Ataque do Taleban mostra a limitação da repressão militar do Paquistão

Declan Walsh

No Cairo (Egito)

  • Mohammad Sajjad/AP

    14.dez.2015 - Jovem paquistanesa participa de vigília em memória dos estudantes mortos em ataque do Taleban a uma escola pública de Peshawar em dezembro de 2014

    14.dez.2015 - Jovem paquistanesa participa de vigília em memória dos estudantes mortos em ataque do Taleban a uma escola pública de Peshawar em dezembro de 2014

Há apenas alguns meses, os líderes militares paquistaneses se gabavam abertamente de terem colocado o Taleban para fugir. Uma dura ofensiva de um ano tinha expulsado os insurgentes do seu santuário tribal mais valorizado. Várias facções do movimento foram dilaceradas por rivalidades violentas, e os ataques contra vilas e cidades do Paquistão em grande parte tinham cessado.

Então, na quarta-feira (20), quatro homens armados do Taleban executaram um ataque mortal contra uma universidade na cidade de Charsadda, no noroeste, matando 21 pessoas. O ataque lembrou um massacre ocorrido há mais de um ano, quando o Taleban matou 150 pessoas em uma escola em Peshawar, que provocou a repressão militar. Na quinta-feira, a frustração e a preocupação eram crescentes em todo o país.

"Devemos nos perguntar quanto tempo podemos continuar a viver assim", disse o editorial do "The News", um jornal em língua inglesa. "Adotamos a retórica de 'lutar' a todo custo. Mas temos alguma garantia de eventual sucesso?"

Parte da resposta está na resistência do Taleban, mesmo dividido e em fuga, e mais amplamente nas dificuldades colocadas por guerrilhas na região.

Os militares paquistaneses gozam de uma autoridade impensável em muitos países. Eles despejaram centenas de milhares de civis das áreas tribais enquanto caçavam militantes e criaram o seu próprio sistema judicial, que permite o rápido enforcamento de suspeitos de terrorismo, tudo com aclamação pública no ano passado.

Mas, para reiniciar o ciclo de medo, basta um comandante determinado, alguns atacantes com disposição e uma lista de alvos acessíveis, itens disponíveis para as diferentes facções do Taleban paquistanês, além da experiência para montar tais ataques.

Outro fator importante dificultando a luta do Paquistão contra o Taleban é o mesmo que tem atormentado líderes afegãos há décadas: a incapacidade de negociar um acordo de paz entre os dois países de forma a impedir que os militantes usem suas fronteiras porosas para desestabilizar um ao outro.

"É uma loucura acreditar que nós podemos ter paz no Paquistão com um Afeganistão desestabilizado", disse Michael Semple, especialista em militância do Instituto de Estudos de Transformação de Conflitos e Justiça Social da Queen's University Belfast.

Certamente, o Taleban paquistanês já não é aquela força unida de antes, quando o movimento era comandado a partir dos picos nevados do cinturão tribal do Waziristão, por comandantes arrogantes em busca de publicidade, que conseguiam invocar um fluxo aparentemente ilimitado de suicidas para atingir alvos em todo o Paquistão, até mesmo o quartel-general do Exército em Rawalpindi.

Desde o início, o líder do Taleban paquistanês, Maulana Fazlullah, foi uma figura nominal e polarizadora dentro do movimento militante. Mas depois que os militares começaram a tirar seus subcomandantes e aliados da área tribal do Waziristão do Norte, ele parece ter ainda menos autoridade sobre os líderes das diversas facções do Taleban, muitos deles personagens obstinados que se alternam entre a cooperação e rixas violentas.

As bases afegãs do Taleban também ofereceram um novo modo de operação para comandantes determinados, tais como Khalifa Omar Mansoor, que arquitetou o ataque de Peshawar em 2014 e os tiroteios desta semana contra a Bacha Khan University, em Charsadda.

Pouco se sabe sobre suas forças, mas as autoridades paquistanesas acreditam que ele compartilha recursos, incluindo homens-bomba, com outros grupos militantes. Um comandante do Taleban, falando por telefone do Waziristão, disse que os ataques de alto perfil de Mansoor haviam irritado outros grupos e que ele passou a ser visto como uma ameaça à preeminência do líder geral do grupo, Fazlullah.

Essas tensões vieram à tona nesta semana, quando Mansoor reivindicou a responsabilidade pelo tiroteio na Bacha Khan University. Sua reivindicação provocou uma repreensão pública por parte de um porta-voz do comando central do Taleban, que criticou suas ações e ameaçou levá-lo a um tribunal islâmico.

As autoridades paquistanesas viram o duelo como uma manobra cínica de relações públicas por parte do Taleban. Falando de sua frustração com o porto seguro de Mansoor no Afeganistão, as autoridades contaram que tinham tentado atrair o líder secretamente através da fronteira para que pudesse ser detido ou morto.

Há anos que os líderes afegãos expressam frustrações semelhantes com a liberdade que gozam os militantes do Taleban afegão para organizar ataques contra soldados afegãos e ocidentais a partir de suas bases no Paquistão. Agora, porém, há um novo impulso para tentar chegar a uma solução que envolva maior cooperação entre os países vizinhos.

Na semana passada, autoridades chinesas, dos Estados Unidos, do Afeganistão e do Paquistão reuniram-se em Cabul, capital afegã, para discutir como retomar o processo de paz afegão. E no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, na quinta-feira, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, pediram aos líderes do Paquistão e do Afeganistão que superassem suas diferenças e trabalhassem pela paz.

"Os militares paquistaneses reconhecem que precisam de paz, mas eles não têm certeza de que conseguem convencer o Taleban afegão a se sentar com o governo de Cabul", disse Hassan Askari Rizvi, um analista de defesa em Lahore, Paquistão. "Mas com os chineses e os norte-americanos por trás deles, talvez convençam a liderança a criar um grupo de negociação."

Tradutor: Deborah Weinberg

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