Por que 2016 será diferente de outros anos eleitorais recentes nos EUA?

David Leonhardt

  • Robyn Beck/AFP

    Donald Trump e Ted Cruz em debate republicano

    Donald Trump e Ted Cruz em debate republicano

As primárias republicanas de 2016 começaram como muitas outras campanhas presidenciais republicanas, com alguns poucos nomes inesperados à frente nas pesquisas. Em ciclos recentes, os nomes incluíam Herman Cain, Rick Santorum e Pat Buchanan. Neste ano, temos Donald Trump, Ted Cruz e Ben Carson.

O que torna 2016 diferente é o fato de os nomes inesperados permanecerem à frente nas pesquisas.

Pelos últimos cinco meses, Trump, Cruz e Carson possuem somados mais de 50% da preferência dos eleitores republicanos nas pesquisas nacionais. E apenas para acrescentar: Trump e Carson nunca ocuparam um cargo eletivo, enquanto Cruz é odiado por muitos de seus colegas senadores republicanos. Todos os três contam regularmente inverdades em suas campanhas.

Em comparação, os líderes nas pesquisas nas últimas semanas antes do início da votação nas últimas três campanhas republicanas muito disputadas –2012, 2008 e 2000– eram em sua maioria políticos tradicionais: Mitt Romney e Newt Gingrich em 2012; John McCain e Mike Huckabee em 2008; George W. Bush em 2000.

De uma forma ou de outras, 2016 será diferente. Ou o candidato terá um estilo radicalmente diferente de qualquer antecessor recente, ou uma figura do establishment, como Marco Rubio, conseguirá uma reviravolta muito maior do que qualquer pré-candidato republicano recente já conseguiu.

Por que isso aconteceu? Sem dúvida, há mais do que uma resposta. A fraqueza surpreendente de Jeb Bush e Scott Walker, antes favoritos, é parte dela. A celebridade de Trump e suas habilidades de "entertainer" também contribuem, assim como o sucesso de Cruz em conquistar parte dos doadores conservadores.

Mas a causa principal, no meu entender, é a mentalidade do eleitorado republicano. Ele está mais furioso e mais desencantado do se vê há anos. Bolsões dessa fúria há muito existem. Os conservadores desencantados ajudaram Santorum a vencer a primária de Iowa há quatro anos, por exemplo, e Pat Buchanan a vencer em New Hampshire em 1996. No final, entretanto, venceu um grupo diferente de eleitores conservadores –aqueles satisfeitos com o establishment republicano.

O establishment ainda pode prevalecer neste ano. Rubio e Chris Christie estão brigando muito ultimamente, pois ambos estão tentando sair de Iowa e New Hampshire como sendo a alternativa do establishment. Um deles (ou Bush, se ele puder de alguma forma revigorar sua campanha) ainda tem uma chance de consolidar partes do partido que rejeitam Cruz e Trump. Se esse esforço for bem-sucedido, 2016 acabará parecendo menos incomum do que parece no momento.

Mas a alternativa –a de que o establishment republicano sofra sua pior derrota na campanha das primárias presidenciais desde a vitória de Barry Goldwater em 1964– é uma possibilidade real. Poucos analistas políticos ou jornalistas previram isso.

Para entender o que aconteceu, eu pedi aos analistas do Centro Pew de Pesquisas para que estudassem suas há muito realizadas pesquisas sobre o humor do país e separassem os números referentes àqueles que se identificam como sendo republicanos. Os números em geral não mostram mudanças acentuadas nos últimos anos. O que eles mostram é um eleitorado que está, de modo constante, se tornando mais radicalizado ao longo da última década.

O desencanto teve início durante o final da presidência de George W. Bush, acelerou durante a crise financeira e chegou a um novo pico durante o muito ativo primeiro mandato do presidente Barack Obama. Segundo algumas medições, o descontentamento se manteve nesse pico, segundo outras, se encontra ainda mais elevado hoje.

Considere isto: quando o Pew pergunta às pessoas se confiam que o governo em Washington fará a coisa certa, ele oferece três respostas possíveis: quase sempre, na maioria das vezes, apenas algumas vezes. Na pesquisa mais recente, 18% dos republicanos ignoraram as três respostas e voluntariamente responderam "nunca". Isso representou um aumento em comparação aos 8% que fizeram o mesmo quatro anos antes.

De modo semelhante, 33% dos republicanos disseram estar enfurecidos com o governo federal (em vez de frustrados ou basicamente contentes), em comparação a 27% quatro anos antes. Apenas 12% dos republicanos disseram estar satisfeitos com a direção do país –número praticamente inalterado desde 2012  e uma queda em comparação aos 18% que deram essa resposta em outubro de 2008, no auge da crise financeira. Esses padrões sugerem que um candidato como Trump ou Cruz poderia surgir no ciclo de 2012, mas provavelmente não antes.

As raízes da fúria têm duas causas gerais: uma econômica, uma cultural. A causa econômica é a grande desaceleração salarial do século 21. Uma família típica ganha apenas marginalmente mais dinheiro do que no ano 2000, devido à crise financeira e ao aumento salarial decepcionante em ambos os lados da crise. Historicamente, nada gera mais frustração política de forma tão certa quanto a estagnação econômica.

Para muitos eleitores republicanos, esse mal-estar econômico é agravado pela mudança cultural. O casamento de mesma sexo agora é a lei vigente. O percentual de americanos que se identificam como cristãos está caindo. Apenas cerca da metade dos bebês nascidos no ano passado é branca não-latina –enquanto 9 entre 10 republicanos são brancos não-latinos. Um afro-americano liberal foi eleito presidente, duas vezes.

É preciso que fique claro que muitos republicanos estão frustrados, sem serem racialmente preconceituosos. Mas há evidência abundante –a partir das pesquisas e análise do comportamento na internet– de que posturas raciais exercem um papel significativo na política atual.

Uma explicação especialmente reveladora sobre a campanha de 2016 vem de uma pergunta da pesquisa Pew sobre a postura dos republicanos em relação ao seu próprio partido. Em mais de duas décadas de levantamento pelo Pew da mesma pergunta, o descontentamento dos republicanos com seu partido durante a presidência de Obama ultrapassou qualquer nível anterior já registrado de descontentamento com o próprio partido, seja entre democratas ou republicanos.

Cerca da metade dos republicanos desaprovou os líderes do partido no Congresso na maioria das pesquisas desde 2013. Em comparação, apenas cerca de 20% tendia a desaprová-los durante a presidência de Bush.

Logo, não é de se estranhar que os candidatos que soam tão furiosos estejam se saindo tão bem neste ano. O tempo até o início de fato da votação –daqui a duas semanas– ainda permite à campanha o potencial de um retorno à normalidade histórica. Mas o eleitorado republicano está substancialmente diferente de como costumava ser, o que significa que o resultado também pode vir a ser.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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