No Carnaval alemão, políticos e terroristas são alvos de sátira em carros alegóricos

Alison Smale

Em Düsseldorf (Alemanha)

  • Gordon Welters/The New York Times

    Jacques Tilly com seu carro alegórico satirizando Barack Obama: ouvidos da NSA (a agência de segurança norte-americana, acusada de espionagem) e drones como armas

    Jacques Tilly com seu carro alegórico satirizando Barack Obama: ouvidos da NSA (a agência de segurança norte-americana, acusada de espionagem) e drones como armas

Todos os anos, quando a grande parada do Carnaval antes da Quaresma se aproxima, esta rica cidade da Renânia (centro-oeste da Alemanha) se agita com a pergunta: quem Jacques Tilly, o mestre construtor de carros alegóricos, vai espetar desta vez?

Usar a arte para visar os políticos e outros poderes é uma tradição de quase dois séculos de sátira carnavalesca nesta região. Hoje é um costume que se torna cada vez mais pertinente, e até perigoso.

No ano passado, Tilly desafiou os temores sobre a reação dos extremistas islâmicos e abordou os terroristas que atacaram o jornal satírico francês "Charlie Hebdo".

No ano anterior, quando o presidente Vladimir Putin, da Rússia, invadiu a Crimeia apenas dois dias antes do grande desfile, Tilly e cinco companheiros de trabalho construíram um carro gigantesco de madeira e papier-mâché que mostrava Putin com os braços flexionados no estilo Popeye, com um grande músculo chamado Crimeia na forma de uma bomba-relógio.

Este ano, a questão é se e como Tilly vai tratar os principais temas de conversas na Alemanha: os mais de 1 milhão de buscadores de asilo que chegaram no ano passado e os ataques na véspera de Ano Novo, muitos deles ligados a migrantes, contra dezenas de mulheres na cidade próxima de Colônia.

Tilly, 52, elegante mesmo em um macacão de trabalho vermelho e parecendo um mestre de fantoches brincalhão, nada revela. Orgulhoso de exibir suas criações em sua oficina cavernosa, ele rapidamente se recusou a dizer o que há na tenda gigante que domina o pátio onde os carros "políticos" secretos estão escondidos.

O Carnaval aqui dificilmente se aproxima das famosas celebrações coloridas do Rio de Janeiro ou do Mardi Gras de Nova Orleans. Fora da Alemanha, quase ninguém sabe que as cidades do vale do rio Reno também enlouquecem.

Mas durante cinco dias a partir de quinta-feira até um milhão de pessoas vão beber muita cerveja e ocupar as ruas desta cidade, assim como as de Colônia e Mainz. Nos desfiles de quilômetros de comprimento e nas festas a fantasia, os carros alegóricos políticos ocupam lugar de destaque.

Tilly segue uma tradição europeia que transformava os bobos da corte ou arlequins em reis durante o Carnaval. Da Saturnália do Império Romano até a Idade Média, o continente comemorou o que Tilly chamou de "tempo mágico", quando o inverno se aproxima do fim e a primavera e o verão aguardam.

"No Carnaval, o povo dizia: 'Esta é a nossa hora. Nós temos o poder'", disse Tilly. "E um pouco disso permanece", acrescentou ele, chamando o Carnaval de "o tempo das paixões, quando não existem tabus."

Mas é claro que existem, especialmente em um mundo cada vez menor, onde as sensibilidades se chocam com consequências àsvezes perigosas.

Tilly certamente não desconhece os riscos da sátira, arte que ele pratica há mais de 30 anos. "Eu comecei com 20", disse ele, olhando ao redor em sua oficina, "e de certa forma nunca parei".

No ano passado o desfile ocorreu semanas depois do atentado terrorista à "Charlie Hebdo", publicação que Tilly diz ter lido durante toda a sua vida adulta. Seu carro alegórico mostrava um terrorista avançando com uma espada ensanguentada e uma pessoa decapitada correndo com um exemplar de "Charlie Hebdo". Em vez de sangue brotando de sua cabeça, havia um "balão" de pensamento com as palavras "Vocês não podem matar a sátira!"

O carro foi considerado ousado -- e permitiu que Tilly e seus muitos defensores daqui tripudiassem sobre Colônia, cidade arquirrival de Düsseldorf em tudo o que se refere ao Carnaval, e que não quis abordar esse tema delicado.

Este ano também o carro deu vantagem a Düsseldorf. O Comitê do Carnaval já havia reforçado a segurança contra possíveis problemas provocados pelo carro da "Charlie Hebdo".

Em Colônia, em comparação, os poderosos locais se uniram em apoio à cidade depois do choque dos ataques do Ano Novo, e pretendem triplicar ou mesmo quadruplicar a presença policial quando as comemorações atingirem o pico, na próxima semana, na "Segunda-feira Cor-de-rosa".

Na oficina, Tilly e sua equipe cuidam das criações deste ano. Eles fazem dezenas de carros para o desfile anualmente, incluindo cinco ou seis políticos. Todos são destruídos depois de desfile, porém, por isso Tilly exibe numerosas fotos de antigas obras.

Ele zomba de presidentes americanos, chanceleres alemães, de Putin e dos terroristas do Estado Islâmico. Não evita a crueza: uma criação de 2003 mostra Angela Merkel, que ainda não era chanceler da Alemanha, saindo pelo traseiro de Tio Sam.

Aquilo, explicou Tilly, foi depois que Merkel enfatizou para Washington que nem todos os alemães eram contra a iminente guerra dos EUA contra Saddam Hussein no Iraque.

Mas Tilly não tem certeza se concorda com um famoso satirista alemão, Kurt Tucholsky, de que "a sátira permite tudo". Tilly disse que ele não representaria Maomé, por exemplo, ato considerado blasfemo por muitos muçulmanos.

"Você tem de acertar o tom, com a maior precisão possível", disse ele. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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