Para os republicanos, cresce temor de um racha que dure muito tempo

Patrick Healy e Jonathan Martin

  • Brian Snyder/Reuters

O Partido Republicano está enfrentando um racha histórico em torno de sua identidade e princípios fundamentais, à medida que seu establishment poderoso lida com uma erupção de tensões de classe, ressentimentos étnicos e desconfiança entre os conservadores de classe trabalhadora, que exigem um candidato presidencial que represente seus interesses.

Em jantares de família e festas de Ano-Novo, em teleconferências e em almoços privados, republicanos veteranos estão expressando um crescente temor de que a eleição deste ano possa despedaçar o partido, ou mudá-lo de formas que o deixem irreconhecível.

Apesar das facções beligerantes do partido geralmente se reconciliarem após disputas brutais pela indicação, esta corrida parece diferente, segundo entrevistas com mais de 50 líderes republicanos, ativistas, doadores e eleitores, tanto dos círculos de elite quanto das bases.

Nunca tantos eleitores foram atraídos por candidatos republicanos como Donald Trump e o senador Ted Cruz do Texas, que estão desafiando crenças centrais do partido a respeito da economia e da segurança nacional, e ameaçando novas metas como a conquista dos eleitores hispânicos por meio da reforma da imigração.

Conservadores comuns, após décadas de deferência às elites do partido, estão tentando promover uma espécie de golpe popular, ao escolherem um porta-bandeira que não é o candidato preferido dos doadores ricos e das autoridades eleitas.

E muitos desses líderes políticos tradicionais, por sua vez, estão profundamente desconfortáveis e são até mesmo hostis com Trump e Cruz: os dois não contam com o apoio de nenhum senador ou governador.

"Nunca vi uma divisão tão grande na minha carreira", disse o senador John McCain, o congressista republicano eleito pela primeira vez em 1982. "Provavelmente seria preciso voltar a Ford contra Reagan, em 1976. Mas mesmo naquela ocasião, eram apenas duas pessoas."

As questões que animam os eleitores das bases –oposição à imigração, preocupações com salários e desconforto com as mudanças demográficas nos Estados Unidos– estão divergindo e às vezes entrando em choque com os interesses do establishment republicano em livre comércio, impostos mais baixos, menos regulamentação e abertura à imigração.

O racha pode ajudar um democrata a chegar à Casa Branca caso os republicanos não encontrem uma forma de se unirem, como alertou um pré-candidato, o governador de Nova Jersey, Chris Christie, na semana passada.

A divisão estava evidente em um recente encontro de banqueiros e advogados em Greenville, Carolina do Sul, republicanos confiáveis que tomavam chá e compartilhavam suas crescentes ansiedades com o rumo de seu partido. Em uma sala de reunião perto das margens do Lago Furman, o grupo de homens brancos em grande parte mais velhos, expressava preocupação com o racha do partido em torno do livre comércio, imigração e Wall Street. E temiam a derrota de seus candidatos –conservadores tradicionais como Jeb Bush.

"É realmente difícil de acreditar que décadas de ideias republicanas estejam em risco", disse Barry Wynn, um proeminente doador de Bush, no encontro.

As tensões no republicanismo são provocadas por cenas como a de 1.500 pessoas, que aguardaram por cerca de duas horas sob -12ºC na noite de terça-feira, para ver a campanha de Trump em Claremont, New Hampshire. E as 700 que lotaram um centro estudantil em uma faculdade cristã de Iowa, na mesma noite, para ouvir Cruz. Essas multidões estavam repletas de conservadores trabalhadores que expressavam frustração com a elite republicana.

"O Partido Republicano nunca fez nada pelo homem trabalhador como eu, apesar de votarmos há anos em republicanos", disse Leo Martin, um maquinista de 62 anos de Newport, New Hampshire, que estava presente no comício de Trump em Claremont. "Esta eleição é a primeira na minha vida onde podemos mudar o que significa ser republicano."

Fúria e alienação fervem na base republicana desde o final do governo de George W. Bush, primeiro em torno das políticas e depois, de modo mais agudo, em torno de como o partido deve responder às mudanças demográficas do país. Enquanto líderes do partido como o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul, dizem que os republicanos estão em "um mergulho em parafuso mortal demográfico" e não sobreviverão a menos que passem a ter apelo junto aos hispânicos e jovens, muitos eleitores veem essas declarações como uma capitulação. Eles anseiam por um tipo de conservadorismo despudorado que confronte, em vez de concordar, com o establishment político –sentimentos que são amplificados por apresentadores de rádio conservadores como Rush Limbaugh e comentaristas como Ann Coulter, cujos ataques verbais influenciam a agenda do partido.

"Todas as coisas que os eleitores querem foram postas de lado pelos líderes republicanos", disse Laura Ingraham, uma apresentadora de talk show que foi uma força por trás da derrota eleitoral nas primárias de Eric Cantor, o então líder da maioria na Câmara, em 2014. "E agora os eleitores finalmente têm duas pessoas que estão dizendo que essa mesa precisa ser virada."

As divisões dentro do partido serão difíceis de ser resolvidas, independente de quem venha a ser o candidato. Se um candidato do establishment for escolhido, os eleitores fervorosos de Trump e Cruz podem se rebelar; cerca de dois terços dos eleitores de Trump votariam nele como candidato independente, segundo uma pesquisa do mês passado da Universidade de Suffolk e do jornal "USA Today" –uma possibilidade que ajudaria o candidato democrata. Se Cruz for indicado, ele terá que conquistar os líderes do partido sem parecer estar traindo seus simpatizantes anti-establishment. Uma pesquisa da emissora "Fox News" divulgada na sexta-feira apontou que 66% dos eleitores de Cruz em Iowa se sentem "traídos" pelos políticos de seu partido.

Se os líderes do partido apoiassem Trump, eles teriam que realizar campanhas em universos paralelos, apoiando um candidato que diz desejar deportar imigrantes ilegais em massa e proibir temporariamente a entrada de muçulmanos no país, tentando ao mesmo tempo diversificar sua base predominantemente branca e masculina. Os líderes republicanos no Congresso pediram na semana passada à governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley, filha de imigrantes indianos, que desse a resposta do partido ao discurso do Estado da União desta semana, e convidaram o rei Abdullah 2º da Jordânia, talvez o aliado mais estreito dos Estados Unidos no mundo árabe, para discursar em uma sessão conjunta do Congresso.

"Eu conheço republicanos que apoiarão Hillary caso Trump ou Cruz sejam indicados, sem dúvida", disse Dick Thornburgh, um secretário de Justiça no governo do primeiro presidente George Bush e ex-governador da Pensilvânia, falando de Hillary Clinton. "Trump dividiria o partido, em especial. Mas muitos engoliriam, ao não verem escolha."

O historiador presidencial Richard Norton Smith, que já escreveu biografias de alguns importantes republicanos do século 20, disse que a indicação de Trump representaria uma "tomada hostil" do partido, tornando mais difícil para os líderes do partido da velha guarda conterem as paixões da base mais radical e furiosa anti-imigrantes.

"Os nativistas não desaparecerão", disse Smith. "Eles podem até mesmo se tornar mais fervorosos."

Dave Conger, um vendedor de 60 anos que compareceu a um comício de campanha de Cruz na semana passada com um alfinete de lapela do candidato, disse que trabalhou para eleger tanto o presidente George W. Bush quanto seu pai, mas "foram ditas muitas coisas e nada aconteceu".

Ele acrescentou: "Desta vez, estou de fato ouvindo alguém que está me dizendo a verdade. Eles de fato entrarão lá e farão o que estão dizendo".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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