UOL Notícias Internacional
 
28/08/2010 - 02h30

Jovem construtor do centro islâmico ainda está na estaca zero

The New York Times
Anne Barnard e Christine Haughney
Em Nova York (EUA)

Sharif el Gamal é um relativo novato no setor imobiliário de Nova York. Ele obteve sua licença de corretor em 2002. Ele está desenvolvendo dois projetos de condomínio: transformar um prédio em TriBeCa em seis lofts, e planejando apartamentos no que atualmente é um estacionamento no West Side. Ele vem de uma família rica de um executivo de banco, mas não dos bilhões do mercado imobiliário.

Com uma carreira marcada por empenho e ambição, mas ainda em seus passos iniciais, El Gamal, 37 anos, assumiu um desafio colossal. Ele é o empreendedor que planeja construir um centro comunitário muçulmano em uma propriedade que ele possui próxima do Ponto Zero –um projeto de US$ 100 milhões, ele estima, no centro do debate nacional mais contencioso a respeito do Islã, Estados Unidos e liberdade religiosa nos nove anos desde o 11 de Setembro.

É o tipo de projeto –um prédio de 15 andares, aberto a todos, com teatro, programas educativos, piscina, restaurante, uma mesquita e um memorial ao 11 de Setembro– que pessoas com experiência em projetos imobiliários em Manhattan dizem exigir anos de preparação, mesmo se não houvesse controvérsia.

Mas, apesar dele ter superado os obstáculos legais e obtido a aprovação do conselho comunitário local, El Gamal ainda não obteve o financiamento, contratou um arquiteto, formou a entidade sem fins lucrativos que administrará o centro, iniciou a arrecadação de fundos, recrutou seus conselheiros e nem apresentou os estudos formais de viabilidade e planos de negócios para as reuniões da comunidade.

Deixando de lado o debate a respeito da conveniência e significado do projeto, muitos fazem uma pergunta bem mais simples: será que El Gamal dará conta de fazê-lo?

“Eu sempre me maravilho com a noção romântica que o nova-iorquino médio tem em relação ao empreendimento imobiliário”, disse Josh Guberman, que ao desenvolver 28 propriedades na cidade, tem lidado com financiamento, transporte, sindicatos e mais. “Para ser franco, um empreendimento bem-sucedido em Nova York não é algo para alguém novato ou inexperiente.”

A construção de qualquer coisa em qualquer lugar em uma Nova York em recessão é difícil; a Baixa Manhattan é mais difícil; o projeto de El Gamal, chamado Park51, é ainda mais complexo.

El Gamal espera levantar US$ 70 milhões por meio de títulos isentos de impostos, que organizações religiosas sem fins lucrativos podem obter –mas apenas se provarem que as instalações beneficiarão o público em geral, com as atividades religiosas financiadas de forma separada.

Ele deseja recrutar um conselho de líderes cívicos e empresariais –cristãos, judeus e muçulmanos– para levantar mais US$ 30 milhões a US$ 40 milhões para a parte sem fins lucrativos do prédio. Russell Simmons, o magnata do hip-hop e filantropo, aderiu. Mas a controvérsia complica o recrutamento e as doações serão dificultadas pela economia e investigadas pelos oponentes, que se perguntam se os fundos virão de grupos radicais islâmicos ou governos hostis.

Fonte dos recursos
El Gamal disse para aqueles que o apoiam que não aceitará dinheiro ligado a valores “não americanos” e que as doações serão examinadas por autoridades federais e estaduais, assim como pelos conselhos separados para o centro e para a mesquita. Projetos semelhantes como o Centro Comunitário Judaico de Manhattan, no Upper West Side –El Gamal é um membro; suas filhas aprenderam a nadar lá– planejaram sua programação antes de financiar a construção, para mostrar que haveria receita das academias de ginástica ou creche.

Mas os planos de El Gamal são apenas o início, e devem se concentrar o bastante nas necessidades muçulmanas para atrair apoio nacional muçulmano, ao mesmo tempo em que destaca sua abertura multirreligiosa para atrair outros doadores.

O mercado do centro é especialmente difícil, disse Julie Menin, presidente do conselho comunitário local, com trabalhadores de passagem durante o dia e moradores à noite. Alguns muçulmanos de Nova York também sentem que os US$ 100 milhões seriam melhor gastos em instalações em bairros com maior população islâmica, disse Aisha al Adawiya, do grupo Mulheres no Islã do Harlem.

