Quem é o americano responsável pela libertação dos americanos em Teerã?

Mark Landler

Em Washington (EUA)

  • THAIER AL-SUDANI /AFP

Brett H. McGurk, principal negociador do presidente Barack Obama na troca secreta de prisioneiros com o Irã, engasgou de emoção ao embarcar em um jato do governo suíço em Genebra na noite de domingo (17) e cumprimentar os três norte-americanos que tinham acabado de chegar após anos de detenção em Teerã. Mais do que ninguém, ele havia sido responsável por libertá-los.

"Foi um momento incrivelmente emocionante", disse ele.

Para o advogado de 42 anos que começou sua carreira no governo de George W. Bush, também foi uma vitória profissional notável --mais um capítulo numa carreira que prosperou nos governos republicano e democrata, sobreviveu a um escândalo pessoal, e o manteve no centro das relações mais complicadas dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Mesmo enquanto McGurk se encontrava às escondidas com autoridades iranianas por 14 meses para negociar a libertação dos norte-americanos, ele liderava uma campanha nada secreta como enviado especial de Obama na coalizão mundial que luta contra o Estado Islâmico. Ele continua profundamente envolvido na complexa política do Iraque, com a qual tomou contato quando era um jovem conselheiro legal para a Autoridade Provisória da Coalizão, o governo civil dos EUA que comandou o Iraque nos meses após a invasão de 2003.

"Ele é um homem de ação, pragmático, e tem uma postura não-ideológica, o que combina muito bem com a abordagem do presidente", disse Benjamin J. Rhodes, vice-conselheiro nacional de segurança. "Ao longo dos anos, o presidente passou a confiar no julgamento de Brett sobre as coisas."

Obama ficou do lado de McGurk mesmo depois da revelação da troca de e-mails sensuais entre o enviado e uma correspondente do Wall Street Journal, o que prejudicou a nomeação de McGurk para o cargo de embaixador em Bagdá em 2012. Diante da resistência dos republicanos no Capitólio, McGurk retirou seu nome. Mas a Casa Branca encontrou um emprego para ele no Departamento de Estado, trabalhando no Iraque e no Irã, e McGurk mais tarde se casou com a jornalista, Gina Chon.

Desde então, McGurk desempenhou um papel central em três das iniciativas diplomáticas mais delicadas da região: ajudar a intermediar a transição para um novo governo iraquiano em 2014, manter unida uma aliança de 65 países para combater o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e liderar as negociações secretas para libertar os norte-americanos presos no Irã.

A extravagante agenda de viagens de McGurk como enviado especial permitiu que ele trabalhasse nas horas vagas como negociador em prol dos norte-americanos detidos no Irã, já que ele podia facilmente viajar para Genebra para se reunir com autoridades de segurança iranianas. À meia-noite, na noite de Ano Novo, ele estava sentado diante de um negociador iraniano, tentando chegar a um acordo sobre a sequência em que os Estados Unidos e o Irã libertariam seus prisioneiros. Da sua janela no Hotel InterContinental, em Genebra, a vista dos fogos de artifício explodindo sobre o lago era deslumbrante. Mas ele não parou para olhar.

"Nós mal nos mexemos", ele se lembra.

Era o estágio final de uma odisseia diplomática desgastante. O acordo quase desmoronou no último minuto devido a uma disputa com os iranianos para permitir que a mulher e a mãe de um dos norte-americanos libertados, Jason Rezaian, repórter do "Washington Post", embarcassem no avião com ele em Teerã. Para garantir a resolução do impasse, McGurk ficou no telefone com um diplomata suíço que estava na pista em Teerã, informando-o sobre cada um dos norte-americanos que saía do ônibus do aeroporto para entrar no avião.

A carreira de McGurk acompanha o arco do envolvimento dos EUA no Iraque. O ex-assistente do juiz William H. Rehnquist, formado pela Escola de Direito de Columbia, chegou em Bagdá em janeiro de 2004, quando o esforço de guerra estava em baixa. Ele ajudou a redigir a Constituição interina para o governo que se instalaria no Iraque, uma experiência que o tornou experiente nas conflitantes facções políticas do Iraque.

McGurk mais tarde foi transferido para os EUA para ser diretor para o Iraque no Conselho Nacional de Segurança. Em 2006, ele atraiu a atenção do presidente George W. bush por ser o primeiro a defender o aumento de tropas norte-americanas em Bagdá para estabilizar o que ele chamava de uma "desintegração" da segurança. Bush transformou McGurk no principal negociador do acordo que estabeleceu um cronograma para a retirada das tropas do Iraque até o fim de 2011.

"Ele tinha uma combinação de conhecimento e paixão, e uma prodigiosa ética de trabalho", disse Peter D. Feaver, professor de ciência política na Universidade Duke, que trabalhou com McGurk no governo Bush. "Este também é o motivo pelo qual um funcionário do Conselho Nacional de Segurança tende a se exaurir."

"O que é impressionante em Brett não é só o que ele fez", acrescentou Feaver, "mas por quanto tempo ele fez".

Quando Obama assumiu o governo em 2009, manteve McGurk no trabalho, assim como vários funcionários nomeados por Bush, e McGurk voltou a Bagdá para negociar, sem sucesso, a manutenção de uma presença militar residual dos EUA no Iraque após 2011.

McGurk teve uma visão em primeira mão do caos do Iraque após a saída das tropas dos EUA. Em junho de 2014, ele estava em Irbil, no Curdistão iraquiano, quando os combatentes do Estado Islâmico invadiram Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, e começaram a avançar para Bagdá. Ele supervisionou a retirada de 1.500 norte-americanos em Bagdá, e mais tarde ajudou a negociar a transição do primeiro-ministro Nouri al-Maliki para um novo governo liderado por Haider al-Abadi.

"Aquele foi um período muito intenso", disse McGurk. Mas ele disse que a negociação no Irã apresentou um conjunto diferente de desafios. "Isso tinha uma dimensão tão humana", disse ele. "É muito raro ter algo assim tão humano."

O histórico de McGurk no Iraque não é imaculado, segundo os críticos. Durante o período em que ele trabalhou no Iraque e no Irã pelo Departamento de Estado, o Estado Islâmico estabeleceu um refúgio na Síria e conquistou grandes partes do Iraque. McGurk, segundo eles, não pressionou al-Maliki o suficiente para tornar mais inclusivo o governo iraquiano, dominado pelos xiitas, nem para conter os abusos por parte das forças de segurança iraquianas --falhas que ajudaram a criar as condições para o surgimento do Estado Islâmico.

O problema, dizem alguns críticos, é que o governo terminou dependendo demais de McGurk para negociar com o governo iraquiano.

"À medida que as tropas norte-americanas se retiraram do Iraque, houve uma verdadeira mudança de atenção por parte do Iraque", disse Sarah Margon, diretora da Human Rights Watch em Washington. "Brett conseguiu manter seu papel central, sem muita supervisão."

Tradutor: Eloise De Vylder

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