados libaneses sofriam uma derrota humilhante para o Hizbollah. Como resultado, os aliados libaneses de Washington se viram com uma arma contra suas cabeças.

Reconhecendo que o governo Bush não estava disposto a apoiá-los com força, eles começaram a fazer concessões e buscar a reconciliação com a Síria, que apoia o Hizbollah. Até mesmo o primeiro-ministro Saad Hariri, que antes liderou a investida contra a Síria, agora está cedendo à realidade política e já esteve quatro vezes em Damasco, a capital síria, no ano passado.

Enquanto isso, o exército libanês tem buscado com tamanho empenho preservar seu status como uma instituição neutra do país que agora está em grande parte impotente. Durante a guerra de maio de 2008, por exemplo, os soldados ficaram sentados em seus Humvees americanos observando, não dispostos a tomar partido.

Isso levou alguns congressistas americanos amigos de Israel a questionar a utilidade da ajuda militar ao Líbano. Quando ocorreu o combate na fronteira neste mês, alguns legisladores americanos foram mais longe e repetiram o que as autoridades israelenses estavam dizendo: que o crescente poder do Hizbollah no Líbano parecia estar se expandindo para o controle sobre o exército.

Há pouca evidência disso. O exército ainda é em grande parte comandado por generais cristãos que foram treinados nos Estados Unidos. Como o próprio Líbano, o exército contém um mosaico de afiliações políticas. O que os políticos americanos frequentemente não conseguem entender é que mesmo os libaneses pró-Ocidente tendem a considerar Israel –que tem repetidamente invadido e bombardeado seu vizinho do norte– como uma força hostil. Os soldados no sul do Líbano estão autorizados a abrir fogo se virem violações do cessar-fogo da ONU, que colocou um fim à guerra de 2006.

Outro ponto frequentemente ignorado no Ocidente é que a mera presença do exército no sul do Líbano é uma novidade. Tropas foram posicionadas lá –com permissão do Hizbollah– sob os termos do cessar-fogo intermediado pela ONU em 2006. Era a primeira vez que soldados libaneses defendiam a fronteira sul em décadas, graças às perturbações provocadas pelos 15 anos de guerra civil no Líbano e pela longa ocupação militar síria.

Para muitos libaneses, ter suas próprias forças armadas de volta à fronteira foi motivo de grande orgulho nacional. Para alguns, era um possível primeiro passo para o desarmamento do Hizbollah, que justificava seu arsenal em parte graças à incapacidade das forças armadas libanesas de defender o país de Israel.

O exército já provou sua utilidade –tanto para o Líbano quanto para o Ocidente– de outras formas. Em meados de 2007, ele enfrentou o Fatah al Islam, um grupo militante ligado à Al Qaeda, em um campo de refugiados palestinos no norte do Líbano. Esse episódio também ressaltou quão terrivelmente mal equipado está o exército. Sem armas de precisão ou helicópteros de combate, o exército teve que recorrer a jogar bombas com a mão de helicópteros da época do Vietnã, e o conflito se arrastou por meses. Mesmo agora, muitos no Líbano se ressentem dos Estados Unidos por não fornecerem o equipamento avançado que eles dizem que o exército precisa.

Nesse contexto, não causa surpresa que as ameaças americanas de suspender a ajuda às forças armadas libanesas provoquem respostas furiosas dos líderes libaneses. Recentemente, o ministro da Defesa, Elias Murr, disse que se a ajuda americana estivesse condicionada ao não uso das armas contra Israel, ele a rejeitaria e procuraria outros doadores.

Os comentários de Murr podem ser parcialmente um blefe. Mas parece provável que ao se ver diante de alternativas –deixar o Líbano aberto a ofertas de apoio militar da Rússia, Síria ou Irã– o Congresso provavelmente recuará de suas ameaças de suspender a ajuda ao exército libanês.

O mesmo padrão pode ser visto em outros países no Oriente Médio: um exército nacional falho não é ideal, mas geralmente é melhor do que o caos ou vácuo que pode ser preenchido por militantes suicidas e os países que os patrocinam. Como se para provar o argumento, em 14 de agosto, o exército libanês matou dois membros do Fatah al Islam.

Para Washington, pequenas vitórias como essa podem valer a pena o preço da ajuda militar, mesmo se a meta principal de desarmar grupos militantes maiores –incluindo o Hizbollah– esteja fora do alcance.

Nada Bakri e Hwaida Saad, em Beirute (Líbano), contribuíram com reportagem.


 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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