UOL Notícias Internacional
 
14/09/2010 -

Golfo pode ter evitado as previsões mais pessimistas após o vazamento

The New York Times
Leslie Kaufman e Shaila Dewan
Em Nova Orleans (EUA)
  • Fotografia aérea mostra a queima do petróleo captado no golfo do México pelas equipes de limpeza da BP; desastre ambiental pode ser menor do que o anteriormente previsto

    Fotografia aérea mostra a queima do petróleo captado no golfo do México pelas equipes de limpeza da BP; desastre ambiental pode ser menor do que o anteriormente previsto

Quanto dano foi causado pelos quase 5 milhões de barris de petróleo lançados no Golfo do México ainda está sendo levantado por laboratórios e órgãos públicos. Mas levará algum tempo até que o governo divulgue sua avaliação final dos efeitos –uma que definirá o tamanho da restauração ambiental que será cobrada da British Petroleum (BP), a operadora da Deepwater Horizon, e de outras empresas.

Separadamente, cientistas estão discutindo de forma acalorada quão rapidamente a grande mancha de petróleo dispersada, a mais de 800 metros abaixo da superfície do golfo, está se dissolvendo e que ameaça ela representa para a vida marinha.

Mas à medida que passam as semanas, crescem as evidências de que por uma combinação de sorte (uma mudança afortunada nas correntes do oceano, que manteve afastado grande parte do petróleo da costa) e circunstâncias ecológicas (as águas relativamente quentes que aumentaram a taxa de decomposição do petróleo), a região do golfo parece ter escapado das previsões mais sombrias de meses atrás.

Apesar de suas conclusões terem sido contestadas por alguns, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês) relatou há várias semanas que o petróleo estava se decompondo e dispersando rapidamente, provavelmente limitando futuros danos causados pelo vazamento.

E relatórios preliminares de cientistas que estão estudando os efeitos nos pântanos, vida selvagem e no próprio golfo sugerem que os danos já causados pelo vazamento podem também ser significativamente menores do que os temidos –menos até do que a destruição causada pelo vazamento muito menor do Exxon Valdez no Alasca, em 1989.

Os cientistas alertam que muito ainda permanece desconhecido, e que vazamentos de petróleo podem ter efeitos sutis que duram por décadas. Camadas de petróleo estão sendo encontradas enterradas sob a superfície, tanto na costa quando nas profundezas do mar. Em postagens de blog feitas de um navio de pesquisa no golfo, Samantha Joye, uma professora de ciências marinhas da Universidade da Geórgia, relata que encontrou uma camada de vários centímetros de espessura no fundo do oceano, a 25 quilômetros do poço, que não é resultado de infiltração natural.

Mas ainda assim muitos cientistas dizem estar cautelosamente otimistas.

“Com base no que vimos até agora, poderia ter sido muito pior”, disse Lisa DiPinto, a chefe da divisão de detritos marinhos da NOAA.

Talvez nenhuma imagem tenha causado mais dor do que as das criaturas pegas involuntariamente no trajeto da mancha: pelicanos-pardos tão cobertos de óleo avermelhado que não podiam erguer suas asas, tartarugas marinhas encalhadas na praia indefesas.

No auge do vazamento, engradados de aves chegavam diariamente a um centro de reabilitação em Fort Jackson, Louisiana.

Agora o centro está mais tranquilo. Em um dia de agosto, apenas uma dúzia de pássaros foi trazida pelo resgate. Mas no mesmo dia, voluntários encontraram mais que o dobro de pássaros mortos, disse Cathy Rezabeck, a porta-voz do Centro Conjunto de Informação Houma, dirigido pela BP e pelo governo.

Um padrão semelhante é encontrado por toda a Costa do Golfo, com o número de pássaros mortos ultrapassando o número de vivos sendo coletados. Os cientistas atribuem o aumento do número de pássaros mortos em parte ao fim da temporada de procriação –eles agora podem ingressar nas colônias de pássaros para coletar as carcaças. Eles também acreditam que os recém-nascidos finalmente deixaram a segurança de seus ninhos e estão encontrando óleo residual.

Ainda assim, o número de pássaros cobertos de petróleo mortos ou vivos –em uma faixa superior a 7 mil até 1º de setembro– é pequena em comparação o número de aves mortas no vazamento do Exxon Valdez. Carcaças de mais de 35 mil pássaros foram encontradas imediatamente após aquele vazamento; acredita-se que 250 mil tenham morrido.

Para o vazamento da BP, disse Melanie Driscoll, diretora de preservação de aves da Audubon’s Louisiana Coastal Initiative, “o número final será de milhares, não de dezenas de milhares”. Driscoll citou vários motivos, incluindo temperaturas mais quentes, que facilitam para as aves regularem a temperatura de seus corpos, e a incapacidade de grande parte do petróleo de penetrar nos pântanos.

Se a cadeia alimentar permanecer saudável –e esta continua sendo a grande dúvida dos cientistas– até mesmo espécies ameaçadas como o pelicano-pardo retornarão, ela disse.

O vazamento também provocou alarme em relação à tartaruga-de-kemp. Cerca de 600 ficaram presas, mais de sete vezes o número habitual encontrado de maio a agosto, e 56 mortas foram coletadas, grande parte sem sinal visível de petróleo, sugerindo que podem ter sido mortas por pescadores de camarão. As equipes de resgate retiraram centenas de tartarugas vivas, cobertas de petróleo, nos tapetes de alga sargaço onde elas se reúnem e se alimentam.

Mas desde meados de julho, os agentes de resgate têm encontrado as algas sargaço não mais escurecidas, mas limpas e repletas de alimentos, e assim, tartarugas livres de petróleo ou com tão pouco que podem ser limpas na hora e devolvidas ao local, disse o dr. Brian Stacy, um veterinário da NOAA.

“Eu, pessoalmente, não previ uma mudança dramática tão rápida”, ele disse.

Leland Hales, um cientista ambiental que inspeciona as áreas pantanosas onde petróleo foi visto, diz praticamente a mesma coisa. Hales, que inspeciona locais antes atingidos por petróleo para a BP, viaja de barco para coordenadas próximas de Terrebonne Parish, onde suas anotações mencionam coisas como “10 x 10 metros de relva coberta de petróleo no sudeste” em uma ilha com ninhos de andorinhas-do-mar.

Em muitos casos, não há mais nada para se ver. O petróleo já foi lavado pelo mar, deixando a vegetação com aparência saudável. “Eu esperava que a vegetação morreria”, disse Hales, “mas não foi o que aconteceu”.

O governo federal estimou no mês passado que metade do petróleo vazado no golfo tinha evaporado ou tinha sido de alguma forma removido, deixando um quarto dele dissolvido em gotículas minúsculas e outro quarto visível em formas como brilho na superfície ou bolas de piche. Os números são controversos e alguns cientistas dizem ser exageradamente subestimados.

Mas segundo números da NOAA, o vazamento da BP atingiu menos a costa do que o vazamento do Exxon Valdez. Até 31 de agosto, a NOAA tinha investigado 2.890 quilômetros de costa da Louisiana e encontrado 56 quilômetros altamente cobertos de petróleo, 114 quilômetros moderadamente cobertos de petróleo e 185 quilômetros levemente atingidos pelo petróleo. Em comparação, o vazamento do Exxon Valdez contaminou 2.090 quilômetros da costa, com cerca de 320 alta ou moderadamente atingidos pelo petróleo, segundo o Conselho do Fundo para o Vazamento de Petróleo do Exxon Valdez.

Do petróleo que atingiu a costa do golfo, grande parte permanece à margem de pântanos densos. Isso é uma boa notícia para centenas de milhares de hectares de vegetação além dessas margens.

“As grandes áreas pantanosas no interior da costa foram poupadas”, disse Irving A. Mendelssohn, um professor de oceanografia e ecologia de plantas costeiras da Universidade Estadual da Louisiana.

Hales e outros cientistas dizem que até mesmo a parte do pântano atingida pelo petróleo parece estar se recuperando.

Mark Kulp, um professor associado de geologia costeira da Universidade de Nova Orleans, que também realiza pesquisa para uma empresa contratada pela BP, diz que suas observações da vegetação, do capim-marinho aos manguezais, revelam um renascimento surpreendente. “Há locais onde vi os caules cobertos de petróleo e que agora há nova vegetação brotando”, ele disse. “É algo predominante.”

Os pântanos e áreas alagadiças são particularmente sensíveis ao petróleo. Se ele penetra no solo, ele pode matar a vegetação e suas raízes, provocando erosão. Em alguns vazamentos, incluindo o do Exxon Valdez, óleo residual foi encontrado nos pântanos décadas depois. Kulp sugere que o mesmo não ocorrerá no golfo. “Uma coisa trabalhando a nosso favor é a natureza do substrato”, ele disse, se referindo ao fundo do pântano. “Ele é feito predominantemente de sedimento lamacento e é relativamente impenetrável.”

Outros são menos otimistas. John W. Day Jr., um professor aposentado de oceanografia e ciências costeiras da Estadual da Louisiana, tem trabalhado com uma empresa privada que desenvolveu um sensor complexo para detecção aérea de petróleo e gás. Suas medições mostram que as plantas no interior dos pântanos, que parecem saudáveis, na verdade estão estressadas e provavelmente morrerão em breve. DiPinto da NOAA também está preocupada. Ela disse que as criaturas do pântano que cavam tocas, como os caranguejos, no final poderão trazer o petróleo mais profundo para o solo.

E Wilma Subra, uma química que fornece assistência técnica para a Rede de Ação Ambiental da Louisiana e que encontrou resíduos substanciais de petróleo nos pântanos e estuários próximos da foz do Rio Mississippi, no Rio Atchafalaya e na Baía de Terrebonne, disse: “O governo e a BP continuam dizendo que a situação melhorou muito, mas ainda há muito petróleo. Qualquer pescador pode dizer isso”.

Subra disse que o governo precisa fazer mais para avaliar a situação. “Eu não estou dizendo que o pessoal deles em campo não está fazendo um bom trabalho, mas estamos ouvindo dos pescadores e vendo pessoalmente o que não está sendo investigado”, ela disse. “Eu já vi muitas áreas cobertas de petróleo onde a vegetação não está voltando.”

O maior desafio científico do vazamento pode ser entender como o petróleo está interagindo com o ambiente submarino. O petróleo foi lançado a 1.500 metros abaixo da superfície do mar e então tratado com um volume sem precedente de dispersantes químicos. Uma fração enorme –o quanto é disputado– formou pelo menos uma grande nuvem submarina de gotículas microscópicas.

O petróleo, que é tóxico, representa uma ameaça à vida selvagem, especialmente se for continuamente ingerido, apesar de todas as amostras de peixes e frutos do mar testadas pela Food and Drug Administration (o órgão do governo americano que regula alimentos e medicamentos) terem sido declaradas seguras.

Ainda assim, os cientistas da Universidade de Tulane e da Universidade do Sul do Mississippi informaram ter encontrados gotículas minúsculas de petróleo em larvas de siri-azul. As gotículas não foram ingeridas, mas estavam alojadas sob a carapaça e parecem desaparecer quando a larva troca a proteção externa, disse Harriet Perry, uma bióloga da Universidade do Sul do Mississippi. Isso sugere que as gotículas podem afetar animais que se alimentam das larvas, mais do que os próprios siris.

Os cientistas também temem que as nuvens possam esgotar seriamente os níveis de oxigênio no golfo, por causa da explosão da população de bactérias que se alimentam do óleo.

Baixos níveis de oxigênio já são um problema agudo. Todo verão, água de escoamento agrícola do Mississippi estimula a população de bactérias, produzindo uma “zona morta” do tamanho de Nova Jersey, que se estende da foz do Rio Mississippi até Galveston, Texas, a oeste. A zona é tão carente de oxigênio que não sustenta vida. Os cientistas, fazendo uso de dados que não incluem o vazamento de petróleo, estimaram em maio que a zona seria maior neste ano.

Mas até o momento, há pouca evidência de esgotamento severo de oxigênio fora da zona prevista. A NOAA colheu mais de 2 mil amostras para medição dos níveis de oxigênio, colhendo água da superfície até o fundo dentro de um raio de cerca de 100 quilômetros do local do poço, disse Steve Murawski, consultor científico chefe do Programa Nacional de Pesca Marinha da NOAA. Eles encontraram uma depressão de oxigênio, mas não em níveis baixos demais a ponto de não permitir peixes, ele disse.

Resultados mais recentes, pelos cientistas do Departamento de Energia no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, sugerem que a nuvem em grande parte se dispersou ou decompôs, apesar de outros cientistas terem contestado vigorosamente a conclusão. Os cientistas da Lawrence trabalhavam com verbas do Instituto de Biociências Energéticas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que foi financiada há vários anos por uma verda de US$ 500 milhões, em 10 anos, da BP.

Terry Hazen, um microbiólogo e chefe do departamento de ecologia do laboratório, disse que os níveis de oxigênio podem ter permanecido altos por causa das gotículas na nuvem serem muito difusas.

Hazen disse que parte dele ficou decepcionado pela nuvem ter se tornado indetectável, porque ela não pode mais ser estudada.

“Mas isso é apenas o cientista em mim”, ele disse. “O ecologista e ambientalista estão felizes por ela ter sumido –era um desastre ecológico.”

Tradução: George El Khouri Andolfato

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