Debby Hirshman, que foi diretora executiva fundadora do Centro Comunitário Judaico e é consultora de um centro comunitário que abrirá no próximo ano em Battery Park City, disse que esses projetos levam de cinco a dez anos de reuniões comunitárias. Mas Hirshman acrescentou que organizações “começam de todas as formas diferentes”.

El Gamal, um homem atarracado com leve sotaque de Nova York e um discurso arrogante de membro de fraternidade ou corretor de títulos, diz ser capaz de fazê-lo.

“Nós estamos muito confiantes de que conseguiremos a mistura certa de tomada de empréstimo e investimento privado”, ele disse em uma declaração, notando que conta com o apoio das autoridades municipais e outros envolvidos no redesenvolvimento do centro. “Várias instituições financeiras expressaram interesse” em financiar o projeto, ele disse.

Nos últimos dias, El Gamal reafirmou o controle sobre a imagem do projeto, destacando que ele, e não o imã Feisal Abdul Rauf, é o encarregado, além de contratar um novo consultor de relações públicas, Lawrence Kopp.

Isso coloca um novo foco em El Gamal. Seu pai, um egípcio, era diretor administrativo do Chemical Bank. Seus pais se divorciaram; ele morou no Brooklyn até os 9 anos, quando sua mãe, uma católica polonesa, morreu. Ele então seguiu seu pai até a Libéria e o Egito, onde frequentou a Escola Americana Schutz.

El Gamal voltou aos Estados Unidos para a universidade, estudando arquitetura e economia antes de abandoná-la. Ele não foi criado em um lar religioso, mas o Islã ajudou El Gamal a sair de uma juventude problemática, disse Kopp. Um irmão mais novo, Sammy, é sócio de sua empresa, a SoHo Properties; uma irmã é uma analista para o Líbano no Pentágono.

Experiência de 3 anos
Após um período como garçom, El Gamal entrou no mundo fechado do mercado imobiliário de Nova York, onde é mais conhecido como corretor do que como empreendedor. Ele começou a construir prédios há três anos.

El Gamal viajou para o Oriente Médio, como muitos empreendedores de Nova York. O dinheiro do petróleo do Golfo é uma das poucas fontes de financiamento no mercado atual. Mas El Gamal disse que seus únicos investidores atualmente são dos Estados Unidos e de Israel.

Como corretor, El Gamal fecha negócios de modo confiável, disse Michael Betancourt, um investidor que El Gamal ajudou a comprar e alugar dois prédios no SoHo. O garoto mantém sua cabeça abaixada e ele é um esmerilhador”, disse Betancourt.

Mas como proprietário e empreendedor, ele está apenas começando segundo os padrões de Nova York. Documentos públicos mostram que El Gamal comprou, a partir de 2007, meia dúzia de prédios de apartamentos no Harlem e em Washington Heights por US$ 1.075 milhão a US$ 2,8 milhões. Dois possuem multas pendentes de violações de construção e devem dinheiro à prefeitura. Ele também administra propriedades no Chelsea e Harlem. Ele comprou seu primeiro grande prédio de escritórios, o 31 West 27th Street , em 2009, por US$ 45,7 milhões.

Corretores disseram que El Gamal fez ofertas por outras propriedades sem sucesso. Um executivo do setor imobiliário envolvido em uma compra com El Gamal disse que ele levou semanas para obter os documentos financeiros que os compradores geralmente reúnem em horas.

Daniel Parker, que foi estagiário na SoHo Properties em 2006, trocou a firma por outra que lhe ofereceu um salário mais garantido. Mas ele ficou impressionado com a tolerância religiosa de El Gamal. Parker, que é mórmon, disse que os dois conversavam sobre suas religiões e sobre a abstinência de bebidas alcoólicas. Ele admirava como El Gamal e seu irmão deixavam o trabalho para rezar toda sexta-feira.

El Gamal frequentava duas mesquitas na Baixa Manhattan que costumam ficar lotadas, de forma que decidiu construir uma mesquita e um centro comunitário, uma versão muçulmana do Centro Comunitário Judaico. Em julho de 2009, El Gamal pagou US$ 4,85 milhões, um preço de barganha, pela propriedade em Park Place, a duas quadras do Ponto Zero.

“Dá para imaginar que ele encontraria uma forma de fazer algo grande”, disse Parker.

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