UOL Notícias Internacional
 
02/09/2010 - 01h33

EUA iniciam formalmente uma nova era no Iraque

The New York Times
Michael R. Gordon e Elisabeth Bumiller
Bagdá (Iraque)
  • No salão oval da Casa Branca, Obama anunciou o fim da guerra do Iraque

    No salão oval da Casa Branca, Obama anunciou o fim da guerra do Iraque

Os Estados Unidos iniciaram uma nova era frágil em sua história turbulenta com o Iraque na quarta-feira, à medida que líderes políticos e militares americanos marcaram o fim oficial das operações de combate, mas reconheceram que um marco difícil, a criação de um novo governo iraquiano de coalizão, ainda não foi atingido.

Na rotunda de mármore do Palácio Al Faw, um dos opulentos ex-palácios de Saddam Hussein que servem como quartéis-generais militares americanos em Bagdá, o vice-presidente Joe Biden, o secretário de Defesa, Robert M. Gates, e o general Ray Odierno destacaram o mesmo tema na cerimônia realizada para a televisão para inauguração da Operação Novo Amanhecer, como foi chamada a fase pós-combate. As forças armadas americanas, eles disseram, estão saindo após sete anos de guerra, mas o governo Obama não abandonará o país.

“Nós permanecemos juntos em tempos difíceis, nós lutamos juntos, nós rimos juntos e às vezes morremos juntos”, disse Odierno, que encerrou formalmente mais de quatro anos de serviço no Iraque, incluindo dois como o alto comandante americano, durante a cerimônia. Ele disse que a mudança na missão, que ainda deixa cerca de 50 mil soldados americanos no país, “de forma nenhuma sinaliza o fim de nosso compromisso com o povo do Iraque”.

Ele encerrou seus comentários com um encerramento de comunicação militar: “Lion 6 –Out” (leão 6, desligando).

A cerimônia, que contou com a presença de centenas de comandantes militares americanos e iraquianos sob bandeiras americanas e iraquianas penduradas entre as colunas de mármore preto da rotunda, às vezes lembrava uma reunião de reencontro colegial, à medida que os oficiais que serviram várias vezes no Iraque cumprimentavam uns aos outros antes do início das formalidades.

O ambiente era rico em simbolismo: há cerca de sete anos e cinco meses, as forças americanas entraram no palácio decrépito durante a invasão de Bagdá, para encontrar uma enorme cratera de uma bomba americana, falta de água e eletricidade e cabras perambulando pelas salas.

Apesar da pompa da cerimônia, realizada um dia após o presidente Barack Obama ter declarado o fim das operações de combate em um discurso feito no Escritório Oval, no horário nobre, os oficiais militares estavam preocupados com a possibilidade de um impasse político prolongado levar à retomada do derramamento de sangue no Iraque, que foi bastante reduzida em comparação aos dias sombrios de antes do aumento de tropas americanas de 2007, mas ainda não está sob controle.

Estatísticas recentes reunidas pelas forças armadas americanas mostram que nos primeiros 17 dias do Ramadã, o mês sagrado muçulmano que teve início em agosto, ocorreu um aumento substancial de baixas em comparação ao período semelhante durante o Ramadã em 2009.

Ocorreu também um grande aumento nos ataques com foguetes e morteiros na Zona Verde fortificada e no aeroporto de Bagdá, segundo o general Ralph A. Baker, o vice-comandante das forças americanas na região central do Iraque. Baker, que disse que ocorreram 60 desses ataques nos últimos dois meses, em comparação a “dois ou três” nos meses anteriores, culpou uma “confluência” de fatores, incluindo frustração com a falta de eletricidade, o retorno dos militantes treinados pelos iranianos e o fracasso do Iraque em formar um governo quase seis meses após as eleições, algo que os insurgentes têm buscado explorar.

A meta dos insurgentes, ele disse, é de “minar ainda mais a confiança” no governo iraquiano e nas forças iraquianas, “tentando retratá-los como fracos”.

Mas em uma entrevista, Biden minimizou o risco de um novo surto de violência, dizendo que as forças armadas iraquianas estavam se saindo bem por conta própria e que foram necessários aos insurgentes da Al Qaeda na Mesopotâmia vários meses para organizar a recente onda de ataques.

“O motivo para eu achar que há um aumento da violência –e pareço atrair atenção quando estou na Zona Verde– é porque este é o momento em que eles precisam tentar fazer uma declaração”, disse o vice-presidente, se referindo aos insurgentes. “Mas a diferença é que há forças armadas capazes de funcionar e de fornecer segurança, independente do governo ainda não ter sido formado.”

Tanto Biden quanto Odierno encorajaram os iraquianos a formarem um governo pós-eleição, apesar de Biden ter buscado tratar o impasse de modo positivo.

“A política brotou no Iraque”, ele disse em seus comentários. Mas ele acrescentou que os iraquianos corajosamente votaram em grande número, e portanto “esperam um governo que reflita os resultados dos votos que deram”.

Gates, que adotou um tom antitriunfante durante o clamor em torno do fim do combate, disse na quarta-feira que a história ainda julgará se o custo do envolvimento americano na guerra valeu a pena.

Em comentários contidos e reflexivos aos repórteres em Ramadi, a capital da província d Al Anbar e cenário de alguns dos combates mais duros da guerra, Gates disse que apesar dos militares americanos “terem realizado algo extraordinário aqui, ainda veremos como tudo isso pesará na balança com o passar do tempo”.

Ao ser perguntado diretamente sobre se a guerra valeu a pena, Gates respondeu: “É realmente necessária a perspectiva de um historiador em termos do que acontecerá aqui a longo prazo”.

A guerra, ele acrescentou, “sempre será nublada pela forma como começou” –isto é, ele disse, com a premissa de que Hussein tinha armas não-convencionais, que não existiam. “Este é um dos motivos para esta guerra permanecer tão controversa em casa”, ele disse.

Quando o governo Obama traçou o plano para reduzir as forças americanas para 50 mil soldados até o final de agosto, os planejadores militares assumiram que o Iraque já teria um governo representativo recém-eleito empossado. E apesar das metas de Obama para o Iraque serem menos ambiciosas do que as do presidente George W. Bush –que previa que um Iraque democrático provocaria uma mudança política no Oriente Médio– as metas do atual governo incluem um governo iraquiano que, como Obama disse na noite de terça-feira, seja “justo, representativo e passível de prestar contas ao povo iraquiano”.

Em seu discurso, Obama notou que a última brigada de combate deixou o Iraque em 19 de agosto sem que um disparo fosse dado. Mas o que Obama não disse é que nos dias que se seguiram, um soldado americano foi morto perto de Basra, quando sua unidade foi atacada por “fogo indireto”, o termo militar para disparos de foguetes ou morteiros, e pela menos quatro soldados americanos foram feridos no Iraque.

Apesar do fim oficial da missão de combate, disseram as autoridades, o combate continuará. As forças das operações especiais americanas continuarão caçando os insurgentes, juntamente com as unidades iraquianas. As seis brigadas americanas “de consultoria e assistência” que permanecem para treinar as forças iraquianas, escoltar os consultores civis americanos e proteger os membros da ONU, possuem armas e capacidade militar de unidades de combate. Há todo indício de que os ataques pelos insurgentes e milícias apoiadas pelos iranianos contra as tropas americanas prosseguirão, e as brigadas de consultoria terão o direito de se defenderem, ao lado de tropas iraquianas se estiverem prontas e dispostas, ou por conta própria se preciso.

“O Iraque ainda pode ser um local perigoso em certos locais por períodos breves”, escreveu o coronel Malcolm B. Frost, o comandante de uma brigada de consultoria em Diyala, em uma nota para as famílias dos soldados. “Nós nos deslocaremos pelo Iraque plenamente protegidos em Strykers e outros veículos blindados, usando armadura completa e plenamente armados para lidar com o inimigo se e quando ele se voltar contra nós.”

A brigada de Frost conta com os mesmos soldados de apoio e combate que uma brigada de combate, mas foi ampliada com 51 consultores. Desde que a Brigada chegou ao Iraque em julho para sua missão de consultoria, dois de seus soldados foram mortos. Treze ficaram feridos, mas puderam retornar ao serviço rapidamente.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h38

    -0,60
    3,126
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h42

    0,05
    75.639,73
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host