Os problemas domésticos do Qatar: prisões arbitrárias e apoio ao terrorismo

Mohamed Fahmy*

Em Vancouver (Canadá)

  • Fayez Nureldine/AFP

    O emir do Qatar, o xeque Tamim bin Hamad al-Thani

    O emir do Qatar, o xeque Tamim bin Hamad al-Thani

Os qatarianos que buscam mais liberdade de expressão e mais democracia na nação rica em petróleo podem ficar desapontados, ou talvez pior que isso. Numa ação que pode ser o presságio de uma repressão mais ampla contra a dissidência no Qatar, o xeque Fahad bin Abdullah al-Thani --primo do emir no que governa o país, xeque Tamim bin Hamad al-Thani-- foi condenado no mês passado a sete anos de prisão.

O xeque Fahad foi acusado de atirar em três policiais ao invadir uma delegacia na tentativa de libertar seus dois filhos, mas a versão do governo do Qatar não condiz com a de outras testemunhas. De acordo com membros da família e outras pessoas com as quais falei, foram as forças de segurança do Estado que invadiram, com veículos blindados, o palácio do xeque em Doha, capital do país, em janeiro passado. O xeque e seus filhos, dizem eles, foram espancados com violência durante o confronto.

Fahad tinha uma disputa antiga com o governo por causa da apropriação de parte das terras que herdou, de acordo com sua família. Mas ativistas de oposição também acreditam que a prisão foi uma retaliação pelas atividades políticas do xeque. De acordo com o advogado e defensor dos direitos humanos Najeeb al-Nauimi, que está em contato com a família, o xeque está na prisão em Doha.

"Seus dois filhos foram soltos, mas a prisão dele foi arbitrária", disse Nauimi.

Ex-ministro da Justiça que se tornou um crítico ferrenho do governo, Nauimi representa dezenas de qatarianos que sofreram com a repressão absoluta da monarquia contra as vozes da oposição. Um de seus clientes é o poeta Muhammad al-Ajami, que está cumprindo uma sentença de 15 anos, após um julgamento secreto em 2012, por "criticar o emir" num poema que elogiava a Primavera Árabe. Após o veredito, Nauimi disse: "nosso sistema judiciário não é confiável".

O Qatar tem a terceira maior reserva de gás natural e a maior renda per capita do mundo, mas a oposição sufocada do país é uma das mais fracas do Golfo Pérsico. Ativistas pró-democracia querem o fim da proibição aos partidos políticos e sindicatos. Em 2011, uma petição apresentada ao emir no poder, Hamad bin Khalifa al-Thani, destacou as demandas da oposição. Assinado por 19 qatarianos, entre eles o xeque Fahad, ela pedia uma série de reformas sociais, econômicas e democráticas.

Uma cláusula da petição critica a lei que permite que residentes estrangeiros, que compõem a maioria da população, sejam proprietários de terra. Os cidadãos qatarianos agora representam apenas 12% da população de 2,2 milhões de habitantes do país; essa proporção, diz a petição, poderá cair para 1% em dez anos. Os qatarianos acreditam que permitir que os estrangeiros comprem terras resultaria no aumento dos preços imobiliários e na crescente marginalização econômica dos cidadãos nativos.

Outra cláusula acusa o emir de gastar milhões de dólares em projetos no exterior, ignorando o bem-estar dos seus próprios cidadãos.

O Qatar dedicou centenas de milhões, por exemplo, a pagar os salários dos funcionários do Hamas em Gaza.

Não é nenhum segredo que o Qatar vem apoiando financeira e politicamente a Irmandade Muçulmana, que foi considerada um grupo terrorista pelo Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Desde 2012, o Qatar forneceu cerca de US$ 8 bilhões (R$ 32 bilhões) para apoiar o governo do presidente Mohamed Morsi, da Irmandade, antes da derrubada dele em julho de 2013.

Em dezembro do mesmo ano, as autoridades egípcias prenderam a mim e mais dois colegas jornalistas na redação do serviço em inglês da Al Jazeera, no Cairo. Acabei sendo perdoado, mas só depois de passar 438 dias na prisão por acusações infundadas de conspirar contra a Irmandade. Fomos vítimas de uma repressão contra a imprensa por parte do governo egípcio. Mas também foram vítimas da política do Qatar de usar o braço árabe da rede Al Jazeera para apoiar a Irmandade contra os governantes do Egito, que transformou a mim e meus dois colegas em peões no xadrez geopolítico de Doha. (Estou processando a Al Jazeera por causa de sua conduta.)

O apoio do Qatar a grupos rebeldes islâmicos sírios como o Ahrar al-Sham e a Frente Al Nusra repercutiu de forma embaraçosa. Um diplomata ocidental entrevistado pelo "Daily Telegraph" disse: "existem de oito a 12 figuras no Qatar levantando milhões de libras para os jihadistas". Grande parte deste financiamento foi para a frente Nusra, que é uma filial da Al Qaeda, embora no ano passado a Al Jazeera tenha instruído seus jornalistas a não a descreverem dessa forma.

O relatório "Qatar e o Financiamento do Terrorismo", publicado em 2014 pela Fundação para a Defesa das Democracias com sede em Washington, expôs a atitude permissiva do país em relação aos qatarianos responsáveis pelo financiamento. A participação da Qatar em coalizões militares regionais contra o terrorismo está em flagrante contradição com seu apoio aos grupos jihadistas.

A oposição do Qatar no exílio é chefiada por Khalid al-Hail, um empresário de mentalidade reformista que mora em Londres. Em 2010, ele ajudou a criar o movimento de Resgate da Juventude do Qatar, que reúne centenas de reformistas no Qatar e no exterior; ele agora vai fundar um Partido Democrático do Qatar em Londres, segundo me disse. Hail contou que foi preso pelo regime do Qatar em 2010 e 2014 e que foi espancado, privado do sono e eletrocutado na sede da agência de segurança estatal.

"Não queremos derrubar a família real", ele me disse em Londres no ano passado. "Só estamos pedindo uma monarquia constitucional na qual a legislação fique a cargo de um Parlamento eleito, e não do emir."

Em vez de o Qatar gastar milhões de dólares com uma série de empresas de relações públicas no Ocidente, há uma maneira simples de o emirado melhorar sua imagem internacional e dissipar as preocupações quanto ao apoio ao terrorismo e ao seu parco histórico de direitos humanos: o país deve libertar Ajami, autor do poema "Tunisian Jasmine", e o xeque Fahad da prisão.

*Mohamed Fahmy, jornalista egípcio-canadense que foi chefe de redação da Al Jazeera em Inglês no Cairo, é o autor de "Bagdad Bound: An Interpreter's Chronicles of the Iraq War".

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