Terremoto no Japão

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Com escassez de energia, Japão busca extrair o máximo de cada watt

Norimitsu Onishi

Em Tóquio (Japão)

Veja álbum de fotos Com o Japão sofrendo escassez de energia elétrica em meio ao verão, Michio Kuniyuki aumentou suas patrulhas de conservação de energia na Universidade Rikkyo.   Como tem feito nos últimos seis verões, Kuniyuki passa seus dias assegurando que luzes e o ar-condicionado não tenham sido deixados ligados em salas de aula vazias. Sempre que encontra estudantes em uma sala de aula, ele desliga o ar-condicionado e pergunta sobre as luzes.   “Deixo ligadas ou posso desligá-las?” Kuniyuki perguntou outro dia.   “Uh”, hesitou um jovem, dando a Kuniyuki a abertura para sua próxima ação.   Clique. Desligada.   Contando agora com o apoio de um colega recém-indicado para as patrulhas, Kuniyuki tem conseguido mapear estrategicamente suas rotas pelo campus e ser mais esperto do que os estudantes que costumam reacender as luzes tão logo eles viram as costas.   “é duas vezes mais eficaz”, ele disse.   Já um líder em conservação de energia elétrica, o Japão consome metade da energia per capita que os Estados Unidos, segundo o Fundo de População das Nações Unidas. Mas ele tem sido pressionado a fazer ainda mais desde o desastre nuclear, mesmo enquanto tenta reanimar sua economia. O acidente na usina nuclear de Fukushima Daiichi e a reação resultante contra a energia nuclear deixaram apenas 17 dos 54 reatores do Japão em funcionamento enquanto o país se prepara para agosto, o mês mais quente do ano.   Números preliminares indicam que regiões sob economia de energia obrigatória têm conseguido cumprir as metas de redução e até mesmo superá-las, fornecendo um possível modelo de potencial de conservação diante do crescimento das preocupações com o aquecimento global. Na área de Tóquio, o governo está pressionando por uma redução de 15% no uso de eletricidade entre 9 horas da manhã e 8 horas da noite nos dias úteis para prevenir apagões –e na quinta-feira, por exemplo, essa meta foi atingida em comparação ao ano passado.   Os japoneses estão adicionando ao esforço de conservação a combinação característica de fervor nacional, perseverança, persuasão por meio de slogans, tecnologia e coerção social.   Uma campanha explora a opção de traje formal de negócios sem gravata no verão, iniciada em 2005, encorajando os assalariados a se despojarem ainda mais, vestindo camisa pólo ou as camisas tradicionais estilo aloha, vestidas nas ilhas tropicais japonesas de Okinawa.   Para apoiar o esforço de conservação, boletins de eletricidade, que preveem a oferta de energia do dia e a demanda prevista em tempo real, se tornaram parte do verão tanto quanto o sol forte e o ar úmido. Eles são entregues juntamente com a previsão do tempo no noticiário matinal, e anunciados juntamente com o aviso de próxima parada em alguns trens.   Os alertas do governo também são enviados para os assinantes de celulares quando a demanda geral se aproxima da capacidade, levando os lares a desligarem o ar-condicionado ou, melhor, desligar todas as luzes.   Os boletins, disponíveis desde o início do mês nos sites das companhias elétricas e da mídia, mostram a quantidade de eletricidade sendo usada na área atendida pela companhia, assim como o consumo no mesmo dia no ano passado.   Na área de Tóquio, a Tokyo Electric Power Company, ou TEPCO, a operadora da usina de Fukushima, emite uma previsão no início da noite para o dia seguinte, e depois refina a previsão na manhã seguinte, dependendo da mudança do tempo. Durante o dia, a TEPCO atualiza o consumo de eletricidade a cada cinco minutos, em um gráfico de barras que mostra previsivelmente o consumo aumentando constantemente no período da manhã e atingindo o seu pico à tarde.   Na semana passada, as previsões e o consumo de fato pairaram em torno de 75% da capacidade, graças ao clima frio fora de época trazido por um tufão. Yukihiko Tayama, um gerente da TEPCO especializado em oferta e demanda, disse que até o momento neste verão, a demanda geral está perigosamente próxima da capacidade, de modo que não se sabe se os boletins em tempo real influenciariam o comportamento das pessoas em uma crise. O teste real ocorrerá em agosto, disse Tayama.   