Opinião: Vivemos a era do terrorismo de pequena escala

David Brooks

  • Oded Balilty/AP

    Bar no centro de Tel Aviv onde um homem armado abriu fogo, matando duas pessoas

    Bar no centro de Tel Aviv onde um homem armado abriu fogo, matando duas pessoas

Na véspera de Ano Novo, fui com alguns amigos e familiares tomar um drinque em um bar em Tel Aviv. No dia seguinte, um atirador disparou no local, matando duas pessoas e ferindo pelo menos cinco. Quando ouvi falar do tiroteio, fiquei horrorizado, é claro, mas não havia emoção especial gerada pela proximidade de 16 horas antes.

Atualmente, todos nós vivemos sob o risco de sermos vítimas do terror aleatório, seja em Paris, San Bernardino, Boston ou Fort Hood. Muitos de nós já esbarramos nesse tipo de ataque. Em parte é a aleatoriedade que determina se você estará no lugar errado na hora errada.

Mas há algo importante neste acúmulo desses massacres aleatórios --a forma como afeta a psicologia social e a cultura em que todos nós habitamos. Estamos vivendo na era do terrorismo de pequena escala.

Em Israel, há uma onda de esfaqueamentos. Neste país, temos tiroteios nas escolas e nos cinemas. Nas cidades, há o assassinato de policiais. Em outros lugares, existem ataques suicidas. A violência é o arroz com feijão dos canais de notícias globais.

Muitos dos ataques têm conotações religiosas ou políticas. Mas há sempre também um elemento psicológico. Alguns jovens adultos se separaram dos pais, mas não desenvolveram uma personalidade independente e própria. A fim de escapar do terror de sua própria insignificância, alguns se envolvem com sistemas de crenças fanáticas. Eles realizam algum ato horrível acreditando que aquilo dará a sua vida um formato, um significado e glória. Credos como o islamismo radical oferecem a ilusão de que matar e se autoaniquilar são a forma mais nobre de sacrifício.

Estes ataques individuais tornaram-se um contágio social em todo o mundo. Estes atos diversos de terrorismo em pequena escala se combinaram e criaram um estado geral de ansiedade.

O medo é uma emoção dirigida a uma ameaça específica, mas a ansiedade é uma inquietação desfocada corrosiva. Na era do terrorismo de pequena escala, essa ansiedade induz a sensação de que os sistemas básicos de autoridade não estão funcionando, que os responsáveis não estão conseguindo manter as pessoas seguras.

As pessoas estão mais propensas a desenvolver uma sensação de que a vida é mais cruel e precária –selvagem, com dentes e garras. Elas erguem paredes tribais e desconfiam de quem está de fora. Essa ansiedade deixa todo mundo um pouco menos humano.

Em cada país, essa ansiedade está desafiando a ordem liberal. Quero dizer o liberalismo iluminista filosófico, não o liberalismo partidário. Falo da crença básica na sociedade aberta, na liberdade de expressão, no igualitarismo e no meliorismo (progresso gradual). É acreditar que, por meio da conversa fundamentada, os valores são firmados e o fanatismo recua. É a crença de que as pessoas de todos os credos merecem tolerância e respeito.

Estes pressupostos liberais têm sido desafiados a partir de cima há anos -por ditadores. Mas agora eles são desafiados a partir da base, por anti-liberais populistas que apoiam a Frente Nacional na França, o Ukip no Reino Unido, Viktor Orban na Hungria, Vladimir Putin na Rússia e, em alguns aspectos, Donald Trump nos EUA

A onda de anti-liberalismo levou a uma das fissuras políticas mais importantes atualmente, entre aqueles que apoiam uma sociedade aberta e aqueles que apoiam uma sociedade fechada.

Na década de 90, a abertura dos países e o enfraquecimento das fronteiras estavam em alta, mas agora, partes da esquerda defendem políticas comerciais fechadas e a direita defende políticas culturais e de migração fechadas.

O anti-liberalismo tem sido mais visível na direita. Os conservadores classicamente liberais estão em retirada, enquanto os eleitores buscam homens fortes que prometem fechar as fronteiras e bestificar o tecido demográfico e social. É muito cedo para dizer se o Partido Republicano terá menos eleitores evangélicos este ano, mas o tom do debate certamente tem sido menos cristão --menos caridoso, menos hospitaleiro aos estranhos.

Cabe a nós que acreditamos em uma sociedade aberta travarmos um contra-ataque intelectual. Isso não pode ser feito repetindo a mesma ladainha dos anos 90 sobre a liberdade de escolha e a harmonia natural entre os povos. Você não pode vencer o fanatismo moral com um chá fraco de relativismo moral.

Você só pode vencê-lo com o pluralismo de compromissos. As pessoas só se realizam quando fazem compromissos morais profundos. O perigo surge quando são fanaticamente e monopolisticamente comprometidas com apenas uma coisa.

O pluralista está comprometido com uma filosofia ou fé, mas também com uma etnia e uma cidade, com um trabalho, diversos interesses e culturas estrangeiras fascinantes. Esses compromissos diferentes se equilibram e se moderam um ao outro. Uma vida em diversos mundos com diversas pessoas tece uma existência humana multifacetada. A rigidez de um sistema de crença é forçada a se confrontar com a confusão das relações de trabalho ou de uma associação de bairro.

A ansiedade causada pelo terrorismo de pequena escala pode produzir hábitos mentais nocivos. A resistência mental torna-se tão importante quanto a resistência física. Isso significa voltar a defender a sociedade aberta, culturas abertas e um compromisso básico com o pluralismo moral. A abertura vale o custo do horror ocasional causado por fanáticos.

Tradutor: Deborah Weinberg

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos