Jornalista dos EUA diz que foi investigada por ricaços que apoiam a direita

Jim Dwyer

No outono de 2010, sem motivo aparente, um blogueiro perguntou à jornalista Jane Mayer, da revista "New Yorker", como ela se sentia em relação ao investigador particular que estava pesquisando seu passado. Mayer achou que era uma piada, ela disse esta semana. Numa festa de Natal, alguns meses depois, ela encontrou um ex-repórter que tinha sido convidado para ajudar numa investigação sobre uma jornalista para dois bilionários conservadores.

"A jornalista tinha escrito uma matéria de que eles não gostaram", conta Mayer em "Dark Money: The Hidden History of the Billionaires Behind the Rise of the Radical Right" ["Dinheiro Obscuro: A História Secreta dos Bilionários Por Trás da Ascensão da Direita Radical", em tradução livre], lançado neste mês pela Doubleday. O conhecido disse a ela: "depois me ocorreu que a jornalista que queriam investigar pode ser você".

De fato, Mayer tinha publicado uma grande reportagem na revista naquele mês de agosto sobre os irmãos David e Charles Koch e o papel de ambos no fortalecimento do poder do movimento Tea Party em 2010. Usando uma rede de organizações sem fins lucrativos e outros doadores, eles forneceram o apoio financeiro essencial para as vozes que têm dominado a política republicana desde 2011. "Dark Money" relata as vastas somas de dinheiro dos irmãos Koch e outros conservadores ricos que ajudaram a moldar o diálogo público contra as posições democratas sobre as mudanças climáticas, a Lei da Saúde Acessível e a política fiscal.

Mayer começou a levar a sério os rumores sobre a investigação quando ouviu de seu editor na "New Yorker" que ela seria acusada --falsamente-- de plágio, por roubar o trabalho de outros jornalistas. Um dossiê sobre seu suposto plágio tinha sido fornecido aos jornalistas do "New York Post" e do "Daily Caller", mas a calúnia ruiu quando os jornalistas que supostamente teriam sido vítimas declararam que aquilo era nonsense e que não tinha havido plágio algum. De fato, como um deles observou, Mayer tinha dado crédito total a sua matéria, embora isso não houvesse sido mencionado no documento oficial que foi disseminado.

E havia mais coisa. Mayer ficaria sabendo que esses mesmos poderes obscuros tinham investigado um amigo seu da faculdade, com a ideia de usar os problemas que ele teve, mais tarde, contra ela. "Eu tenho 60 anos", observou Mayer. "Isso faz muito tempo."

(O marido de Mayer, William Hamilton, é editor do "New York Times" em Washington.)

Quem estava por trás de tudo?

Descobrir isso levou três anos, disse Mayer, e ela escreve que chegou a uma operação de call center que vendia investimentos duvidosos e envolvia várias pessoas que colaboravam com os interesses empresariais dos Koch. Mas a empresa de investigação privada pode ser de particular interesse para os novaiorquinos.

"A firma, ao que parece, era a Vigilant Resources International, cujo fundador e presidente, Howard Safir, tinha sido comissário de polícia de Nova York durante o mandato do ex-prefeito Rudolph Giuliani", ela escreve em seu livro.

Safir foi comissário dos bombeiros e da polícia durante a prefeitura de Giuliani. Ele deixou o cargo em 2000, um ano antes do fim do mandato de Giuliani, e passou a trabalhar no tipo de consultoria para todos os fins de segurança e investigação, um ramo que prosperou depois dos ataques do 11 de Setembro.

Safir e seu filho, Adam, e sua filha, Jennifer, uma ex-agente do FBI, trabalharam na Vigilant. O ex-comissário não foi encontrado na terça-feira para discutir seu papel na investigação sobre Mayer. Adam Safir, no entanto, falou breve e cordialmente à reportagem, sem elucidar muita coisa.

Duas outras pessoas de Washington identificadas por Mayer na operação, Philip Ellender, que chefia o setor de assuntos governamentais dos Koch, e Nancy Pfotenhauer, que foi presidente de um grupo sem fins lucrativos fundado pelos Koch, não retornaram os pedidos de entrevista da reportagem.

"Eu assino e leio a 'New Yorker'", disse Adam Safir. "Quanto ao que fazemos, não falamos sobre nossos clientes, se temos ou não temos clientes. Até mesmo responder essa pergunta violaria a política da nossa empresa."

Questionado sobre a campanha contra Mayer e a investigação sobre ela, Ken Spain, porta-voz da Koch Industries, deu uma declaração criticando as reportagens sobre os Koch e acusou-as de serem "grosseiramente incorretas".

Perguntado se ele estava dizendo que a investigação sobre Mayer não tinha acontecido, Spain respondeu: "nós sustentamos a declaração".

Tradutor: Eloise De Vylder

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