Pequim levanta desconfiança em Hong Kong após desaparecimentos em editora

Michael Forsythe

Em Hong Kong (China)

  • Vincent Yu/AP

    Estudantes protestam contra desaparecimento de funcionários de editora em Hong Kong

    Estudantes protestam contra desaparecimento de funcionários de editora em Hong Kong

Um editor estabelecido em Hong Kong, especializado em livros de fofocas sobre os líderes chineses, desaparece. Sua mulher dá queixa do desaparecimento à polícia. De repente ela a retira, depois que surge uma carta enviada por fax, aparentemente com a caligrafia de seu marido, declarando que ele está na China continental por vontade própria, ajudando em uma investigação. Autoridades de fronteira de Hong Kong não têm registro de sua saída.

O caso de Lee Bo --ou Paul Lee, em inglês-- e outros quatro colegas dele também desaparecidos tem todos os requisitos de um filme de espionagem. Mas para muitos dos 7,2 milhões de habitantes desta antiga colônia britânica seu desaparecimento e aparente surgimento do outro lado da fronteira que separa Hong Kong da China continental alimentaram um profundo temor. Eles põem em dúvida a garantia legal de que a população daqui estaria protegida do alcance de Pequim até meados do século, segundo um acordo conhecido como "um país, dois sistemas".

O caso também ameaça aguçar as tensões entre o continente e o Reino Unido, que recentemente fez gestos para se aproximar da China, declarando o início de uma "década dourada" de laços entre os dois países. Na terça-feira, Philip Hammond, o secretário das Relações Exteriores britânico, disse durante uma visita a Pequim, que Lee é um cidadão britânico.

No dia seguinte, disse que seria um "rompimento egrégio" do acordo de 1984 que deu início à devolução de Hong Kong à China se Lee, como temem muitos em Hong Kong, tiver sido arrancado da cidade para ser processado na China. A China emitiu uma resposta sucinta, em que uma porta-voz declarou que se opõe a "qualquer interferência estrangeira nos assuntos internos da China".

Para juristas e grupos de direitos humanos, o caso de Lee e os de seus quatro colegas da editora Mighty Current Media é o último exemplo do braço cada vez mais longo do Estado chinês, que, conforme sua economia cresce, parece mais disposto a alcançar além de sua jurisdição legal para apreender pessoas.

Nos EUA, agentes do governo chinês estão pressionando expatriados chineses procurados por acusações de corrupção para que retornem ao país. Em outubro, em Mianmar, autoridades sequestraram um adolescente cuja mãe, uma advogada de direitos humanos, está presa na China e o enviaram a seu país.

"Conforme a China interage em grau cada vez maior com o mundo, esses problemas surgem com maior frequência", disse Jerome A. Cohen, um diretor do Instituto de Direito EUA-Ásia na Universidade de Nova York. "Não é só o alcance crescente da lei chinesa, mas o alcance crescente da ilegalidade chinesa."

Para a população de Hong Kong, o sistema judicial da China não precisa ir longe. Pequim considera os chineses nascidos em Hong Kong cidadãos da República Popular, mesmo que tenham passaporte estrangeiro, desde que não renunciem à cidadania chinesa. Isto é consequência da devolução da soberania à China em 1997, após mais de 150 anos de domínio britânico. Enquanto Hammond revelava a cidadania britânica de Lee, seu homólogo chinês, Wang Yi, disse na terça-feira que Lee é "em primeiro lugar um cidadão chinês".

"O caso dos livreiros desaparecidos trouxe medo ao coração de todos os moradores de Hong Kong, que estão observando esse caso com muita atenção", disse Maya Wang, uma pesquisadora da China para a HRW (Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos) em Hong Kong.

Na China, noções de etnia, patriotismo e cidadania estão estreitamente entrelaçadas, o que incentiva as autoridades a manter uma visão abrangente de quem deve lealdade a Pequim. Gary F. Locke, o embaixador dos EUA na China de 2011 a 2014, foi aprovado por muitas pessoas depois de sua nomeação porque é etnicamente chinês. Mas quando ficou claro que estava lá representando os EUA a mídia estatal o desprezou como um traidor da raça.

"Desde tempos antigos, os chineses acreditam que se você tem origem chinesa, mesmo que vá ao fim do mundo, ainda é chinês", disse Liang Yingming, um professor de estudos internacionais aposentado da Universidade de Pequim que imigrou da Indonésia para o continente em 1955. "Mas isso não está de acordo com a realidade."

Na tarde de segunda-feira, o drama em torno do caso aumentou quando surgiu a carta em fax, através de uma agência de notícias em Taiwan, supostamente de Lee para um funcionário de uma livraria que pertence à Mighty Current, editora da qual sua mulher é sócia.

"Por causa de problemas urgentes que tenho de tratar, que não podem ser divulgados ao mundo exterior, encontrei meu próprio caminho para retornar ao continente, para ajudar certas partes em uma investigação", dizia a carta. "Poderá levar algum tempo."

Não está claro em que investigação Lee poderia estar ajudando. Mas a Mighty Current é uma das mais prolíficas editoras de livros mal fundamentados e lascivos sobre líderes chineses, abrangendo temas que muitas outras editoras consideram impróprios, incluindo a vida amorosa do presidente Xi Jinping. Os livros são apreciados por chineses que visitam a cidade autônoma, porque são proibidos no continente.

Outro sócio, Gui Minhai, um cidadão sueco que desapareceu de seu condomínio na Tailândia em meados de outubro, era conhecido por escrever um livro inteiro em apenas um mês.

Cohen e outros estudiosos de direito disseram que a ideia de que Lee deixou Hong Kong voluntariamente --deixando seus documentos de viagem em casa e de alguma forma escapando aos rígidos controles de fronteira-- é absurda. Fazer os sequestrados escreverem cartas que absolvem as autoridades de qualquer erro é uma tática comum, dizem eles.

Na quarta-feira (6), o maior jornal local em língua inglesa, "The South China Morning Post", relatou que em uma entrevista antes de seu desaparecimento Lee disse que não temia por sua segurança depois que quatro de seus colegas sumiram em outubro, porque não viajava ao continente "há muitos anos" e não pretendia fazê-lo.

Um advogado pró-Pequim em Hong Kong, Ng Leung-sing, aumentou a confusão, ao sugerir na terça-feira que "um velho amigo" lhe havia dito que o editor e seus colegas desaparecidos na verdade se esgueiravam pela fronteira para visitar prostitutas e foram apanhados no ato. Ele pediu desculpas no dia seguinte.

"A última sugestão de que o editor foi para Shenzhen e foi preso por usar prostitutas em Shenzhen é ridícula e uma conhecida tática de difamação comunista", escreveu em um e-mail Johannes Chan, um ex-reitor da faculdade de direito da Universidade de Hong Kong. Uma comissão recusou Chan para um cargo importante na universidade, provocando grandes protestos no campus depois que professores e estudantes culparam a pressão de Pequim por sua rejeição.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos