Opinião: nigerianos devem pressionar por distribuição mais justa da riqueza

Tolu Ogunlesi*

Em Lagos (Nigéria)

A melhor forma de desmobilizar os agitadores pela independência é pressionar por uma distribuição mais justa da riqueza nacional.

Há 46 anos, este mês, a guerra civil da Nigéria chegou ao fim com a rendição da separatista República da Biafra. Os dois anos e meio de combates tomaram cerca de dois milhões de vidas, mas quando o amargo conflito terminou, o governo nigeriano proclamou, triunfante: "não há vitoriosos, nem vencidos". Contudo, a população étnica igbo, do sudeste da Nigéria, permanece descontente.

Em 1999, surgiu um grupo conhecido como Movimento para a Atualização do Estado Soberano da Biafra (Massob), que buscava restabelecer uma nação independente através de protestos e agitação política. Nos últimos anos, ele tem sido ofuscado por outro grupo, os Povos Nativos da Biafra, que também clama pela independência, defendendo o uso da violência, se necessário.

Liderados por Nnamdi Kanu, um nigeriano que vivia na Inglaterra até outubro do ano passado, o movimento demonstrou mais sofisticação do que o Massob. Sua principal ferramenta de publicidade é a Rádio Biafra, uma estação online que difunde o chamado pela "libertação" e a "emancipação" em relação ao "zoológico" chamado Nigéria. Estas atividades têm irritado o presidente Muhammadu Buhari, que apoiou publicamente o julgamento de Kanu por traição, em andamento.

Quando a guerra de Biafra eclodiu em 1967, após violência popular generalizada, o tenente coronel Odumegwu Ojukwu, um dos principais oficiais igbo, declarou que "os nigerianos orientais não queriam mais ser parceiros igualitários na Federação da Nigéria". Esse sentimento ainda é amplamente compartilhado pelos igbo. Mas as frustrações dos biafrenses não são diferentes daquelas dos seus vizinhos no Delta do Níger, cujo petróleo sustenta a Nigéria, mas lhes dá pouco retorno, além de incêndios e derramamentos. Elas tampouco diferem das queixas de seus compatriotas do norte, que continuam afundados em níveis de pobreza e analfabetismo que fazem o sul parecer próspero em comparação.

A realidade é que nenhuma parte da Nigéria tem o monopólio da vitimização. O impulso para protestar contra o sofrimento e querer determinar o próprio destino não é errado; o problema reside em buscar a mudança de uma forma que incita o ódio étnico e a violência. Seria melhor para os separatistas da Biafra abandonarem sua reivindicação de independência e pressionarem por uma mudança constitucional que fortalecesse o sistema federal que a Nigéria diz praticar. Nossa Constituição atual, como as outras que se seguiram à independência em relação à Inglaterra em 1960, é produto de líderes militares cujo programa raramente coincide com o bem público. Embora ela comece com as palavras certas ("Nós, o povo da República Federal da Nigéria..."), foi elaborada por um comitê seleto e só foi tornada pública depois que os militares transferiram o poder para o governo civil em 29 de maio de 1999.

Seria melhor que os separatistas igbo seguissem o exemplo da Escócia e pressionassem por um referendo para decidir o futuro da região. É pouco provável que o governo central endosse essa reivindicação, por medo de que isso possa desencadear uma avalanche de pedidos de referendo no país, que tem mais de 250 grupos étnicos. Mas se houvesse um referendo, meu palpite é que o resultado seria esmagadoramente a favor de preservar a união com a Nigéria.

Nunca haverá apoio suficiente no sudeste para a independência em relação à Nigéria, principalmente porque a maioria das pessoas lá percebe que haveria pouco a ganhar e muito a perder. É duvidoso que os vários grupos étnicos minoritários do delta partilhem da convicção dos agitadores biafrenses de que os Estados ricos em petróleo do delta fazem parte da Biafra. Sem o delta do Níger, a Biafra seria uma pequena nação sem litoral, com os empresários prejudicados pela exigência de visto para fazer negócios nos lugares em que moravam ou faziam comércio há décadas.

Além disso, a Biafra independente permaneceria dividida ao longo das mesmas linhas tribais e religiosas que estão sendo citadas para justificar sua saída da Nigéria. É fácil para os igbo se considerarem um monolito cultural e religioso, desde que permaneçam na Nigéria. Mas todos os nigerianos devem saber que subdividir o nosso povo é uma tarefa sem fim, uma vez que se cede a esse impulso. Numa Biafra independente, esmagadoramente cristã, as pessoas começariam a se identificar como anglicanas, católicas e metodistas --como já o fazem às vezes na política local. Na disputa eleitoral do ano passado, por exemplo, os bispos anglicanos advertiram o partido no poder do Estado igbo de Enugu que não aceitariam uma chapa governamental composta apenas por candidatos católicos. O partido ignorou o aviso.

O clamor por um referendo proporcionaria uma grande oportunidade para aqueles que, como eu, acreditam (usando uma frase dos ingleses que se opõem à independência da Escócia) que os nigerianos ficariam "Melhor Juntos". Sem dúvida é difícil enxergar isso num país onde os comentários na internet costumam degenerar em agressões étnicas, mas, na verdade, com a abordagem adequada, a diversidade da Nigéria poderia ser transformada em um tema unificador.

A campanha "Melhor Juntos" exigiria muita autoanálise sobre o passado doloroso do país. Ela também envolveria o reconhecimento das queixas de muitos igbos que estão cansados da marginalização, mas não suportam a ideia da secessão.

Quase todos os dias, desde a prisão de Kanu, houve protestos e pedidos para que o governo o liberte. Ao tratar do caso, o governo precisa agir com cuidado, garantindo não transformá-lo numa causa célebre.

Algumas semanas atrás, os jornais nigerianos relataram a existência de uma declaração escrita à mão por Kanu, enviada a agentes de segurança logo após sua prisão, na qual ele se desculpava "sem reservas" pelas coisas "lamentáveis" e "pouco elogiosas" que ele tinha dito sobre o presidente Buhari e algumas outras pessoas. O governo deve considerar usar esse sinal de remorso e fazer uma oferta de anistia a Kanu, em troca da promessa de ele ter uma postura menos inflamatória.

A melhor forma para o governo desarticular permanentemente aqueles que convocam à violência política é pressionar pelas reformas econômicas que o presidente Buhari prometeu realizar. Combater a corrupção e garantir uma distribuição mais equitativa da riqueza da Nigéria beneficiará todos os seus povos. Dividir o país em uma miscelânea de Estados independentes, não.

*Tolu Ogunlesi é jornalista, consultor de comunicações e autor do recente "Conquest & Conviviality".

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