Os governos locais estão realizando concursos solicitando ideias de conservação; os lares estão economizando além das horas nas quais a conservação é exigida, das 9h às 20h; e as empresas transferiram dias de folga para dias úteis e adotaram outras medidas não apenas para evitar multas –as multas mais caras custam menos de US$ 13 mil– mas também para contribuir para o esforço nacional.   Na Meiwa Rubber, uma empresa fabricante de equipamento de impressão com fábricas em Tóquio, as luzes foram reduzidas, o uso de água quente foi restringido, assim como o ar condicionado. Um funcionário monitora o consumo de energia da fábrica em tempo real, usando um software fornecido pela TEPCO. Se a consumo se aproxima do uso máximo da empresa no ano anterior, luzes laranjas piscam nos pisos da fábrica e nos escritórios; se o consumo ameaça superar o uso máximo, luzes vermelhas piscam, levando os funcionários a desligarem os três aparelhos de ar condicionado.   “A meta do governo é 15%, mas nossa meta é uma redução de 25%”, disse Tatsuo Nakahara, 63 anos, o gerente administrativo da empresa. Ele acrescentou que nos meses após o desastre de março, a empresa já tinha conseguido economizar 20%.   Os escritórios aqui, já agradáveis segundo os padrões americanos, têm sido orientados a estabelecer a temperatura em 28ºC, apesar da temperatura real, especialmente nos dias quentes, passar de 30ºC em muitos escritórios.   “Nós estamos fazendo isso pelo Japão”, disse Jun Nakada, um assalariado de 36 anos cujas luzes do escritório foram reduzidas de oito lâmpadas fluorescentes para duas.   A não cooperação é recebida com cara feia. Algumas empresas proibiram funcionários de ligar ventiladores de mesa; em outros sem essas proibições, fazê-lo pode ser considerado prejudicial para a carreira.   Revistas semanais estão cuidando para que não haja trapaceiros. Várias enviaram repórteres armados com termômetros aos escritórios daqueles considerados responsáveis pelo desastre nuclear, particularmente o triunvirato da TEPCO, reguladores nucleares e políticos pró-energia nuclear, amplamente considerados em conluio. O establishment nuclear também estava suportando um verão transpirante, noticiaram as revistas com grande satisfação.   Mas talvez o monitoramento não seja necessário, dado o poder da desaprovação social aqui.   Mitsuharu Taniyama, 73 anos, dono de uma pequena seguradora, orientou seus funcionários a reduzirem as luzes em seus escritórios no segundo andar de um pequeno prédio em Yokohama.   “Como você pode ver, nossos escritórios são cercados por janelas, de modo que, após escurecer, as pessoas caminhando do lado de fora notariam que tudo estaria aceso aqui”, disse Taniyama. “Isso faria com que me sentisse culpado.”   Como alguns japoneses de sua geração, Taniyama disse que a campanha nacional o faz lembrar das restrições ao uso de luzes durante a Segunda Guerra Mundial. Para evitarem se tornar alvos de ataques aéreos noturnos por aviões americanos, as famílias se uniam em torno de uma única lâmpada, ao mesmo tempo em que cuidavam para que nenhuma luz fosse visível do lado de fora.   Por trás do entusiasmo pela conservação, Taniyama também vê um repensar da mentalidade concentrada do Japão em crescimento econômico no pós-guerra. Ele acredita que muitos estariam dispostos a renunciar a energia nuclear, mesmo que signifique “viajar no tempo, para um estilo de vida que o Japão tinha quando perdeu a guerra para a América”.   A conservação deixou Tóquio, uma cidade famosa por suas luzes de néon e telas gigantes de televisão, um pouco mais escura neste verão. Isso fez com que os japoneses deixassem de lado, por ora, os aparelhos gastadores de energia elétrica que propiciam prazeres particulares à vida aqui.   Sakuko Saeki, 75 anos, disse que não apenas desligou, mas também tirou da tomada os eletrodomésticos . Ela dificilmente liga o ar-condicionado, preferindo usar um abanador na sala de estar. Mas há um aparelho do qual ela não abre mão: o vaso sanitário automático, chamado washlet, do tipo que dá descarga sozinho, levanta e abaixa a tampa sozinho, e nunca deixa de impressionar os estrangeiros que visitam o Japão pela primeira vez.   “Eu desligava meu washlet”, disse Saeki, “mas parei de fazer isso”.   *Kantaro Suzuki contribuiu com reportagem.

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