Memorial aos "indesejáveis" na França reflete debate sobre imigrantes

Aurelien Breeden*

Em Rivesaltes (França)

  • Dmitry Kostyukov/The New York Times

    Visitantes dentro do memorial no antigo campo de internamento de Rivesaltes

    Visitantes dentro do memorial no antigo campo de internamento de Rivesaltes

Os barracões, com telhados desabados e paredes em ruínas, enegrecidas pela umidade e pintadas com grafites, erguem-se em um silêncio fantasmagórico, só interrompido pelo rumor distante de carros.

Nesta extensa planície na região de Perpignan, sudoeste da França, perto da fronteira com a Espanha, as ruínas esqueléticas são tudo o que restou do campo de internamento de Rivesaltes, onde durante décadas ondas sucessivas de refugiados e outros perseguidos em guerras foram detidos pelo Estado francês.

Os antigos pavilhões parecem um guia das tragédias de meados do século 20: espanhóis deslocados pela guerra civil no final dos anos 1930; judeus e ciganos fugindo do regime nazista na Segunda Guerra Mundial; argelinos que escaparam de seu país depois de lutar ao lado da França durante a amarga guerra de descolonização nos anos 1960.

Mas durante anos a história de Rivesaltes não foi bem conhecida, e só depois de um escândalo --a descoberta dos arquivos originais do campo em um depósito de lixo próximo em 1997-- foi possível reavivá-la na consciência pública.

Desde então o lugar foi transformado em um memorial, inaugurado em outubro passado, numa época em que os capítulos mais sombrios da história francesa ecoam nas dificuldades das centenas de milhares de buscadores de asilo que migraram para a Europa no último ano.

Ao inaugurar o memorial, o primeiro-ministro Manuel Valls, filho de um imigrante catalão, disse que agora o lugar "dirá em alto e bom som o que por muito tempo foi apenas sussurrado" sobre o duro tratamento dado pela França aos desesperados e desalojados.

Mas, se a França finalmente decidiu lembrar os milhares que penaram em Rivesaltes, seu debate contemporâneo sobre se e como adotar os migrantes atuais mostra o quanto essa história permanece sem solução.

De fato, este memorial provoca comparações deliberadas e desconfortáveis entre o passado da França e sua situação hoje, em lugares como a cidade de Calais, no norte, onde milhares de migrantes vivem em uma favela semidefinitiva conhecida como "a Selva".

Parte do campo de Rivesaltes foi usada há pouco tempo, entre 1986 e 2007, como centro de detenção temporário para migrantes sem documentos que aguardavam a deportação para seus países de origem.

"Isso não quer dizer que o sírio de hoje seja o judeu de ontem", disse Denis Peschanski, um historiador francês que escreveu sobre os campos de internamento e que dirige o comitê científico do memorial.

Mas ele notou que há uma necessidade semelhante na França e no resto da Europa de manter os refugiados do lado de fora ou, se for impossível, à distância.

"Somos confrontados por populações que estão ameaçadas pela morte e que poderão morrer se nada for feito", disse ele, referindo-se aos deslocados pelos atuais conflitos no Oriente Médio e em outro lugares. "Foi o caso dos judeus ontem; é o caso dos sírios hoje."

Os barracões arruinados foram preservados aqui, mas o prédio do memorial em si é uma laje de concreto ocre que ocupa a extensão de uma trincheira gigante no meio do campo.

Desenhado pelo arquiteto francês Rudy Ricciotto, ele ocupa mais de 240 metros de comprimento e 18 de largura, com uma ligeira inclinação para cima que não supera a altura dos barracões, como um artefato colossal que tivesse sido escavado recentemente.

Os militares franceses construíram o campo em 1939 perto de Rivesaltes, uma pequena cidade ao norte de Perpignan. Só uma pequena parte do campo de 600 hectares é usada pelo memorial; a área restante ainda é propriedade dos militares e usada por eles.

