Cidade da Geórgia ensina o "contra-ataque" como opção em tiroteios em massa

Richard Fausset

Em Douglasville, Geórgia (EUA)

  • Jessica McGowan/The New York Times

Quando a polícia realizava reuniões com a população em Douglasville no passado, ela tinha sorte se comparecesse meia dúzia de pessoas. Mas o assunto da mais recente palestra era "Atirador Ativo: um Guia do Cidadão para Planejamento de Sobrevivência". E o local ficou lotado.

O chefe Gary Sparks, um veterano do Exército com 29 anos na força policial, estabeleceu o tom com sua fala de abertura, parte conversa para animar e parte palestra pragmática de autodefesa. O mundo mudou, ele disse à plateia: pesquise no Google sobre as plantas dos estádios e locais de espetáculos antes de irem a eles. Estude o layout do seu mercado. Tome nota dos locais onde fazer uma saída rápida ou onde se esconder. E prepare-se para bater, se for preciso, com agressão máxima.

"Você não pode sair sem ter uma mentalidade de vencer o combate", disse Sparks. "Não dá para andar por aí com uma mentalidade acanhada. Não há cães pastores. Todos nós em Douglasville somos tigres, leões, ursos, elefantes, o que quer que você queira ser."

E assim prosseguiu esse gênero macabro de aula, um ritual cada vez mais comum em uma nação saturada de armas, onde muitos se sentem particularmente vulneráveis após os ataques homicidas do Estado Islâmico em Paris, em novembro, do ataque sangrento a uma clínica da Planned Parenthood (organização que oferece aconselhamento sobre planejamento familiar e defende o direito ao aborto), em Colorado Springs, Colorado, duas semanas depois, e o massacre de funcionários do condado de San Bernardino, Califórnia, no mês passado.

Realizada em uma noite na semana após o Natal, a reunião em Douglasville atraiu cerca de 80 pessoas: aposentados preocupados, funcionários de escritório preocupados, professores e pais preocupados, e um rapaz de 21 anos preocupado, vestindo camiseta de heavy metal, Chris Wallace, que disse que se sentia particularmente exposto em lugares públicos cheios de pessoas. Ele estava pensando em requisitar uma licença para porte de arma escondida.

"Você nunca está totalmente seguro", ele disse.

Ao longo de 90 minutos, a polícia os encorajou a adotarem uma visão de mundo que é, basicamente, a visão comum dos policiais: esteja sempre atento a tudo ao seu redor. Procure constantemente por ameaças potenciais. Alterne incessantemente entre rotas de fuga e planos de ataque.

Eles distribuíram um caderno que definia "atirador ativo" como "um indivíduo engajado ativamente em matar ou tentar matar pessoas em uma área confinada e com grande quantidade de pessoas". Ele estava repleto de estatísticas ("Esses incidentes", ele dizia, ocorrem "em média, uma vez a cada cinco semanas no país"), uma minicartilha de "dinâmica da percepção" ("Nossos cérebros tomam a rota mais curta para nos ajudar a negociar mentalmente com ocorrências inesperadas") e diretrizes aprovadas pelo FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) e pelo Departamento de Segurança Interna conhecidas como "Corra, Esconda-se, Lute" –as três principais opções para alguém envolvido em um evento de "atirador ativo", com a luta geralmente recomendada como último recurso.

A polícia exibiu um vídeo no qual um atirador fictício vestido de preto atacava funcionários de colarinho branco fictícios durante um dia de trabalho cotidiano. "As autoridades estão trabalhando arduamente para proteger você e nossos espaços públicos", prosseguia a narração em tom grave. "Mas às vezes pessoas ruins fazem coisas ruins." Era mostrado os trabalhadores correndo, se escondendo e, no final, atacando o atirador enquanto ele passava por uma porta.

A ideia de se preparar para um tiroteio em massa é abraçada há anos por muitas escolas nos Estados Unidos, assim como alguns locais de trabalho: os funcionários tanto da clínica da Planned Parenthood no Colorado quanto do órgão público no Condado de San Bernardino receberam esse treinamento antes dos massacres ocorridos ali. Mas nas últimas semanas, mais sessões como a ocorrida aqui foram realizadas em todo o país. Centenas participaram de um seminário na Prefeitura de Livonia, Michigan. A Tropa 212 dos Escoteiros recebeu uma aula de sobrevivência no Departamento de Polícia de Iowa City. Vários governos estaduais e locais –incluindo a minúscula cidade de Level Plains, Alabama, e o Estado de New Hampshire, que emprega cerca de 11 mil pessoas– anunciaram uma ampliação do treinamento para seus funcionários em 2016.

Apesar das chances de um americano se ver envolvido em um evento de atirador ativo permanecerem extremamente pequenas, um estudo de 2014 do FBI mostrou que cerca de 11 desses tiroteios ocorreram em média a cada ano entre 2000 e 2013, com a frequência aumentando.

Autoridades de segurança pública há muito recomendam que as pessoas fujam ou se escondam em "locais trancados" durante ataques, mas nos últimos dois anos, as autoridades também passaram a aceitar o contra-ataque como um último recurso. A ideia de uma autodefesa pró-ativa foi abraçada plenamente em Douglasville, uma cidade suburbana de 32 mil habitantes a oeste de Atlanta. Danine Mezzell, 57 anos, disse que veio à reunião aqui depois de uma visita ao shopping center local no auge das compras de fim de ano, se perguntando como sobreviveria a um ataque sem suas armas, para as quais ela tem licença, mas que o shopping proíbe a entrada com elas.

"Eu pensava: 'Nossa, somos alvos fáceis aqui'", ela lembrou.

Bennie J. Amey, um músico de gospel e funcionário de tecnologia da informação de 50 anos, disse ter ficado feliz pela polícia ter enfatizado uma resposta agressiva. Ele espera que os terroristas domésticos e estrangeiros recebam a mensagem de que os americanos "são pessoas que reagem".

Por volta da metade da reunião, os policiais exibiram um segundo vídeo, no qual um instrutor da ACT Cert, uma empresa privada de "treinamento de contramedidas para ataques", dizia a um grupo de estudantes universitários sobre como aumentar as chances de sobrevivência caso um atirador invadisse a sala de aula deles. No vídeo, muitos dos estudantes saíam do que o instrutor chamava de "zona de morte": a visão inicial da sala pelo atirador. Alguns deles se aglomeraram de cada lado da porta. Quando um homem fingindo ser o agressor entrou na sala, eles o atacaram, agarrando seus antebraços e o derrubando no chão.

Uma sessão de perguntas e respostas foi realizada depois do vídeo. Kimberly Fugate, 49 anos, uma professora de espanhol do ensino médio, disse que sua escola pública possui um plano, e que ela instruiu seus alunos a se esconderem e ficarem quietos em caso de um ataque. "O que mais posso fazer?" ela perguntou.

O chefe de polícia disse que se ela tivesse oportunidade, deveria "atacar o sujeito no olho" com um lápis. "Arranque o nariz dele com uma mordida." Os alunos, ele disse, poderiam chutar o agressor enquanto estivesse caído "com centenas de pezinhos".

A plateia riu, mas alguns especialistas em segurança consideram esse conselho perigoso. "Isso exige uma avaliação muito série sobre contra-atacar ou não", disse em uma entrevista David Esquith, diretor do escritório de segurança do Departamento de Educação federal. "E essa é uma decisão que apenas um adulto pode tomar."

Um homem de voz gentil disse que sua nora, uma professora, cumpre com a regra de sua escola de nada de armas. Mas ele disse que ela mantém um martelo e uma chave de fenda ao seu alcance o tempo todo.

"Nunca se sabe quando ela precisará instalar algo", ele disse. "E aquela garota do Bronx é capaz de transformar você em carne moída."

Julie Turkewitz, em Denver, contribuiu com reportagem.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos