Bandeira do navio Exodus encontra um porto seguro no Museu do Holocausto

Eric Lichtblau

Em Washington (EUA)

  • Zach Gibson/The New York Times

    Bandeira que foi hasteada no navio Exodus, que levava refugiados judeus para a Palestina em 1947

    Bandeira que foi hasteada no navio Exodus, que levava refugiados judeus para a Palestina em 1947

Bill Silverstein entrou no Museu Memorial do Holocausto com uma pequena caixa de papelão sob seu braço e tendo em mente a situação aflitiva dos refugiados –não apenas aqueles que agora estão fugindo da Síria, mas também aqueles de outra crise que chamou a atenção do mundo quase sete décadas atrás.

Em um laboratório do museu reservado para artefatos especiais, Silverstein observava atentamente enquanto uma curadora com luvas brancas desdobrava o conteúdo da caixa, que ele e seu irmão, Tom, estavam doando. Dentro dela se encontrava uma bandeira azul e branca que antes tremulava no mastro do Exodus, um navio imortalizado em livro e filme depois que os britânicos não deixaram que aportasse na Palestina em 1947, com 4.500 sobreviventes do Holocausto e outros refugiados a bordo. Os sobreviventes, incluindo cerca de 1.000 crianças, tiveram que retornar à Alemanha.

Examinando a bandeira, Sara J. Bloomfield, a diretora do museu, a declarou como sendo "um tesouro raro". Ela disse que não conseguiu deixar de pensar nos paralelos entre a crise dos refugiados após a Segunda Guerra –quando centenas de milhares de sobreviventes do Holocausto foram mantidos em campos para pessoas deslocadas sem ter para onde ir– e a atual crise na Síria, que tem levado mais de um milhão de pessoas a buscarem segurança na Europa.

"Trata-se do apuro dos refugiados e da indiferença do mundo", ela disse.

Bill Silverstein concordou. Ele disse que a bandeira, que é quase idêntica àquela que viria a ser a bandeira israelense um ano depois, após a criação do Estado judeu, era "um importante lembrete para a humanidade" sobre o que acontece quando o mundo dá as costas às pessoas necessitadas. "Isto é particularmente relevante hoje", ele disse em uma entrevista, "devido ao que está acontecendo no mundo com as pessoas deslocadas e refugiados".

A bandeira permaneceu guardada na casa de um marinheiro americano na Filadélfia por mais de 30 anos, então chegou às mãos de um rabino em Jerusalém. Silverstein e seu irmão, sócios em uma imobiliária em Chicago, adquiriram a bandeira recentemente em uma casa de leilão em Israel por US$ 144 mil (cerca de R$ 591 mil).

O Exodus, um navio descartado da frota americana, partiu dos Estados Unidos em uma missão de resgate com uma tripulação de marinheiros judeus americanos voluntários, recolhendo 4.500 refugiados na França a caminho da Palestina, onde esperavam viver.

Mas foram recebidos nas águas além da costa da Palestina por destróieres britânicos, granadas e disparos, com quatro pessoas no navio sendo mortas e muitas sendo feridas. Os britânicos, que eram contrários à extensa imigração à Palestina, que administravam, forçaram os sobreviventes a desembarcarem em Haifa e os colocaram em embarcações com destino à França. Eles tiveram sua entrada rejeitada lá e acabaram sendo forçados a desembarcar em uma zona controlada pelos britânicos na Alemanha, onde foram recolocados em cativeiro nos campos para pessoas deslocadas.

O episódio chamou a atenção do mundo para a situação aflitiva dos sobreviventes do Holocausto. Ele se tornou a base para um livro best-seller, "Exodus", de Leon Uris, em 1958, e um filme de mesmo nome estrelado por Paul Newman, dois anos depois.

A bandeira foi retirada do mastro do navio por um dos tripulantes americanos, um contramestre carpinteiro chamado Michael Weiss, que escreveu seu nome e fez algumas poucas anotações sobre o navio (que chamou incorretamente de "Exudus") nas bordas da bandeira. Ele a manteve em sua casa na Filadélfia até 1977.

Após inspecionar a bandeira, Cynthia Hughes, uma conservadora de têxteis do museu, disse que ela estava "suja", mas fora isso em boas condições. Bloomfield disse que a bandeira estaria em breve em exibição, provavelmente como parte da exposição permanente.

"Essa bandeira fez uma jornada e tanto", disse Silverman. "Acho que ela finalmente encontrou um lar aqui."

Avi Hershkovitz, 68, que vive nos arredores de Baltimore, planejava ir ao museu para a transferência da bandeira, mas problemas de saúde o impediram. Sua mãe, uma passageira do Exodus, estava grávida dele quando os britânicos esvaziaram o navio e ele nasceu em um campo para pessoas deslocadas na Alemanha.

Ele ficou emotivo ao falar sobre a viagem do navio e sobre o novo lar para a bandeira.

"Meus pais me contaram o quão empolgados estavam quando embarcaram no navio com destino a Israel", ele disse, "e quem dera estivessem aqui hoje para ver a bandeira sendo colocada onde deve estar".

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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