Hillary no reino dos cães e gatos

Maureen Dowd

Em Washington (EUA)

  • Saul Loeb/AFP

    Após concorrer como homem da última vez, Hillary agora está concorrendo como mulher

    Após concorrer como homem da última vez, Hillary agora está concorrendo como mulher

Matthew Dowd, o ex-estrategista de George W. Bush que se tornou independente, diz que Hillary fez tudo ao contrário: ela deveria ter concorrido como mulher em 2008, quando enfrentava um candidato antiguerra feminizado. E deveria concorrer como homem desta vez, quando os americanos se sentem sitiados e assustados, ansiando por algo "grande, masculino e forte", como colocou Dowd.

Apesar da escassez ensurdecedora de empolgação entre as mulheres mais jovens, Hillary se apresenta como a Vovó Inovadora.

Ela está fazendo campanha como Lena Dunham, Katy Perry e Demi Lovato e está vendendo camisetas de terninho em seu site. E apareceu na semana passada no canal Lifetime dividindo um sofá branco com Amanda de Cadenet, que é apresentadora de um programa aconchegante de bate-papo com mulheres. Hillary contou sobre a aflição na infância ao lhe ser dito pelos meninos em seu bairro que ela não podia brincar com eles por ser uma menina.

Ela disse a Rachel Maddow que não descartaria uma chapa de puro estrogênio e poderia escolher uma vice do sexo feminino.

Um grupo de mulheres no Senado – a maioria das quais trocou Hillary por Barack Obama em 2008 – compareceu a Iowa na sexta-feira em espírito de irmandade.

"Há este elemento de mulheres chegando aonde estão por trabalhar mais arduamente e ser responsáveis", me disse a senadora Amy Klobuchar, de Minnesota, às vésperas da visita. "No momento, os americanos estão exigindo políticos responsáveis, porque estão cansados de toda a porcaria que está acontecendo."

E Hillary disse ao repórter da Time Jay Newton-Small, para um novo livro:"Broad Influence: How Women Are Changing the Way America Works" (Ampla influência: Como as mulheres estão mudando a forma como a América funciona), que ela governaria de forma diferente na condição de primeira mulher presidente.

"Eu acho que, em geral, as mulheres são melhores ouvintes, compartilham melhor as responsabilidades, são mais abertas a novas ideias e sobre como fazer as coisas funcionarem de uma forma a buscar resultados de ganho mútuo", disse Hillary.

É claro, se ela tivesse sido uma melhor ouvinte em sua iniciativa de atendimento de saúde e na invasão ao Iraque, essas duas questões não a perseguiriam.

Sempre soa agradável dizer que as mulheres compartilham mais responsabilidades, têm mais empatia e que ajudam mais outras mulheres, assim como veem o quadro maior mais claramente, e às vezes é verdade. Mas às vezes não – especialmente considerando mulheres-alfa duronas que tentam quebrar as barreiras de gênero.

Veja o desastre de Carly Fiorina na Hewlett-Packard.

Como não dá para saber se uma mulher tentará compensar em excesso o machismo – como Hillary fez com a injustificada invasão ao Iraque – nós poderemos querer olhar para isso de modo diferente.

Pode ser mais relevante perguntar se alguém é um gato ou cachorro.

O felino Barack Obama iniciou seu reino indiferente, desejando espreitar sozinho no palco, e o terminou da mesma forma. Seu discurso do Estado da União foi um exercício de desprezo aos nocivos republicanos obstrucionistas, e repreendendo os americanos – que passaram de fortes e silenciosos a fracos e tagarelas – para crescerem em relação ao Estado Islâmico e pararem de agir como se a Terceira Guerra Mundial tivesse começado.

O hiper-racional Obama, que desdenha a emoção fácil na política, teve dificuldade em oferecer conforto ou entender o sentimento popular em momentos em que as pessoas não se sentem seguras, do homem com bomba na cueca no Natal ao vazamento de petróleo da BP e a ascensão do Estado Islâmico.

Juliette Kayyem, sua ex-secretária-assistente de Segurança Interna, disse que é importante tentar tranquilizar as pessoas ao explicar calmamente o que está sendo feito para protegê-las.

A autora de "Security Mom" (Mamãe segurança, em tradução livre), alertou os senadores democratas a levarem a preocupação dos americanos a sério quando falou no encontro dos senadores no Nationals Park na semana passada.

"Caso contrário", ela disse, "a paranoia republicana, a loucura e histeria do 'São os muçulmanos' e 'Vamos mantê-los de fora' preencherá o vácuo".

Ela citou um recente artigo do Wall Street Journal sugerindo que os republicanos podem receber um reforço das "mamães seguranças", mulheres que passaram a votar no Partido Republicano depois do 11 de Setembro e que estão nervosas de novo após a série de ataques do Estado Islâmico. O artigo apontou que apenas 35% das mulheres em uma pesquisa CNN/ORC International, realizada em dezembro, aprovavam o desempenho do presidente em relação ao terrorismo, em comparação a 64% que desaprovavam.

Você pode dizer que medo do Estado Islâmico é exagerado e irracional, como sugeriu Obama aos colunistas na Casa Branca e em seu discurso do Estado da União, mas essa é uma abordagem errada, disse Kayyem.

"Você pode dizer que alguém tem uma maior probabilidade de morrer neste fim de semana de acidente de carro do que por um ataque terrorista", ela disse. "Mas as pessoas estão sentindo isso e você não pode ignorar esse temor."

George W. Bush era mais impetuoso e Obama é mais cabeça, de modo que agora Donald Trump está subindo ao ser o oposto de Obama, sendo impetuoso de novo.

Tanto Hillary quanto Trump enfatizam que conversarão mais com os legisladores e outros que discordem deles, prometendo ser cães com um osso, caninos ansiosos que oferecem as patas, não o gato frio que se afasta ao primeiro sinal de dificuldade ou quando afeição é mais desejada.

"É preciso desenvolver esses relacionamentos e procurar constantemente por um meio-termo, independente de quão pequena seja a fração", disse Hillary ao jornal The Des Moines Register na segunda-feira.

Em um encontro em Iowa na sexta-feira, Trump deixou claro que não desprezaria negociatas como Obama.

"Você os leva para uma sala e diz: 'Façam'", disse Trump sobre trabalhar dentro de um orçamento com o Congresso. "Obama não leva ninguém para uma sala. Ele tentou, eu acho, e fracassou. (...) Então ele assina ordens executivas e depois todo mundo processa, e as coisas não podem ser feitas dessa forma."

"É preciso persuadir e adular as pessoas!", exclamou Trump.

Você já viu um gato adular alguém?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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