Com divulgação de dados, biblioteca de Nova York convida a um mergulho digital

Jennifer Schuessler

Em Nova York (EUA)

  • OptimumPx/Wikicommons

    Fachada da Bilbioteca Pública de Nova York

    Fachada da Bilbioteca Pública de Nova York

Mansion Maniac, um jogo online criado pela Biblioteca Pública de Nova York, pode parecer uma isca para provocar a inveja de quem não tem imóvel. Com a ajuda de um ícone estilo Pac-Man, os usuários podem explorar as plantas de algumas das residências mais extravagantes da cidade no início do século 20, selecionadas dos arquivos da biblioteca.

Mas o jogo é o que se pode chamar de um "teaser" de marketing para uma redistribuição de propriedades ainda maior em termos digitais: a liberação de mais de 180 mil fotografias, cartões postais, mapas e outros itens de domínio público pertencentes às coleções especiais da biblioteca, agora disponíveis para download em arquivos de alta resolução, juntamente com o convite para que os usuários peguem o material e façam o uso que quiserem dele.

A digitalização tem estado em voga na última década, à medida que bibliotecas, museus e outras instituições digitalizam milhões de itens e os colocam na internet. Mas a iniciativa da biblioteca (nypl.org/publicdomain) vai além das questões práticas sobre o que digitalizar e como, para tratar da questão mais profunda do que acontece em seguida.

"Nós vemos a digitalização como um ponto de partida, não um ponto final", disse Ben Vershbow, diretor do NYPL Labs, a divisão de tecnologia da biblioteca, que liderou a iniciativa. "Nós não queremos apenas colocar coisas na internet e dizer: 'aqui está', mas sim aumentar a atividade e incentivar a reutilização."

Um número cada vez maior de instituições está aderindo ao "conteúdo aberto". Embora a nova iniciativa da biblioteca represente um dos maiores lançamentos de material visual desde que o Rijksmuseum de Amsterdã começou a disponibilizar mais de 200 mil obras digitalizadas em arquivos gratuitos de alta qualidade em 2012, ela é notável por mais motivos além do tamanho.

"Não é apenas um depósito de dados", disse Dan Cohen, diretor-executivo da Biblioteca Pública Digital dos Estados Unidos, um consórcio que oferece acesso ao material digitalizado de mais de 1.300 instituições.

A Biblioteca Pública de Nova York "realmente vem pensando sobre como fazer as pessoas utilizarem esse material", continuou Cohen. "É um próximo passo que eu gostaria que mais instituições tivessem."

A maioria dos itens em domínio público já podia ser vista no portal de coleções digitais da biblioteca. A diferença é que os arquivos com maior qualidade agora estão disponíveis para download gratuito e imediato, junto com as interfaces de programação, conhecidas como APIs, que permitem que os desenvolvedores utilizem com mais facilidade.

Os usuários também terão acesso às informações da base de dados interna de direitos autorais da biblioteca, permitindo que saibam quais itens estão livres do que ela chama de "restrições conhecidas de direitos autorais dos Estados Unidos".

"Estamos tentando fazer isso para que os usuários possam não só ver as coisas, mas decidir se vão utilizá-las de outras formas", disse Greg Cram, diretor-associado de política de direitos autorais e informação da biblioteca.

O NYPL Labs, inaugurado em 2011, ficou conhecido por projetos experimentais que visam estimular os usuários a usar e adaptar informações. Um estudioso usou o projeto "O que tem no menu?", que convocou os usuários da biblioteca para transcrever a coleção de 45 mil cardápios de restaurantes de Nova York, para criar uma nova "curadoria de dados" da coleção. Um engenheiro do Google criou o aplicativo Google Cardboard para seu Stereogranimator, um programa projetado para imitar os efeitos 3D dos estereogramas antigos.

Os itens das coleções digitais também vêm sendo utilizados em projetos como o Urban Scratch-Off, um programa que permite que os usuários raspem uma foto aérea de Nova York, como numa raspadinha, para revelar fotos aéreas da cidade em 1924, e o Mapping Cholera, que acompanha a epidemia de 832 usando dados geográficos retirados de mapas da biblioteca.

O novo lançamento "reduzirá o conflito e tornará ainda mais fácil para as pessoas colocarem as mãos em materiais sem direitos autorais" pertencentes à biblioteca, disse Vershbow.

A biblioteca planeja oferecer o Remix Residencies, que fornecerá apoio financeiro para projetos que utilizem os materiais de domínio público. Os funcionários do NYPL Labs também passaram as semanas antes das festas de fim de ano criando projetos de demonstração rápidos e baratos que, como o Mansion Maniac, estão sendo divulgados junto com o material.

O Street View, Then & Now [Vista da Rua, Antes & Agora] permite que usuários perambulem para cima e para baixo na Quinta Avenida, comparando uma imagem atual de qualquer local dela no Google Streetview com fotos panorâmicas tiradas pelo fotógrafo Burton Welles em 1911, uma época em que grupos como o Comitê Salve Nova York já alertava para o tipo "errado" de desenvolvimento.

Em um tom menos nostálgico, o Navigating the Green Book [Navegando no Livro Verde] permite que os usuários criem uma rota de viagem usando o Livro Verde, um guia publicado de 1936 a 1966 que listava hotéis, restaurantes e outros estabelecimentos de todo o país que recebiam negros.

Se alguém quiser "extrair mais dados" dos guias e melhorar a iniciativa da equipe com o navegador digital, é só entrar em contato, disse Vershbow.

Frases como "extrair mais dados" podem soar mal para os ouvidos mais tradicionais. Mas Vershbow disse que o espírito da iniciativa não é nada novo.

"É a velha missão da biblioteca: pegar, levar e se apropriar", disse ele.

Tradutor: Eloise De Vylder

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