Sem recursos, escolas públicas de Detroit entram em colapso econômico

Julie Bosman

Em Detroit (EUA)

  • Laura McDermottThe New York Times

Na escola pública precária onde Kathy Aaron trabalha, o calor enche o ar com um cheiro rançoso e mofado. Baratas, algumas com sete centímetros, correm para lá e para cá até serem esmagadas por um aluno que se voluntaria para a tarefa. A água goteja do teto no chão da quadra.

"Temos roedores no meio do dia", disse Aaron, professora há 18 anos. "Como se eles viessem para a aula."

As escolas públicas de Detroit são um choque diário para os sentidos, deterioradas após anos de negligência e má administração, fracassando em termos acadêmicos e beirando o colapso financeiro. Na quarta-feira, os professores protestaram de novo contra as condições das escolas, pedindo licença médica em massa e obrigando a maioria das cem escolas do país a fechar.

O governador de Michigan, Rick Snyder, está lidando com a crise em Flint, onde os moradores foram envenenados pela fornecedora local de água administrada por um gerente de emergência nomeado pelo Estado. Mas ele também teve de tratar da emergência em Detroit, outra cidade pobre de maioria negra com um problema que também piorou sob o controle do Estado.

As coisas ficaram tão ruins, dizem funcionários do distrito escolar, que o sistema de escolas públicas de Detroit pode se tornar insolvente em abril.

"Eles precisam de uma mudança transformadora", reconheceu o republicano Snyder em um discurso nesta semana. "Muitas escolas estão fracassando em sua principal tarefa. Nem todos os estudantes de Detroit estão recebendo a educação que merecem."

Muitos temem que o estado das escolas dificulte a recuperação da falida Detroit, uma recuperação evidente nos novos imóveis estilo loft e no movimentado supermercado Whole Foods pelo qual Aaron passa a caminho da escola, onde ela dá aulas para o quinto ano.

Os moradores se perguntam como a cidade poderá recuperar a população perdida e atrair famílias jovens se as escolas públicas estão em péssimo estado.

"Assim que começamos a reconstruir essa cidade e vimos o dinheiro e o desenvolvimento chegando, as pessoas começaram a perceber que não há como melhorar Detroit sem um bom sistema de ensino", disse Mary Sheffield, vereadora nativa de Detroit. "Temos empresas, restaurantes e estádios, mas nossas escolas estão caindo aos pedaços e nossas crianças não recebem educação. Sem boas escolas, Detroit não existe."

Para protestar contra as condições das escolas, os professores começaram a pedir licença médica nas últimas semanas, causando inconvenientes para muitas famílias e reduzindo o tempo em sala de aula para muitos estudantes, mas trazendo a questão à tona.

Os problemas são anteriores à falência municipal. Um dos maiores é a matrícula, que vem caindo vertiginosamente. Em 2000, as Escolas Públicas de Detroit tinham quase 150 mil alunos; este ano, há menos de 45 mil.

Mesmo depois de fechar escolas e reduzir a força de trabalho, as Escolas Públicas de Detroit têm US$ 3,5 bilhões em dívidas, a maior parte em pagamentos de pensões, de acordo com um relatório divulgado este mês pelo Conselho de Pesquisa dos Cidadãos de Michigan, uma organização não-partidária de pesquisa de assuntos públicos de Lansing.

A nomeação de um administrador de emergência em 2009 para assumir o distrito não recuperou as finanças. (A nomeação precede a eleição de Snyder em 2010, mas ele optou por manter o arranjo.)

"Estamos no nosso quarto administrador de emergência aqui", disse Craig Thiel, pesquisador-associado do Conselho de Pesquisa dos Cidadãos. "Todos eles parecem usar a mesma cartilha: descobrir uma forma de sobreviver ao ano letivo e terminar o ano sem falir, e depois empurrar os custos para o próximo ano na esperança de que as coisas melhorem de alguma forma. Eles estão lidando com essas dívidas que deveriam ter sido pagas anos atrás e que em vez disso foram passadas para orçamentos futuros."

Academicamente, o desempenho do distrito também é alarmante. Entre os grandes distritos escolares, Detroit ficou em último lugar desde 2012, de acordo com a Avaliação Nacional de Progresso Educacional. Só 27% dos alunos de quarto ano são proficientes em leitura; e 36% em matemática.

Em resposta às licenças médicas, o prefeito de Detroit, Mike Duggan, ordenou uma inspeção de cada escola do distrito. Na semana passada, enquanto visitava as escolas, ele encontrou um rato morto em uma escola de ensino fundamental.

Snyder defendeu um plano para criar um novo distrito escolar para administrar as escolas existentes, reduzindo o antigo distrito a um órgão que existiria apenas para pagar dívidas. Em seu discurso, ele pediu que os deputados aprovem o projeto de lei.

Na semana passada, o Estado de Michigan promulgou uma lei que estabelece um conselho escolar formado por nove pessoas, nomeado pelo republicano Snyder e o democrata Duggan, que eventualmente contrataria um superintendente.

Na semana passada, muitas escolas de Detroit estavam fechadas e vazias por causa das licenças médicas. Do lado de fora da Escola de Ensino Fundamental e Médio Durfee, na parte oeste da cidade, onde o problema de aquecimento tem sido tão grave que a escola passou a usar aquecedores portáteis, um cartaz escrito a mão anunciava: "Escola Fechada".

Na Palmer Park Preparatory Academy, uma escola que a Federação de Professores de Detroit disse que estava cheia de ratos e com o teto ruindo, os pais dizem que estão fartos dos problemas.

Tanya Cox, que tem três filhos na escola, disse que há 42 alunos na sala de quarto ano de seu filho Damir. "Com tantas crianças na sala de aula, acho que os professores não conseguem ensinar", disse ela.

Muitos deputados de fora de Detroit rejeitaram a ideia de que o Estado assuma as dívidas substanciais do distrito escolar. Mas eles estão hesitantes em deixar que o distrito continue no caminho da insolvência, dado o nível de urgência.

"Eles estão numa crise terrível", disse Camille Wilson, professora-associada de Educação na Universidade Wayne State. "Por um lado, o Estado tem uma tremenda responsabilidade em ajudar oferecendo algum alívio financeiro, uma vez que eles administraram e controlaram parte do sistema por muitos anos. Por outro, acho que as pessoas e cidadãos locais também devem poder participar."

 

Tradutor: Eloise De Vylder

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