Falhas em programa de moradia frustram população na Argélia

Carlotta Gall

Em Argel (Argélia)

  • Andrew Testa/The New York Times

    O aposentado argelino Amar Kamiche não conseguiu até hoje uma casa do governo local, apesar de ter se inscrito em programa oficial de moradia ainda nos anos de 1970. Ele e a mulher criaram sete filhos em apartamento onde o banheiro fica na cozinha

    O aposentado argelino Amar Kamiche não conseguiu até hoje uma casa do governo local, apesar de ter se inscrito em programa oficial de moradia ainda nos anos de 1970. Ele e a mulher criaram sete filhos em apartamento onde o banheiro fica na cozinha

Havia um clima de festa quando as famílias se mudaram para seus novos apartamentos, uma cortesia do governo argelino, há um mês. Os gritos de felicidade das mulheres soavam dos balcões enquanto as crianças experimentavam os balanços sob uma grande faixa que dizia: "Nosso objetivo: Argel, uma capital sem favelas".

Mas as comemorações foram rapidamente seguidas de decepção, e até raiva. A construção era de má qualidade. Água escorria pelas paredes do corredor principal. E os apartamentos em Cité Kourifa eram muito pequenos para famílias que cresceram nos muitos anos desde que se inscreveram no programa habitacional do governo.

"Ontem à noite tive de dormir no carro", disse Ali Mehdad, 60, um motorista de táxi aposentado que tinha se mudado na véspera com sua família de oito pessoas, que inclui um neto. "Um filho meu tem 35 anos e não pode se casar, como vamos colocar mais gente aqui?"

O programa do governo, um dos mais ambiciosos da região, é a resposta da Argélia ao crescimento galopante da população, a rápida urbanização e uma crise habitacional que, segundo muitos, está na base de grande parte do desânimo que assola o país.

Os críticos, porém, dizem que a distribuição de moradias está criando tantos problemas quantos resolve, alimentando a corrupção, a violência e uma cultura de dependência, enquanto se ignoram as oportunidades de promover o crescimento fora do vasto setor petrolífero do país.

Até mesmo grande parte das obras, que tinham o objetivo de gerar empregos e diversificar a economia da Argélia, muito dependente do setor de petróleo, foi terceirizada para empresas chinesas. Recentemente, companhias turcas e egípcias também aderiram ao "boom" da construção.

O programa habitacional é de todo modo popular e tem procura acima de sua capacidade. Quase 70% dos 39 milhões de habitantes da Argélia hoje vivem em cidades ao longo do litoral norte, muitas vezes em favelas ou em edifícios dos anos 1950 superlotados, onde proliferam o crime e as drogas.

O programa do governo representa uma grande transferência da receita do petróleo para enfrentar as tensões que poderiam causar tumultos.

Blocos de apartamentos em tons pastel brotaram em quatro novas cidades e dezenas de subúrbios em todo o norte do país.

O governo construiu 2 milhões de moradias desde 2008 e pretende erguer o mesmo número até 2019, segundo um relatório oficial sobre habitação apresentado no ano passado. "O acesso à moradia decente sempre foi uma das prioridades do governo", afirma o relatório.

Apesar da substancial receita do petróleo e do gás, os salários dos argelinos caíram em termos reais desde os anos 1980, e uma casa pode custar até 12 vezes um salário anual, muito acima dos padrões mundiais, segundo relatório Habitat da ONU.

A falta de moradia tem forte peso na sociedade e atrasa o casamento de muitos jovens, segundo a Federação Internacional de Direitos Humanos em um relatório de 2011. "A superlotação, a falta de serviços públicos em novos assentamentos, a persistência das favelas geram um clima de insegurança, como afirmam muitos argelinos", registra o documento.

A Argélia é de fato uma sociedade especialmente volátil, sacudida por duas guerras brutais em 60 anos e que se arrasta sob um regime autoritário. Até a forma como as casas são distribuídas dificilmente seria considerada um programa social em muitos outros países.

Policiais antidistúrbios, armados com pistolas elétricas Taser, se apresentam em grande número toda vez que as listas de moradias são anunciadas e as relocações, efetuadas.

As famílias que se mudaram em dezembro último para os apartamentos de Cité Kourifa, um subúrbio a cerca de 30 km do centro de Argel, disseram que foram avisadas para preparar seus pertences na véspera e tiveram de deixar suas casas às 4h em uma favela do outro lado da cidade.

Só então lhes mostraram as listas de famílias que receberam apartamentos e lhes entregaram as chaves. Às 10h, escavadeiras chegaram para destruir a favela e impedir que outros ocupassem as casas. Cinco pessoas cujos nomes não estavam na lista ficaram sem teto, segundo ex-moradores.

Nabila Ounas foi uma das que comemoraram a mudança para Cité Kourifa no mês passado. "Estou tão feliz", disse ela, mostrando o apartamento. "Nós vivíamos em péssimas condições, cercados de cobras e escorpiões", explicou. "Eu perdi meu primeiro filho por causa das condições." Nascido prematuramente na favela, o bebê só viveu por uma hora, relatou a mãe.

Mas sua alegria era frágil. Ela começou a chorar ao narrar a confusão da mudança, como as escavadeiras destruíram a favela enquanto eles assistiam, e que um vizinho adolescente cortou a própria garganta quando soube que não tinha ganhado um apartamento.

"Seu nome não estava na lista e ele se suicidou", disse Ounas, enxugando o rosto. "Ele tinha 16 ou 17 anos, estava completamente perdido." O jovem, chamado Abdennour, vinha de uma família desfeita e escapou do recenseamento, disse ela.

O governo criou uma bomba-relógio ao distribuir os apartamentos, afirmou Rachid Tlemçani, um professor de ciência política na Universidade de Argel.

"Por que o governo não liberalizou a habitação?", perguntou. "Na Tunísia não há esse problema, porque eles tinham uma estratégia. Aqui você depende do Estado, que é muito autoritário e ao mesmo tempo corrupto."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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