UOL Notícias Internacional
 
29/08/2010 - 00h02

Por dentro da ascensão da neurocirurgia

The New York Times
Dr. Randi Hutter Epstein
New Haven, Connecticut (EUA)

Dois andares abaixo do piso principal da biblioteca da faculdade de medicina de Yale há uma sala cheia de cérebros. Não, não são os alunos. Esses cérebros, mais de 500, estão dentro de potes de vidro. Eles fazem parte de uma coleção extraordinária que talvez nunca tivesse sido revelada se não fosse por um curioso estudante de medicina e um médico encorajador e persistente.

Os cérebros cancerosos foram colecionados pelo doutor Harvey Cushing, um dos primeiros neurocirurgiões dos EUA. Eles foram doados a Yale quando ele morreu em 1939 – junto com relatórios médicos meticulosos, fotos dos pacientes antes e depois, e ilustrações anatômicas. (Cushing também foi um artista bem sucedido.) Seus pertences, um tesouro da história médica, transformaram-se numa pilha de potes quebrados e anotações empoeiradas enfiadas em várias rachaduras no hospital e na faculdade de medicina.

Até agora. Em junho, depois de um esforço colossal para limpar e organizar o material – 500 de 650 potes foram restaurados – os cérebros encontraram seu destino final atrás de vitrines em volta do perímetro do Cushing Center, uma sala projetada apenas para eles.

Esses pedaços de cérebros que flutuam em formaldeído trazem à vida um capítulo dramático da história médica norte-americana. Para exemplificar a ascensão da neurociência e a evolução da medicina norte-americana do século 20 – que deixou de ser um negócio negligente de tentativa e erro para ser uma profissão prominente e bastante organizada.

Esses pacientes sofreram operações nos primeiros dias da neurocirurgia, quando os médicos não tinham aparelhos de imagem para localizar tumores ou luzes apropriadas para iluminar a área da cirurgia; quando a anestesia era rudimentar e às vezes nem mesmo era usada; quando não existiam antibióticos para combater infecções potenciais. Alguns pacientes sobreviveram ao procedimento – mais frequentemente quando Cushing estava a seu lado.

A maioria dos potes continha um único cérebro; alguns tinham pedaços de cérebros de vários pacientes. Algumas fotos de pós-operatório próximas dos potes mostram pacientes com tumores saindo da cabeça. Quando Cushing não conseguia retirar o tumor, ele retirava um pedaço do crânio para que o tumor pudesse crescer para fora em vez de comprimir o cérebro. Não era uma cura, mas aliviava muitos sintomas dos pacientes.

Cushing, nascido em Cleveland em 1869, foi aluno de Yale e terminou sua carreira em Harvard como professor de história da medicina. Entre um e outro, ele foi para Harvard para estudar medicina, fez seu treinamento em cirurgia na Johns Hopkins e se tornou professor de cirurgia lá, e depois passou a maior parte de sua carreira como chefe de neurocirurgia, uma nova especialidade, no Peter Bent Brigham Hospital em Harvard (hoje Brigham and Women's).

Quando ele começou a operar no final do século 19, poucos médicos se aventuravam no cérebro, mas a maior parte dos pacientes não sobrevivia ao procedimento.

“Na primeira década do século 20, Harvey Cushing se tornou o pai da neurocirurgia eficaz”, escreveu o historiador da medicina Michael Bliss em “Harvey Cushing: A Life in Surgery” [“Harvey Cushing: Uma Vida na Cirurgia”] (Oxford, 2005). “A neurocirurgia ineficaz teve muitos fundadores.”

“Cushing se tornou o primeiro cirurgião da história capaz de abrir o que ele chamava de 'caixa fechada' do crânio de pacientes vivos com uma certeza razoável de que suas operações fariam mais bem do que mal.”

Às vezes os médicos abriam o cérebro e não conseguiam encontrar o tumor. Às vezes eles falavam com os pacientes durante a cirurgia. Cushing, por sua vez, costumava usar o anestésico local Novocaína. (O cérebro não tem receptores de dor, mas ter o crânio aberto deveria ser algo agonizante.) Bliss escreveu que em 1910, na metade de uma operação de dez horas no renomado médico e general do exército Leonard Wood, Cushing quis parar de operar e continuar no dia seguinte, mas Wood – totalmente alerta – implorou para que ele continuasse.

O Dr. Dennis Spencer, chefe de neurocirurgia em Yale e professor de neurocirurgia na Harvey e Kate Cushing, disse que a maior conquista de Cushing foi “sua meticulosa técnica de operação”.

“Independente da abordagem que fosse usar para retirar um tumor, ele tinha uma capacidade incrível de descobrir onde ele estava, chegar até o tumor sem danificar o cérebro e então retirá-lo”.

Os neurocirurgiões da época eram detetives médicos, e dependiam muito dos relatos dos pacientes sobres seus sintomas para descobrir onde estava o tumor. Cushing popularizou um exame de vista que se valia dos diversos tipos de distorção que os tumores podem causar à visão – uma estratégia usada nos anos 70, quando as ressonâncias magnéticas e outros aparelhos de imagem a substituíram. Mesmo hoje, muitos tumores na glândula pituitária são detectados inicialmente porque os pacientes têm problemas para enxergar.

Cushing também descobriu que os tumores na pituitária poderiam levar a grandes mudanças no corpo. A doença de Cushing e a síndrome de Cushing – duas doenças ligadas ao desequilíbrio hormonal – foram batizadas a partir de suas descobertas.

De fato, comparativamente, desde a época de Cushing pouco progresso foi feito para prolongar a vida de pacientes de câncer cerebral.

“É fascinante como avançamos em termos de tecnologia mas não exatamente em termos de progresso na maioria dos casos malignos”, diz Spencer. “Tudo o que fizemos nos últimos 100 anos mudou muito pouco o progresso dos tumores malignos, estendendo a vida por talvez oito meses a dois anos.”

Ele acrescentou, entretanto, que “em muitos tumores estamos chegando mais perto da compreensão genética, sou otimista e acredito que nos próximos dez anos faremos muito mais progresso.”

Além de suas conquistas médicas, Cushing ganhou um prêmio Pulitzer em 1928 por escrever a biografia de seu mentor, Dr. William Osler. Ele dedicou sua vida ao trabalho, dedicando pouco tempo a seus cinco filhos. Suas três filhas ficaram conhecidas por causa de seus casamentos – uma com James Roosevelt, filho do presidente Franklin D. Roosevelt, de quem se divorciou para depois casar-se como o plutocrata do mercado editorial John Hay Whitney; outra com William Vincent Astor, herdeiro de uma fortuna de US$ 200 milhões, de quem se divorciou para depois se casar com o pintor James Whitney Fosburgh; e a mais jovem com o herdeiro da Standard Oil Stanley Mortimer Jr., de quem se divorciou para depois se casar com o fundador da CBS William S. Paley.

A coleção se expandiu na época em que ele saiu da Johns Hopkins para Harvard e mais tarde para Yale, onde ela foi terminar em depósitos empoeirados antes da restauração recente que custou US$ 1,4 milhão, pago em parte com dinheiro da família de um ex-paciente. Os cérebros e os registros estavam numa “bagunça total”, lembra-se o Dr. Gil Solitaire, professor de neuropatologia em Yale nos anos 60 que compartilhou uma sala com parte da parafernália de Cushing. “Alguns estavam totalmente desidratados, e os potes estavam rachados.”


Em 1979, o material foi transferido das entranhas do hospital para o porão do alojamento da faculdade de medicina. Foi lá que os alunos dos anos 90 fundaram a Sociedade do Cérebro – à qual podiam se associar todos os que tivessem a coragem de entrar no porão úmido, andar pelo corredor cheio de cérebros amontoados e assinar um pôster, que hoje está pendurado no Centro Cushing.

“Era um rito de passagem”, diz Tara Bruce, hoje ginecologista e obstetra em Houston, que se tornou integrante da sociedade em seu primeiro ano de faculdade em 1994. “Todos iam ver os cérebros. Era surreal. Eu tinha acabado de entrar em Yale e me lembro de pensar: 'acho que Yale tem tantas coisas fascinantes que eles podem simplesmente enfiar um monte de cérebros no porão'.”

Christopher J. Wahl, professor assistente de ortopedia e medicina do esporte na Universidade de Washington, escreveu sua tese sobre os cérebros quando era estudante de medicina em Yale, levantando o interesse pela restauração. Depois, Spencer, seu orientador, junto com Terry Degradi, especialista em imagem da Escola de Arquitetura de Yale, lideraram o projeto de restauração de US$ 1,4 milhão. Spencer disse que o dinheiro inicial veio da família de Hanna, cujo filho foi paciente de Cushing. Eles doaram dinheiro para um fundo para preservar a coleção de Cushing. Mais recentemente, Kate Whitney, neta de Cushing, ofereceu mais recursos.

“A coisa mais incrível é que não se trata apenas a documentação física dos primórdios da neurocirurgia, mas de um documento social”, disse Wahl. “A coragem desses pacientes que não tinham para onde ir e desse homem que foi – caubói é a palavra errada – um incrível inovador que fez as coisas certas no lugar e no momento certo.”

Tradução: Eloise De Vylder

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