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31/08/2010 - 02h21

Para os iraquianos, as vítimas da guerra são muito mais do que números

The New York Times
Anthony Shadid
Em Bagdá (Iraque)

Em uma sala de cor pastel no necrotério de Bagdá, conhecida simplesmente como “Desaparecidos”, os rostos de milhares de mortos não identificados desta guerra são projetados em quatro telas. Hamid Jassem chegou em um domingo em busca de respostas.

Em uma cadeira de plástico azul, ele ficou sentado sob fortes luzes fluorescentes e um relógio parado marcava 8 horas 58 minutos e 44 segundos. Com deferência e paciência, ele olhava para a tela, com cada cadáver exibindo quatro dígitos e a palavra “majhoul”, ou desconhecido.

O número 5060 passou, com uma bala na têmpora direita; 5061, com um rosto inchado e machucado; 5062 tinha uma tatuagem que dizia, “Mãe, onde está a felicidade?” Os olhos do 5071 estavam abertos, como se lembrando do que aconteceu com ele. “Volte”, Hamid pediu ao projecionista.

O número 5061 voltou à tela. “É ele”, ele disse, balançando a cabeça com revolta. Sua mãe o seguiu até a sala, com seu rosto marcado emoldurado por um véu preto. “Me mostre meu filho!” ela chorou.

Ela avançou com dificuldade à frente, balançando a cabeça em negação. Seus olhos fitavam fixamente, buscando reconhecimento. E, em segundos, os 33 anos de vida de seu filho passaram diante de seus olhos. “Sim, sim, sim”, ela finalmente soluçou, se reclinando em sua cadeira.

O horror desta guerra está em seus números, congelados em retratos no necrotério. “Arquivos jogados nas prateleiras”, como um policial chamou os mortos, e esse anonimato presta-se ao nome da guerra aqui – al-ahdath, ou os eventos.

Nos gráficos fornecidos pelas forças armadas americanas, esses números são vistos como um sucesso, de quase 4.000 mortos em um mês em 2006 até poucas centenas atualmente. O Ministério do Interior oferece seus próprios números da guerra – 72.124 desde 2003, um número preciso demais para ser verdadeiro. No necrotério, mais de 20 mil dos mortos, que mesmo números conservadores sugerem totalizar 100 mil ou mais, ainda permanecem não identificados. Mas esse número tinha um nome. O número 5061 era Muhammad Jassem Bouhan al Izzawi, pai, filho e irmão.

Religião escondida, novos nomes


A família de Hamid, moradores sunitas em um bairro predominantemente xiita de Nova Bagdá, ocultava sua religião por temor de perseguição. Robusto e barbado, Muhammad era o mais devoto na família e talvez o menos discreto. Sua rotina era ditada pelo chamado à oração, o que o levava cinco vezes ao dia à Mesquita Arafat.

“Nós dizíamos: ‘Nos escute, reze apenas em casa’”, Hamid lembrou de ter implorado para ele. “Se serei ou não morto está nas mãos de Deus”, seu irmão respondeu segundo ele.

Em 1º de julho de 2005, às 5 horas da manhã, armas bateram contra a porta de metal da casa deles, como sinos. A mãe de Muhammad a abriu e homens vestidos como policiais a forçaram a recuar. Mal desperto, Muhammad desceu as escadas trajando uma camiseta branca e pijama vermelho. Os homens o amarraram em uma picape policial e o levaram, deixando sua filha de 2 meses, Aisha, e sua esposa e sua mãe.

Ao todo, 11 homens ingressaram nas listas de desaparecidos naquela manhã. Por causa das milícias, ir até o necrotério costumava ser perigoso demais, mas à medida que as semanas passavam, seu cunhado foi até lá. Ele não encontrou nada.

Um encontro casual em agosto levou a família ao necrotério. Um vizinho tinha encontrado seu pai entre as fotos na sala dos Desaparecidos. Ele era um dos 11.

Desdém dos policiais

Hamid conduziu sua família até a delegacia de polícia, Rafidain, que tinha encontrado o cadáver do seu irmão. Policiais em uniformes que não combinavam se espichavam em cadeiras na entrada.

A família precisava de uma carta da delegacia, era o primeiro passo para obtenção do atestado de óbito de Muhammad e para descobrir onde ele foi enterrado. Com Hamid ao seu lado, a mãe implorou para permitirem a entrada deles. Por cinco anos eles procuraram por ele, ela disse. Os policiais olharam para ela de forma desconfiada.

“Se você estiver mentindo, vou colocar você na cadeia agora”, ele gritou. “Meu filho está morto e é isso o que você diz para nós?” a mãe respondeu. O policial virou seu rosto, enojado. “Cadela”, ele murmurou.

Eles seguiram Kadhem Hassan, um cansado policial de 60 anos encarregado dos registros, após finalmente entrarem na delegacia. No final, ele encontrou o relatório policial sobre a morte de Muhammad.

Datado de 3 de julho de 2005, ele dizia em um rabisco quase indecifrável: “Nós descobrimos 11 corpos não identificados, com suas mãos amarradas para trás, com olhos vendados e bocas amordaçadas. Os corpos exibem sinais de tortura”.

Uma odisseia burocrática


Da delegacia, carregando uma carta em papel pela qual ele pagou, Hamid foi até o necrotério. Sua carta, disse um funcionário de lá, Ihab Sami, estava incompleta. “A polícia não entende e nem você!” Sami gritou para ele. Em silêncio, Hamid balançou sua cabeça e voltou à delegacia. “Venha amanhã de manhã”, Hassan lhe disse.

Foi o que ele fez. Às vezes com sua mãe, às vezes com seu sobrinho, ele voltava ao necrotério, novamente à delegacia, ao tribunal em Sadr City e ao necrotério. Ao longo de sete dias, ele reuniu papéis, cada um deles com o número 5061.

Com seu sobrinho, ele foi até o escritório de atestados de óbito não retirados. Lá dentro, Maysoun Azzawi enviou sua assistente estressada e intratável, Hajji Saleh, para revirar os 100 livros de registro para encontrar o atestado de óbito para o número 5061.

Ele puxou o atestado, escrito em vermelho e numerado 946777. O necrotério enviou o corpo de Muhammad para o sul para enterro em 22 de julho, ela disse a Hamid, e o coveiro foi Sheikh Sadiq al Sheikh Daham. Ela lhe entregou o atestado de óbito em papel transparente. “Você tem tudo o que precisa agora”, ela disse. “Você pode ir para Najaf.”

No Vale da Paz


Najaf, a capital espiritual do Islã xiita, é a cidade dos mortos. Por mais de um milênio, os mortos chegam ao seu cemitério, o Vale da Paz, em busca da bênção de serem enterrados próximos do túmulo de domo dourado do imã Ali, o reverenciado santo xiita. O cemitério recebe os desconhecidos, sejam eles sunitas ou xiitas.

Antes do nascer do sol, no nono dia após a identificação da foto de seu irmão, Hamid levou suas três irmãs, a esposa e filha de Muhammad e sua mãe para além dos arredores de Bagdá.

Apenas o coveiro saberia qual era a sepultura de Muhammad; ele rabiscou sua localização em um mapa desenhado à mão em um livro de capa vermelha, colado com quatro tiras de fita adesiva amarela. Ela era marcada por três pilhas de tijolos cobrindo um concreto despejado às pressas. “Desconhecido, 5061, 2 de julho de 2005”, ela dizia.

As mulheres caminharam até ela, jogando areia sobre suas cabeças em pesar. O choro em coro se juntava aos lamentos xiitas de um funeral próximo. A esposa de Muhammad se agarrou à marcação. Sua irmã beijou o cimento.

“Por quanto tempo procuramos você, meu filho?” gritava sua mãe, com as lágrimas em seu rosto transformando em areia em lama. “Todo esse tempo e você estava sofrendo sob o sol.”

Ela gritou para Hamid e aos outros. “Por favor, tirem ele daí? Deixem-me vê-lo. Fazem cinco anos. Hamid! Nós não o vimos. Mostre ele para mim, mostre ele para mim apenas um pouco.”

Hamid permaneceu para trás, com suas lágrimas se transformando em soluços. “Não há mais nada a fazer”, ele disse, balançando sua cabeça. Uma hora depois, a família partiu no carro de Hamid, com o choro de sua mãe ainda audível.

Para trás ficou o 5061. Com um tijolo, eles abriram um sulco na marcação.
 

Tradução: George El Khouri Andolfato

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