Opinião: EUA devem admitir os limites do realismo em sua política externa

Roger Cohen

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

Stephen M. Walt, um professor de assuntos internacionais da Universidade de Harvard, fez uma ode eloquente ao realismo na revista "Foreign Policy". Ele argumenta que, tendo o realismo como alicerce de sua abordagem ao mundo ao longo do último quarto de século, os Estados Unidos teriam se saído muito melhor. Os realistas, ele nos recorda, "costumam ter uma visão pessimista dos assuntos internacionais e desconfiam de esforços para refazer o mundo de acordo com algum modelo ideológico".

O pessimismo é uma fonte útil de prudência tanto nos assuntos internacionais quanto pessoais. O texto de Walt oferece vários pontos razoáveis. Mas ele omite o maior conflito europeu do período sob consideração, as guerras da destruição da Iugoslávia, nas quais cerca de 140 mil pessoas foram mortas e milhões foram deslocadas.

Os realistas fizeram a festa com essa carnificina, começando pela avaliação inicial do ex-secretário de Estado James Baker de que "não temos um cão nessa briga". Essa posição foi acompanhada por várias avaliações interesseiras da Casa Branca de Bill Clinton, que justificavam a inação ao retratarem os Bálcãs como um local de rixas milenares, nem compreensíveis e nem que possam ser resolvidas.

É verdade, discernir um interesse nacional americano vital em lugares com nomes como Omarska não é óbvio, mesmo que isso ameace a paz europeia que os Estados Unidos se comprometeram a manter desde 1945. O argumento da "realpolitik" para a intervenção era frágil. Sarajevo não quebraria os Estados Unidos, muito menos do que Raqqa hoje.

Mas o argumento moral era esmagador, começando pelo uso sérvio em 1992 de campos de concentração para matar homens muçulmanos bósnios considerados ameaçadores, e a expulsão de mulheres e crianças muçulmanas. Esses métodos culminaram em Srebrenica em 1995, com o massacre sérvio de cerca de 8 mil habitantes do sexo masculino. No ínterim de três anos, enquanto os realistas racionalizavam restrição, o bombardeio sérvio a Sarajevo matava mulheres e crianças europeias por capricho. Apenas quando o presidente Clinton mudou de ideia e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) deu início a um bombardeio orquestrado é que um caminho se abriu para o fim da guerra.

Eu cobri esse conflito e sua solução. Para minha geração "baby-boomer" (pós-Segunda Guerra), poupada do repetitivo derramamento de sangue na Europa pelas forças armadas americanas e por determinação estratégica, foi uma experiência crucial. Depois disso, nenhum hino ao realismo puro e simples poderia ser persuasivo. Walt me considera um "internacionalista liberal"; eu aceito isso como uma medalha de honra.

Ele descreve a expansão da Otan para o leste, após o final da Guerra Fria, como "um exemplo digno de livro didático de combinação de arrogância e geopolítica ruim", que envenenou desnecessariamente as relações com a Rússia. Esse argumento é na verdade um exemplo digno de livro didático do cinismo e da pequenez inerentes no realismo.

Garantir a segurança como base para uma ordem liberal nas nações da Polônia à Estônia, que saíam do trauma do império soviético, representa um grande feito estratégico americano. (Baker foi fundamental para isso, prova de era mais do que um realista da escola de Walt.) Pergunte a qualquer polonês, lituano ou romeno se acham que os americanos erraram.

Os realistas tendem a ignorar o sofrimento humano; é simplesmente a forma como o mundo é. Centenas de milhões de pessoas na Europa foram conduzidas da miséria totalitária à decência democrática sob a proteção dos Estados Unidos e seus aliados. Uma dívida contraída na Conferência de Ialta foi paga. A paz e a segurança europeias foram estendidas, um interesse americano. Há pouca dúvida de que o presidente Vladimir Putin teria tomado pelo menos um dos países bálticos se estes não fossem membros da Otan.

Putin levou caos precisamente às terras de ninguém –Geórgia e Ucrânia– não às terras da Otan. O interesse da Rússia, pós-1990, era o desmembramento do elo europeu-americano, expressado de modo mais potente na Otan. Esse era o problema real.

Os Estados Unidos, quase sozinhos entre as nações, também são uma ideia. Remova das políticas americanas a noção da expansão global da liberdade e suas garantias e restará algo muito magro. Putin é um realista feroz e oportunista. Mas os americanos –a despeito de Donald Trump– não querem esse prato em suas mesas.

Eles não o querem em especial após o desastre sírio. Walt argumenta que os realistas teriam dissuadido o presidente Obama de dizer que o presidente Bashar al-Assad "deve partir" e de estabelecer uma "linha vermelha". Mas o problema não era o fato de dizer isso não ser realista. O problema foi a irresponsabilidade de não agir após ter dito isso.

A Síria ilustrou os limites do realismo da Casa Branca. O realismo ditava a não-intervenção enquanto centenas de milhares eram mortos, milhões eram deslocados e surgia o Estado Islâmico. O realismo está por trás da aquiescência à brutalidade das bombas de barril de Assad. Se o Iraque ilustrou a busca desastrosa americana de um "modelo ideológico", a Síria demonstrou o vácuo desastroso das ideias americanas.

O realismo é um ponto de partida essencial para a política externa americana. Ele esteve ausente no Iraque: o resultado foi um caos que, como Walt diz corretamente, custou vários trilhões de dólares aos Estados Unidos. O realismo resultou no acordo nuclear com o Irã, uma realização importante. Mais realismo poderia ter ajudado no conflito entre israelenses e palestinos.

Mas este é um momento de reconhecer os limites do realismo –como meio de lidar com o mal do Estado Islâmico, o conflito na Síria ou a desesperada crise dos refugiados na Europa– e não de exigir mais, ou sugerir que está sub-representado no discurso americano.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos