Carne de porco em escolas vira peça de debate sobre refugiados na Dinamarca

Dan Bilefsky*

Em Londres (Reino Unido)

  • Divulgação

Ela está sendo chamada de "guerra da almôndega".

Para ser exato, almôndegas e outros pratos feitos com carne de porco, como lombo assado, tornaram-se as últimas armas nas guerras culturais que se desenrolam na Europa por causa da imigração, depois que uma cidade da Dinamarca votou esta semana que creches e jardins de infância públicos devem incluir carne suína em seus cardápios no almoço.

A Dinamarca, conhecida como um Estado assistencialista generoso e pelo bairro libertário e amigo da maconha de Christiana, em Copenhague, vem reprimindo a imigração nos últimos meses, enquanto países de todo o continente enfrentam um influxo que obriga muitos a reavaliarem sua posição diante dos solicitantes de asilo.

Os defensores da proposta, que foi aprovada no final da segunda-feira (18) pela Câmara de Vereadores de Randers, uma antiga cidade industrial com cerca de 60 mil habitantes no centro da Dinamarca, disseram que servir comida dinamarquesa tradicional como carne de porco é essencial para ajudar a preservar a identidade nacional.

Os críticos dessa exigência, que incluem membros da população muçulmana e defensores da migração, disseram que ela efetivamente cria um problema que não existia, com o objetivo de estigmatizar os muçulmanos. Nunca houve uma tentativa de proibir a carne suína no cardápio das escolas de Randers, disseram eles, descrevendo essa iniciativa como uma tentativa mal velada de polarizar e atacar os muçulmanos.

A "cultura alimentar dinamarquesa" deve ser "uma parte central da oferta --inclusive servir carne de porco na mesma medida que outros alimentos", diz a proposta, acrescentando que sua intenção não foi obrigar ninguém a comer algo que "contrarie sua crença ou religião". A carne suína é proibida pelas leis religiosas tanto de muçulmanos como de judeus.

Mas Martin Henriksen, um porta-voz do Partido do Povo Dinamarquês, uma organização de direita e contra os imigrantes que apoiou a medida, declarou em sua página no Facebook que ela é necessária para reforçar a cultura dinamarquesa diante das potenciais ameaças do islamismo.

"É inaceitável proibir a cultura alimentar dinamarquesa, incluindo pratos com carne de porco, nas instituições que cuidam de crianças. O que virá depois?", escreveu ele. "O Partido do Povo Dinamarquês está trabalhando nos níveis nacional e local pela cultura dinamarquesa, incluindo a cultura alimentar, e isso significa que também estamos lutando contra as regras islâmicas e considerações enganosas que ditam o que as crianças dinamarquesas devem comer."

A decisão sobre o cardápio ocorre no momento em que a Dinamarca deverá aprovar uma lei que obrigaria os refugiados a entregar seu bens de valor, incluindo joias, para ajudar a pagar por sua hospedagem, medida que irritou grupos de direitos humanos e atraiu críticas da ONU.

O primeiro-ministro Lars Lokke Rasmussen também advertiu que o tratado da ONU de 1951 que rege os direitos dos refugiados talvez precise ser revisto. E este mês, depois que a Suécia adotou verificações de identidade para os viajantes que chegam da Dinamarca, os dinamarqueses fizeram o mesmo na fronteira com a Alemanha.

Na Dinamarca, um pequeno país escandinavo onde a agricultura é uma parte importante da identidade nacional e a carne suína, um alimento popular, alguns comentaristas disseram que não é de surpreender que o onipresente porco tenha se tornado um ponto de discórdia. Em 2014, a carne de porco crocante com molho de salsinha foi declarada o prato nacional. O país também está entre os maiores exportadores mundiais desse produto, segundo o Conselho de Agricultura e Alimentação da Dinamarca.

Ayse Dudu Tepe, uma arqueóloga e apresentadora de rádio filha de turcos que nasceu na Dinamarca, notou com certa acidez que ela podia entender os que se agitam em nome dos porcos.

"Em um país que tem mais porcos que humanos", escreveu ela em sua página no Facebook, "faz muito sentido que um partido político fale em nome dos porcos."

Charlotte Molbaek, membro do Partido Socialista do Povo na câmara de Randers, disse que a proposta tem motivação política. O Partido do Povo Dinamarquês tornou-se uma potencial força política, em parte por atacar a imigração e assumir o papel de protetor dos valores tradicionais da nação.

"De que as crianças precisam? Precisam de carne de porco? Na verdade não. Mas o Partido do Povo Dinamarquês precisa", teria dito ela, segundo o jornal diário "Politiken", durante um debate sobre a medida. "As crianças precisam de adultos."

A Dinamarca não é o único país que vê a cultura, incluindo a alimentação, como um baluarte de proteção da identidade nacional. Na França, país obcecado por comida, onde os pedidos para que se protejam os valores liberais seculares tornaram-se ainda mais urgentes depois de dois atentados por terroristas islâmicos, a carne de porco se tornou uma questão às vezes emocional em debates sobre a integração.

Várias cidades administradas por prefeitos de direita tentaram remover as opções não suínas dos refeitórios escolares, em uma tentativa declarada de preservar a identidade francesa, enquanto membros das populações muçulmana e judaica protestavam que tais políticas podem alienar as minorias.

Em Chalon-sur-Saône, na região da Borgonha, alunos da escola elementar que não comem porco têm de se contentar com legumes, depois que a câmara local votou em setembro uma medida para deixar de oferecer substitutos como peixe em seus cardápios nos dias em que se serve porco.

As escolas da Europa são cada vez mais analisadas por seu papel essencial na promoção da integração, e na quarta-feira (20) soube-se no Reino Unido que um menino muçulmano de 10 anos foi interrogado pela polícia em dezembro depois que se enganou e escreveu em uma lição de inglês que morava em uma "casa terrorista". O menino, de Lancashire, no noroeste da Inglaterra, pretendia escrever "casa com terraço", relatou a BBC.

Mas na Dinamarca é a comida nas escolas que provocou o último debate.

Fatma Cetinkaya, membro dos democratas sociais na câmara de Randers, chamou a medida de "incompreensível".

"Randers sempre esteve na vanguarda no que se refere à integração", citou-a o jornal "Politiken". "Não temos problemas com o crime e muitas outras coisas, por isso é incompreensível que a carne de porco tenha se transformado em um problema. É uma vergonha." Mas ela foi filosófica. "Como muçulmano, você adquire resistência", disse.

*Aurelien Breeden colaborou na reportagem, de Paris. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos