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Empresa produtora de carne de frango adota sistema de abate mais humano

William Neuman

Hoje em dia o consumidor que vai ao supermercado encontrará carne de frango com todas as mais diversas características: frango criado em áreas amplas, não confinado em gaiolas, isento de antibióticos, alimentado com dieta vegetariana, orgânico e até mesmo resfriado a ar. Será que em breve teremos o frango livre de estresse? Duas grandes companhias norte-americanas produtoras de carne de frango, a Bell & Evans, da Pensilvânia, e a Mary's Chickens, da Califórnia, estão se preparando para adotar um sistema de abate de frangos que elas consideram mais humano. O novo sistema utiliza o gás dióxido de carbono para fazer com que as aves fiquem inconscientes antes de serem dependuradas pelos pés e terem os pescoços cortados, o que as poupa do potencial sofrimento associado aos métodos de abate convencionais. “Quando você pega um frango, pendura-o de cabeça para baixo e o coloca em uma fila de abate, o estresse sofrido pela ave é enorme”, diz Scott Sechler, o proprietário da Bell & Evans. “O objetivo do nosso sistema é colocar os frangos para dormir tranquilamente e abatê-los sem estresse”. Isso sem dúvida atrairá um segmento do universo de consumidores de carne de frango. Mas informar esses consumidores a respeito deste método se constitui em um desafio de marketing. “Na maioria das vezes, as pessoas não desejam pensar na maneira como o animal é abatido”, diz David Pitman, cuja família é proprietária da Mary's Chickens. A Anglia Autoflow, a companhia que está construindo os novos sistemas de abate para as duas empresas frigoríficas, chama o processo de “sedação por atmosfera controlada”, mas Pitman afirma que a sua companhia está cogitando usar simplesmente o termo “sedação” nas suas embalagens. Outros termos que estão sendo avaliados são: “humanamente abatidos”, “humanamente processados” e “humanamente manipulados”. A estratégia, segundo ele, é explicar qual é o objetivo do novo sistema: garantir que as aves “não sofram nenhuma dor ou desconforto extra nos seus últimos minutos de vida”. Em um abatedouro comum, as aves são descarregadas em um local conhecido como “área para pendurar animais vivos”. Lá, os funcionários penduram os frangos de cabeça para baixo em correntes de metal afixadas a uma esteira mecânica que os transporta para o local de abate. Eles entram primeiro em uma unidade na qual recebem um choque elétrico moderado para ficarem inconscientes, e a seguir são transportadas para a “máquina de matar”, onde uma lâmina corta-lhes o pescoço para que elas sangrem até a morte. No novo sistema, as aves chegarão ao abatedouro em contêineres especiais que seguirão diretamente para uma câmera na qual se injetará gradualmente dióxido de carbono, o que eliminará o oxigênio e fará com que os frangos fiquem inconscientes. Só depois disso os funcionários pegarão as aves e as pendurarão nas correntes. Temple Grandin, professora de ciência de animais da Universidade do Estado do Colorado e uma proeminente especialista em animais para abate, avaliou a Bell & Evans quando esta companhia trabalhava juntamente com a Anglia para projetar o novo sistema de abate. Ela concluiu que esse sistema é melhor porque os frangos não têm consciência do que está acontecendo com eles. “As aves não gostam de ser penduradas de cabeça para baixo”, afirma Grandin. “Elas ficam muito estressadas com essa prática”. Secher diz que o sistema foi projetado para fazer com que as aves percam a consciência de maneira suave, da mesma forma que uma pessoa é anestesiada antes de passar por uma cirurgia. Para evocar esta imagem, Secher quer colocar a expressão “indução lenta de anestesia” nas suas embalagens e propagandas, que já informam aos consumidores que as aves são criadas em ambientes espaçosos, com luz natural, e que recebem alimentos sem antibióticos ou resíduos animais. Os consumidores que desejarem ter mais informações poderão consultar o website da companhia. Sechler afirma que o sistema que escolheu, após anos de pesquisa, é melhor do que sistemas similares de sedação a gás utilizados na Europa. Segundo ele, esses sistemas muitas vezes privam muito rapidamente as aves de oxigênio, o que pode provocar sofrimento. Além do mais, são sistemas projetados para matar as aves, em vez de simplesmente desacordá-las, algo em relação ao qual Sechler não se sente confortável. “Nós não queremos que as pessoas saiam dizendo por aí que nós abatemos os nossos frangos em câmeras de gás”, explica ele. Sechler diz acreditar que a carne dos frangos assim abatidos seja mais macia porque eles passam por menos estresse ao morrerem. O outro sistema deverá ser também melhor para os funcionários. Atualmente a área na qual as aves são penduradas é geralmente mal iluminada a fim de impedir que os frangos fiquem agitados, e os trabalhadores têm que lidar com frangos que se debatem sem parar. “Eu nunca me senti confortável em mostrar essa parte da operação às pessoas”, diz Pitman. “Sempre achei isso embaraçoso”. O grupo Pessoas pelo Tratamento ético dos Animais (PETA, na sigla em inglês) pressiona há anos os abatedouros para que estes adotem sistemas de sedação a gás, em parte porque a organização não acredita que o processo de sedação por choques elétricos realmente funcione. Mas o Conselho Nacional do Frango, que representa os abatedouros de frangos dos Estados Unidos, garante que os sistemas elétricos são eficientes e humanos. Richard Lobb, um porta-voz do conselho, afirma que dependurar os frangos de cabeça para baixo não provoca estresse excessivo nas aves. “Elas são dependuradas e geralmente permanecem quietas naquela posição”, diz Lobb. A Bell & Evans diz que começará a vender frangos abatidos com a nova tecnologia em abril do ano que vem. A companhia, que processa cerca de 840 mil aves por ano, vende os seus frangos para todo o país. A Mary's, que vende frangos em vários Estados da região oeste dos Estados Unidos, pretende adotar a nova tecnologia em junho de 2011. A companhia processa cerca de 200 mil aves por semana. A título de comparação, um único abatedouro de uma grande companhia como a Tyson Foods pode abater mais de um milhão de aves por semana. A tecnologia a gás é cara. Cada companhia diz que investirá US$ 3 milhões (R$ 5,1 milhões) na conversão das suas operações, e ainda mais para poder administrar os sistemas. Isso faz com que a nova tecnologia não seja muito popular em um setor baseado em commodities e que depende de grandes volumes e baixos custos para transformar baixas margens unitárias de lucro em lucros totais expressivos. Sechler prevê que os consumidores exigirão aves abatidas com o novo método, o que fará com que a indústria adote gradualmente essa técnica. Mas, para que exijam esse método, os consumidores precisam primeiro saber que ele existe, o que faz com que a questão retorne para a linguagem utilizada nos rótulos. A MBA Poultry, uma companhia do Estado de Nebraska que vende os seus produtos sob a marca Smart Chicken, usa a tecnologia de sedação a gás desde 2005. A companhia não faz um marketing agressivo desse método, mas um rótulo na parte anterior das suas embalagens traz a informação: “Sedação por atmosfera controlada”. O website da companhia menciona a tecnologia, sem entretanto explicar como ela funciona. No Reino Unido, embora muitos abatedouros de frangos usem a sedação a gás, as embalagens geralmente não fazem qualquer menção a esse método. “O consumidor não deseja saber muito”, diz Marc Cooper, gerente científico do departamento de pecuária da Real Sociedade para a Prevenção da Crueldade contra os Animais, em Londres. “é difícil vender o conceito de 'abate humano'”.

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