Depois da derrota contra a Alemanha nazista em 1940, o governo francês, instalado na cidade balneária de Vichy, rapidamente redestinou Rivesaltes como um campo de internação para os que considerava "indesejáveis": judeus, estrangeiros, comunistas, maçons, ciganos.

Entre janeiro de 1941 e novembro de 1942, 17.500 pessoas de 16 nacionalidades diferentes passaram pelo campo. Algumas eram francesas, incluindo 1.300 ciganos, principalmente habitantes da Alsácia-Lorena que foram expulsos da região invadida pela Alemanha.

Mas muitos eram estrangeiros, entre eles milhares de espanhóis que haviam fugido da guerra civil em 1939. O governo francês não tinha condições de lidar com esse influxo de 470 mil refugiados e colocou muitos deles em campos improvisados nas praias do Mediterrâneo.

O campo é uma lembrança desoladora da colaboração do governo de Vichy com a Alemanha nazista. Foi chamado de "Drancy da zona livre" por Serge Klarsfeld, o francês caçador de nazistas, em referência à cidade perto de Paris que foi um importante local de trânsito para os judeus que eram enviados aos campos da morte. Mais de 2.200 judeus dos 7.000 que estiveram internados em Rivesaltes foram enviados a esses campos.

Rivesaltes foi evacuado e transformado em quartel militar da Alemanha quando o país invadiu a zona livre em 1942, e depois parcialmente usado como prisão para soldados alemães e colaboradores franceses quando a França o recuperou.

A guerra de independência da Argélia deu início a uma nova fase para o campo. As tropas francesas que se preparavam para atravessar o Mediterrâneo passavam por Rivesaltes, e combatentes nacionalistas argelinos foram detidos aqui.

Quando a França desistiu da guerra, milhares de argelinos que lutaram do lado francês, conhecidos como "harkis", fugiram para a França para escapar da perseguição e dos massacres na Argélia pelos que os consideravam traidores.

O governo francês, que não estava disposto nem inclinado a facilitar sua chegada, rapidamente os espalhou por campos na França, incluindo Rivesaltes, para onde quase 20 mil harkis foram levados de 1962 a 1964.

"A história dos harkis não é a mesma dos espanhóis, ou dos judeus, ou dos ciganos", disse Thomas Fontaine, um historiador que trabalhou no memorial. "Mas, ao reunir todos, quisemos mostrar que fazem parte dessa história de campos e deslocamentos forçados."

Por mais diversificada que fosse a população do campo ao longo dos anos, as condições de vida eram consistentemente deploráveis, especialmente sob o governo de Vichy, e chegaram a atrair a atenção da mídia americana.

Durante a Segunda Guerra Mundial, faltava comida, carvão e remédios, levando a altos índices de mortalidade entre idosos e jovens. Instituições beneficentes e outras organizações não governamentais como a Cruz Vermelha ou a Associação Cristã de Moços puderam melhorar as condições e salvar milhares de crianças judias, disse Fontaine. Mas isso teve um preço.

"Foi vital que elas estivessem lá, ou as condições de detenção teriam sido trágicas, mas ao fazê-lo elas permitiram que o sistema continuasse", disse Fontaine. Esse enigma é enfrentado, embora em grau menor, pelas organizações humanitárias que trabalham em campos de refugiados como o de Calais.

Agnès Sajaloli, diretora do memorial, reconheceu que para a França o campo representa uma "memória vergonhosa" que é difícil de reavaliar.

Mas havia necessidade de um exame minucioso da história, para que não se repita. É por isso que, segundo Sajaloli, toda uma parte da exposição permanente é dedicada aos campos de refugiados dos séculos 20 e 21.

"Toda a história do campo de Rivesaltes e das memórias ligadas a ele são úteis para se analisar e compreender o mundo de hoje e o de amanhã", disse ela. (*Colaborou na reportagem Elian Peltier, de Paris)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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