UOL Notícias Internacional
 
27/08/2010 - 00h37

Importante assessor de Karzai em investigação de suborno é ligado à CIA

The New York Times
Dexter Filkins e Mark Mazzetti
Cabul (Afeganistão)
  • Hamid Karzai, presidente afegão

    Hamid Karzai, presidente afegão

O assessor do presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, que está no centro de uma investigação de corrupção politicamente sensível, está sendo pago pela Agência Central de Inteligência (CIA), segundo autoridades afegãs e americanas.

Mohammed Zia Salehi, um funcionário do Conselho de Segurança Nacional, parece estar na folha de pagamento há muitos anos, segundo autoridades em Cabul e Washington. Não está claro o que exatamente Salehi faz em troca de seu dinheiro, seja fornecer informação para a agência de espionagem, defender as posições americanas dentro do palácio presidencial ou ambos.

O relacionamento de Salehi com a CIA ressalta as profundas contradições no coração da política do governo Obama para o Afeganistão, com as autoridades americanas exigindo simultaneamente que Karzai elimine a corrupção que toma conta de seu governo, enquanto às vezes financia as mesmas pessoas suspeitas de perpetrá-la.

Salehi foi preso em julho e solto após a intervenção de Karzai. Não houve sugestão de que os laços de Salehi com a CIA tiveram algum papel em sua soltura; em vez disso, disseram as autoridades, foi o temor de que Salehi saiba a respeito de negócios corruptos dentro do governo Karzai.

Os laços ressaltam as dúvidas a respeito de quão seriamente o governo Obama pretende combater a corrupção aqui. O esforço anticorrupção, apesar de fortemente apoiado pelos Estados Unidos, ainda é vigorosamente debatido dentro do governo. Alguns argumentam que ele deve ser o elemento central da estratégia americana, e outros dizem que atacar as autoridades corruptas que são cruciais para o esforço de guerra poderia desestabilizar o governo Karzai.

O governo Obama também está correndo para apresentar progresso no Afeganistão até dezembro, quando a Casa Branca avaliará sua missão ali. Alguns funcionários do governo argumentam que qualquer campanha abrangente para combater a corrupção dentro do Afeganistão é exageradamente ambiciosa, restando menos de um ano para as forças armadas americanas darem início à retirada das tropas.

“O combate à corrupção é a própria definição de desvio da missão”, disse um funcionário do governo Obama.

Outros no governo consideram a corrupção pública como sendo a maior ameaça ao governo afegão e à missão americana; é a natureza corrupta do governo Karzai, disseram essas autoridades, que leva os afegãos comuns aos braços do Taleban. Entre outros afegãos proeminentes que as autoridades americanas disseram estar na folha de pagamento da CIA está o meio-irmão do presidente, Ahmed Wali Karzai, suspeito de exercer um papel no próspero comércio de ópio do Afeganistão. Anteriormente neste ano, as autoridades americanas não pressionaram Karzai a afastar seu irmão de seu cargo como presidente do conselho provincial de Kandahar. Ahmed nega qualquer relacionamento monetário com a CIA e ligações com o narcotráfico.

Salehi foi preso pela polícia afegã após os investigadores o terem gravado solicitando suborno – na forma de um carro para seu filho – para impedir uma investigação apoiada pelos americanos de uma empresa suspeita de enviar bilhões de dólares de autoridades afegãs, narcotraficantes e insurgentes para fora do país.

O assessor foi solto sete horas depois, após telefonar para Karzai de sua cela para pedir ajuda, disseram as autoridades, e após Karzai intervir com força em prol dele.

O presidente enviou assessores para ajudá-lo e ameaçou limitar o poder da unidade anticorrupção que efetuou a prisão. Salehi não pôde ser contatado para comentários na quarta-feira. Um porta-voz de Karzai não respondeu à lista de perguntas enviadas ao seu gabinete, incluindo sobre se Karzai sabia que Salehi era um informante da CIA.

Um porta-voz da CIA se recusou a comentar a respeito de qualquer relacionamento com Salehi.

“A CIA trabalha arduamente para promover o amplo espectro de objetivos da política americana no Afeganistão”, disse Paul Gimigliano, um porta-voz da agência. “Alegações incautas de fontes anônimas não mudam em nada essa realidade.”

Um funcionário americano disse que a prática de pagar autoridades do governo é sensível, mesmo sendo corruptas ou desagradáveis.

“Se nós decidirmos como um país que nunca lidaremos com ninguém no Afeganistão que eventualmente – e certamente não a nosso favor– botará as mãos em dinheiro ilegal, então podemos voltar para casa agora”, disse o funcionário americano. “Se você quiser inteligência em uma zona de guerra, você não a obterá junto à madre Teresa ou à Mary Poppins.”

Na semana passada, o senador John Kerry, democrata de Massachusetts, voou para Cabul em parte para discutir o caso de Salehi com Karzai. Em uma entrevista posterior, Kerry expressou preocupação com os laços de Salehi com o governo americano. Kerry pareceu fazer menção à CIA, apesar de não tê-la mencionada.

“Nós teremos que examinar esse relacionamento”, disse Kerry. “Nós teremos que olhar para isso cuidadosamente.”

Kerry disse que pressionou Karzai a permitir que a unidade anticorrupção que processa Salehi e outros prossiga sem obstrução, e disse acreditar que conseguiu o compromisso dele para fazê-lo.

“A corrupção importa para nós”, disse um alto funcionário do governo Obama. “O fato de Salehi poder estar em nossa folha de pagamento não necessariamente muda qualquer uma das questões básicas aqui.”

O assessor é um sobrevivente político, que, como muitos afegãos, navegou em meio às mudanças de alianças durante 31 anos de guerra. Ele é um ex-intérprete para Abdul Rashid Dostum, o uzbeque étnico que talvez tenha a reputação mais impiedosa entre todos os senhores da guerra afegãos.

Dostum, um aliado de Karzai, foi um dos principais aliados da CIA em terra no Afeganistão nas semanas após os ataques de 11 de setembro de 2001. A agência empregou suas milícias para ajudar a expulsar o Taleban do norte do Afeganistão.

Ao longo dos nove anos de guerra, a CIA se emaranhou no funcionamento interno do establishment de segurança nacional do Afeganistão. De 2002 até o ano passado, a CIA arcou com o orçamento integral do serviço de espionagem do Afeganistão, o Diretório Nacional de Segurança.

Salehi frequentemente atua como entregador de dinheiro para outros afegãos, segundo um político afegão que falou sob a condição de anonimato, por temer retaliação.

Entre os alvos da investigação anticorrupção afegã em andamento está um fundo secreto de dinheiro a partir do qual pagamentos eram feitos para vários indivíduos, disseram autoridades daqui.

Apesar do status de Salehi como funcionário de baixo escalão, o político afegão previu que Karzai nunca permitiria o prosseguimento de seu processo, independente da pressão dos Estados Unidos. Salehi conhece demais o funcionamento interno do palácio, ele disse.

“Karzai o protegerá”, disse o político, “porque ao processá-lo há o risco de abertura da porteira”.

Salehi é um confidente de algumas das pessoas mais poderosas no governo afegão, incluindo Engineer Ibrahim, que até recentemente era vice-chefe do serviço de inteligência afegão. No início deste ano, Salehi acompanhou Ibrahim até Dubai, para um encontro com líderes do Taleban para explorar as perspectivas de paz, segundo um proeminente afegão com conhecimento da reunião.

O assessor foi preso no mês passado, durante uma ampla investigação da New Ansari, uma empresa de transferência de dinheiro, que emprega mensageiros e outros métodos rudimentares para entrada e saída de dinheiro do Afeganistão.

A New Ansari foi fundada nos anos 90, quando o Taleban governava grande parte do Afeganistão. Nos anos desde 2001, a New Ansari se transformou em um dos centros financeiros mais importantes no Afeganistão, transferindo bilhões de dólares em dinheiro de afegãos proeminentes para fora do país, grande parte para Dubai.

Em janeiro, agentes afegãos realizaram uma batida nos escritórios da New Ansari, com apoio americano. Um funcionário americano familiarizado com a investigação disse que a New Ansari parece ter transferido dinheiro para toda espécie de afegãos ricos, incluindo políticos, insurgentes e narcotraficantes.

“Eles transferiam dinheiro para todos”, disse o funcionário americano, falando sob a condição de anonimato.

O fluxo de capital para fora do Afeganistão é tão grande que corresponde a uma parte substancial do produto interno bruto do Afeganistão. Em uma entrevista, uma autoridade alfandegária dos Emirados Árabes Unidos disse ter recebido cerca de US$ 1 bilhão do Afeganistão em 2009. Mas o funcionário americano disse que a quantia pode ser mais próxima de US$ 2,5 bilhões –cerca de um quarto do produto interno bruto do Afeganistão.

Grande parte do dinheiro da New Ansari era transportado por mensageiros que voavam de Cabul e Kandahar geralmente para Dubai, onde muitas autoridades afegãs têm um segundo lar e vivem em riqueza esplendorosa.

Um funcionário americano familiarizado com a investigação disse que o exame dos livros contábeis da New Ansari fornece um rico entendimento da cultura de corrupção afegã.

“É uma mina de ouro”, disse o funcionário.

Após a prisão, Salehi telefonou para Karzai diretamente de sua cela para exigir ser libertado. Karzai enviou duas delegações para o centro de detenção onde Salehi estava detido. Após sete horas, Salehi foi solto.

Depois disso, o general Nazar Mohammed Nikzad, o chefe da unidade afegã que investigava Salehi, foi convocado ao palácio presidencial, onde Karzai pediu para que ele explicasse suas ações.

“Tudo é legal e segundo as regras”, disse uma autoridade ocidental sobre os investigadores anticorrupção afegãos. “Eles reúnem as evidências, obtêm um mandado assinado e toda vez alguém tira o plugue da tomada.”

Esta não é a primeira vez que os promotores afegãos enfrentam resistência quando tentam processar uma autoridade afegã por acusações de corrupção ligadas à New Ansari.

Sediq Chekari, o ministro para a Hajj e Assuntos Religiosos, foi autorizado a fugir do país, quando os investigadores se preparavam para acusá-lo de aceitar suborno para desviar os negócios para as agências de turismo que levam anualmente as pessoas à Arábia Saudita. Chekari fugiu para o Reino Unido, disseram as autoridades. O procurador-geral do Afeganistão emitiu um mandado de prisão pela Interpol.

As autoridades americanas disseram que um elemento chave no escândalo é Hajji Rafi Azimi, o vice-presidente do Afghan United Bank. O presidente do banco, Hajji Mohammed Jan, é o fundador da New Ansari. Segundo as autoridades americanas, os promotores afegãos gostariam de prender Azimi, mas até o momento se depararam com interferência política que não especificaram. Ele não foi formalmente acusado.

No passado, algumas autoridades ocidentais expressaram frustração com a resistência política encontrada pelos promotores afegãos ao tentarem investigar autoridades afegãs. Neste ano, uma autoridade americana disse que o governo Obama estava considerando medidas extraordinárias para levar as autoridades afegãs corruptas à Justiça, incluindo extradição.

“Nós estamos dando andamento a alguns casos de corrupção pública no alto escalão no momento, e eles estão constantemente protelando”, disse um funcionário americano sobre o governo Karzai.

Outro funcionário ocidental disse estar ficando cada vez mais preocupado com o moral –e segurança– dos promotores anticorrupção afegãos.

Até o momento, os promotores afegãos não se curvaram. O caso Salehi provavelmente chegará a um ponto crítico em breve. Segundo a lei afegã, os promotores têm um máximo de 33 dias para indiciar um indivíduo após sua prisão. Salehi foi preso no final de julho.

Isso significa que os promotores afegãos poderão pedir o indiciamento junto ao procurador-geral afegão, Mohammed Ishaq Aloko. Caberá a Aloko, que deve seu cargo a Karzai, assiná-lo ou não.

“Todos estão apenas cumprindo seus cargos”, disse o funcionário ocidental. “Eles temem por suas vidas. Eles temem por suas famílias. Se continuar, eles acabarão desistindo da luta.”

Reportagem de Dexter Filkins, em Cabul, e Mark Mazzetti, em Washington (EUA). Helene Cooper, em Washington, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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