Opinião: Duas perguntas para Bernie Sanders

Nicholas Kristof

  • Justin Sullivan/EFE

    O pré-candidato democrata à eleição americana Bernie Sanders participa de debate na rede de TV CNN

    O pré-candidato democrata à eleição americana Bernie Sanders participa de debate na rede de TV CNN

Quando Bernie Sanders venceu a eleição para prefeito de Burlington, Vermont, em 1981, eu liguei para seu gabinete na Prefeitura para saber se alguém estava falando algo ali sobre a eleição de um socialista. Eu estava estagiando no "The Washington Post" (não mencionei a parte do estágio!) e conversei longamente com o assistente que atendeu o telefone.

Eu perguntei sobre os planos de Sanders e o assistente continuava respondendo com "nós" –que achei ser um vislumbre agradável do socialismo contagioso no gabinete. Depois de meia hora, eu já contava com material suficiente para checar com meu editor, de modo que perguntei ao assessor seu nome. "Ah", ele disse um tanto timidamente, "na verdade, sou Bernie Sanders".

A falta de ares políticos de Sanders ajudou a catapultá-lo adiante na corrida presidencial, superando um déficit de 50 pontos percentuais e praticamente empatando com Hillary Clinton em Iowa.

Ele passa a imagem de positivamente não calculado: outros candidatos beijam bebês; Sanders parece desajeitadamente procurar a chave de "desliga"  do bebê, para que possa falar mais sobre a desigualdade nos Estados Unidos. A maioria dos políticos persuade os eleitores com falsidade; ele berra com eles.

Eu admiro a paixão de Sanders, seu foco incansável na desigualdade e sua consistência. Quando foi empossado como prefeito de Burlington, ele declarou: "Os ricos estão ficando mais ricos, os pobres estão ficando mais pobres e milhões de famílias no meio estão gradualmente passando da classe média para a pobreza". Esse permaneceu seu mantra por 35 anos. Mesmo assim, tenho duas perguntas fundamentais para Sanders:

Você pode traduzir sua visão ousada em realidade?

Quanto a isso, francamente, sou cético. Sou a favor do Medicare (o seguro-saúde público para idosos e inválidos) para todos, mas não acontecerá. E se acontecesse, o Comitê para um Orçamento Federal Responsável, um grupo bipartidário, apontou que as somas de Sanders se aproximariam de US$ 3 trilhões ao longo de uma década.

Igualmente, Sanders diz que pressionaria os aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio a liderarem uma investida para derrotar o Estado Islâmico. Sim, mas como? Os Estados Unidos já estão tentando sem sucesso fazer com que esses aliados se empenhem mais contra o EI. Que nova forma de influência ele empregaria?

No mês passado, o "Washington Post" publicou um editorial contundente intitulado "A Campanha Cheia de Ficção de Bernie Sanders". Ele ridicularizou suas "alegações fantásticas" e acrescentou: "Sanders não é uma pessoa corajosa que diz a verdade. É um político vendendo seu estilo próprio de ficção".

Acho isso duro demais, pois Sanders faz muito menos média com as pessoas que outros políticos (um padrão de comparação muito baixo) e com frequência estabelece posições solitárias que provam estar corretas –como sua oposição à guerra no Iraque. Mas ainda resta essa questão aberta sobre como realizaria sua agenda ambiciosa.

Também me pergunto se sua idade pode ser relevante: Sanders teria 75 anos ao tomar posse, de longe a pessoa mais velha a se tornar presidente (Reagan tinha 69; Hillary teria pouco menos de 69). Sanders agora parece incansável, mas as pessoas com frequência desaceleram na segunda metade da faixa dos 70 e na faixa dos 80.

Outro motivo para ceticismo é seu retrospecto legislativo. Em 25 anos no Congresso, Sanders foi o principal autor de apenas três projetos que se tornaram lei, e dois deles foram simplesmente para alterar o nome de postos dos correios em Vermont; ele se saiu melhor com emendas.

Hillary também não foi muito melhor como legisladora, mas para mim, o retrospecto de Sanders sugere que seu ponto forte é como defensor passional de ideais, não como um negociador que obtém resultados.

Você conseguirá ser eleito? Ou sua indicação tornaria um presidente Cruz mais provável?

Quando os eleitores são sondados hoje sobre como votariam na eleição geral, Sanders se sai muito bem. Por exemplo, ele derrota Ted Cruz no levantamento da RealClearPolitics, enquanto Hillary perde para Cruz. Mas a esta altura, isso praticamente não significa nada: os republicanos estão atacando Hillary e ignorando Sanders. Se ele for indicado, ele será atacado ferozmente.

Um fator particularmente sério para aqueles que apoiam Sanders: uma pesquisa Gallup do ano passado, perguntando aos eleitores em que tipo de pessoa não votariam, apontou que 6% dos americanos não votariam em um católico, 7% não votariam em um negro ou judeu, cerca de 24% não votariam em um candidato gay e mais de um terço não votariam em um muçulmano ou ateísta.

Mas o tipo de pessoa que enfrentaria mais objeção seria um socialista, com 50% dos americanos dizendo que não votariam em um socialista.

Talvez Sanders possa convencê-los de que um "socialista democrata" não é exatamente um socialista, ou talvez possa encantar alguns eleitores a ponto de repensarem suas crenças. Ele foi muito bem-sucedido em fazer isso em Vermont, um Estado onde agora vence eleições por ampla margem e onde os céticos o subestimam há 35 anos.

Mas se um candidato democrata começasse com metade do eleitorado não disposto a considerar alguém como ele, isso seria uma vantagem imensa para o candidato republicano.

Logo, ele seria capaz de implantar suas ideias e conseguiria ser eleito? Muitos de nós admiram Sanders, mas gostaríamos de alguma garantia.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos