Trump tira lições do sofrimento do irmão

Jason Horowitz

Em Nova York (EUA)

  • Sean Rayford/Getty Images/AFP

    O pré-candidato republicano Donald Trump

    O pré-candidato republicano Donald Trump

Em uma noite na década de 1960, Donald J. Trump, que ainda estava no colégio, mas ansioso para ganhar muito, encontrou-se com seu irmão Freddy para jantar em um conjunto de apartamentos no bairro de Queens construído por seu pai.

As coisas azedaram depressa.

Enquanto Freddy, um piloto de companhia aérea que gostava de se divertir e tinha um dom para imitar W.C. Fields, fazia brincadeiras com seu melhor amigo à mesa, o irmão mais moço tornava-se impaciente. Cresça, amadureça e faça algo por si mesmo na empresa da família, criticou-o Donald.

"Donald costumava zombar de Freddy", disse Annamaria Schifano, então namorada do melhor amigo de Freddy, que estava naquele jantar e lembrou-se da tendência de Donald a provocar brigas e sair intempestivamente. "Havia muita combustão."

Para Trump, um candidato presidencial cujo apelo se baseia em uma aura de dureza, conquista pessoal e eterno sucesso, a história de Freddy, um homem bonito, sociável e autodestrutivo que morreu vítima do álcool em 1981 aos 43 anos, é dura e raramente contada.

Em uma entrevista por telefone na semana passada, Trump disse que, vendo seu irmão, aprendeu que as más escolhas podem arrastar para baixo até pessoas que parecem destinadas a subir. Ver o sofrimento de seu irmão o levou a jamais experimentar álcool ou cigarros, explicou.

Mas o caso doloroso de Freddy Trump, oito anos mais velho que seu irmão e que era o herdeiro aparente do império imobiliário de seu pai, também serve como exemplo dos riscos de não se conformar em uma família dominada por um patriarca decidido e perfeccionista e um irmão mais moço agressivo.

Na ascendente família Trump, Donald era o segundo filho e o favorito, o que entrou na Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, adorava o combate dos negócios imobiliários em Nova York e afinal transformou o nome Trump em marca internacional.

Freddy foi a decepção, o que não tinha o instinto assassino e se afastou tanto das ambições de seu pai que seus filhos foram em grande medida excluídos do testamento do patriarca.

Freddy, como era conhecido, "foi mais ou menos apanhado no meio como alguém que realmente não amava aquilo, e só porque não amava realmente não era especialmente bom nisso", disse Trump. "Meu pai tinha grande confiança em mim, o que talvez até pressionasse Fred."

Questionado sobre se a experiência de Freddy na empresa familiar, que segundo amigos foi péssima, contribuiu para o vício em bebida que afinal o matou, Trump disse: "Espero que não. Espero que não".

Desde o início, Freddy se destacou como alguém diferente de seu pai autoritário e "workaholic". Enquanto Fred pai se tornava um dos maiores construtores dos bairros externos de Nova York, seu filho rebelde bebia Coca-Cola, e mais tarde cerveja, com amigos na sala de recreação da família.

Menos inteligente que sua irmã mais velha, Maryanne Trump Barry, hoje uma juíza federal, ele também era mais receptivo a estranhos que seu pai.

Quando Schifano se mudou para os Jamaica Estates, o enclave rico onde os Trump moravam, Freddy lhe confidenciou que seus pais tinham entrado em pânico porque os italianos Schifano eram "a primeira família étnica a se mudar para o bairro".

Mas Freddy estava menos preocupado com distinções étnicas. Quando se matriculou na Universidade Lehigh, na Pensilvânia, o rapaz louro que tinha frequentado uma escola preparatória episcopal em Long Island entrou para uma fraternidade judaica.

"Talvez tenha sido a primeira tentativa de Freddy de fazer uma afirmação pessoal a seu pai", disse seu melhor amigo em Lehigh, Bruce Turry, que, como vários outros ex-membros da fraternidade, lembra-se de que Freddy afirmava que seu pai, filho de imigrantes alemães, era judeu. (Não era.) "Freddy foi a ilustração clássica de alguém que tinha um problema psicológico com o pai."

Logo ficou evidente para seus colegas na fraternidade que Freddy, que usava roupas da Brooks Brothers que envolviam sua estrutura esguia, era rico. Ele dirigia um Corvette e possuía uma lancha Century. Às vezes levava seu irmão menor, Donald, que estudava em uma academia militar no interior, em expedições de pesca no verão ao largo de Long Island.

"Espero que você não se importe, mas tenho de levar o pentelho do meu irmão Donald", ele teria dito a outro colega de fraternidade, Stuart Oltchick.

Na época, Donald se inspirava em seu irmão e mantinha uma foto dele, de pé ao lado de um avião, em seu dormitório na escola militar. Mas também imaginava um futuro sem o irmão no meio do caminho.

Segundo o livro "The Trumps: Three Generations That Built an Empire" [Os Trump, três gerações que construíram um império], de Gwenda Blair, Donald disse a seu companheiro de quarto que a decisão de Freddy de ser piloto, em vez de dirigir a empresa da família, tinha limpado o caminho para que ele sucedesse a seu pai.

Freddy desenvolveu sua paixão pela aviação no clube de pilotos de Lehigh, onde voou abaixo de linhas de energia elétrica e disputou corrida com tempestades. Mas quando se aproximava sua formatura, em 1960, seu pai começou a construção da Trump Village, um condomínio enorme em Coney Island e o primeiro a levar o nome da família. Freddy estava ansioso para deixar sua marca.

"Ele tornaria famoso o nome Trump", era o que seu pai sonhava, segundo Turry. "Nós iríamos morar em um dos apartamentos de seu pai e teríamos uma mesa de pista no Copacabana."

Não deu certo. Enquanto trabalhava na Trump Village, Freddy foi censurado pelo pai por instalar novas janelas caras, em vez de reparar as antigas. Trump disse que seu pai "podia ser inflexível", e que Freddy tinha penado com suas críticas abundantes e elogios econômicos.

"Para mim, funcionou muito bem", disse Trump. "Para Fred não era algo que daria certo."

Oltchick disse que Freddy se "queixava de não conseguir sua aprovação".

Enquanto Freddy tropeçava, disse Trump, "eu o observava. E aprendi com ele".

Freddy deixou o ramo imobiliário para seguir sua paixão por voar, e foi trabalhar na Trans World Airlines, que lhe deu alguns bons anos. Em 1962, aos 23, ele se casou com Linda Clapp, uma comissária de bordo. Tiveram dois filhos, que chamaram de Fred e Mary, como os pais de Freddy.

A família se instalou em Queens e passava o tempo livre com o melhor amigo de infância de Freddy, William Drake, que também era piloto, e sua mulher, Annamaria Schifano.

Os casais faziam pesca submarina e comiam ostras na concha. Certa vez avistaram uma traineira soviética em águas internacionais ao largo de Montauk. Freddy circundou o barco enquanto seus amigos gritavam "Do svidaniya!" --"adeus" em russo.

Mas quando chegou aos 25 Freddy começou a beber muito. E Donald, na faculdade, não aprovava, censurando o irmão mais velho por perder tempo com atividades frívolas e dizendo-lhe para voltar aos imóveis.

"Eu era jovem demais e não entendia", disse ele. "Hoje faço palestras sobre sucesso e digo às pessoas: vocês têm de amar o que fazem."

Trump disse que afinal reconheceu que seu irmão era um piloto talentoso e seu lugar era nas nuvens, e não entre tijolos e cimento. Mas quando Donald se formou no colegial, em 1968, e começou a subir na sede da Trump em Coney Island, o alcoolismo de Freddy saiu do controle.

Schifano lembra-se da última vez em que viu Freddy, certa noite no final dos anos 1960. Ele parecia exangue. Apesar de ela ter preparado seu prato favorito, rosbife, ele mal comeu.

Os anos que se seguiram não foram bons. Freddy se divorciou, parou de voar porque sabia que a bebida representava um perigo e faliu na pesca comercial na Flórida. No final dos anos 1970, voltara a morar na casa dos pais em Jamaica Estates e trabalhava em uma das equipes de manutenção de seu pai.

Então Donald já havia irrompido no mercado imobiliário de Manhattan e na cultura das celebridades local. Um irmão mais moço, Robert, tinha seguido as pegadas de Donald, entrando para a companhia familiar e tornando-se um alto executivo.

Em 1977, Donald pediu que Freddy fosse o padrinho de seu primeiro casamento, com a modelo checa Ivana Winklmayr, uma honraria que Donald esperava que fosse "uma coisa boa para ele". Mas a bebida continuou, e quatro anos depois Freddy estava morto.

Nas décadas seguintes, Donald colocou o nome Trump em arranha-céus, cassinos e aviões.

Em 1999, o patriarca da família morreu e 650 pessoas, incluindo muitos executivos dos imóveis e políticos, lotaram seu funeral na Igreja Marble Collegiate, na Quinta Avenida.

Mas o drama ainda não tinha terminado. O filho de Freddy, Fred 3º, falou no funeral e naquela noite sua mulher entrou em trabalho de parto; seu filho teve convulsões que causaram paralisia cerebral. A família Trump prometeu que pagaria as contas médicas.

Então veio a abertura do testamento de Fred pai, que Donald havia ajudado a redigir. Ele dividia o grosso da herança, pelo menos US$ 20 milhões, entre seus filhos e descendentes, "menos meu filho Fred C. Trump Jr."

Os filhos de Freddy moveram um processo, afirmando que uma versão anterior do testamento lhes concedia o direito à parte de seu pai no espólio, mas que Donald e seus irmãos tinham usado "influência indevida" sobre seu avô, que estava demente, para eliminá-los.

Uma semana depois, Trump retaliou, retirando os benefícios médicos que eram vitais para o bebê de seu sobrinho.

"Eu fiquei irritado porque eles processaram", explicou ele na entrevista na semana passada. Na época, atribuiu a exclusão dos sobrinhos do testamento ao "tremendo desapreço" que seu pai sentia pela ex-mulher de Freddy, Linda. Ela e Fred 3º não quiseram comentar a disputa.

Trump disse que o litígio foi resolvido "muito amigavelmente", e que ele gosta de Fred 3º, que trabalha com imóveis, mas não na organização Trump. Ele disse também que, aos 69 anos, passou a entender o espírito livre de seu irmão.

"Ele teria sido um ótimo pacificador, se não tivesse o problema, porque todo mundo o amava", disse Trump. "Ele parece o oposto de mim."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos