Famoso aeroporto de Berlim se adapta a novo papel: um centro para refugiados

Alison Smale

Em Berlim (Alemanha)

  • Gordon Welters/The New York Times

Os prussianos já marcharam na área onde agora se encontra Tempelhof. Nos anos 30, o arquiteto Ernst Sagebiel pegou o que então era um campo de aviação modesto e concebeu o local como uma entrada gigante para a nova Alemanha de Hitler. 

Posteriormente, sua criação –que o arquiteto Norman Foster chamou de "mãe de todos os aeroportos"– foi usada pelos Estados Unidos e seus aliados para a Ponte Aérea que salvou Berlim Ocidental de um bloqueio soviético. 

O tamanho e amplidão de Tempelhof, assim como sua localização, no centro de Berlim, são tão impressionantes que tudo, das placas do aeroporto às esteiras de bagagem desativadas, permanece sob proteção legal como monumento. 

De fato, por toda sua vida, o aeroporto de Tempelhof tem escrito capítulos da história de Berlim. Logo, talvez fosse inevitável que teria um papel importante no atual. 

Hoje, ele está prestes a se tornar o maior centro para refugiados da Alemanha. Para Tempelhof, isso representa mais uma transformação. 

A nova missão do aeroporto, que poderá abrigar até 7 mil refugiados quando as obras estiverem completas, coloca os funcionários daqui em papéis improvisados. Eles precisam descobrir como abrigar, alimentar, aquecer, entreter e ajudar os recém-chegados da Síria, Afeganistão, Iraque e de outros lugares. 

"Não há um roteiro para algo assim", disse Michael Elias, que chefia a empresa, a Tamaja, responsável pela administração das instalações, que organiza de tudo, da segurança e limpeza até tratar com a empresa de catering que fornece o café da manhã, almoço e jantar. 

"No início, você comete muitos erros", acrescentou Elias, 46 anos, que veio pequeno do Líbano para a Alemanha.

Seu escritório dá vista para um dos quatro hangares abertos de 16 metros de altura, onde até 800 refugiados estão atualmente acomodados em espaços de 25 metros quadrados formados por divisórias temporárias. Seis beliches, onde dormem 12, ocupam esses espaços, sem que sobre espaço para uma cadeira. 

"Não é um espaço concebido para moradia", disse Constanze Doell, uma porta-voz do Tempelhof Projekt, a agência municipal responsável pelo projeto geral. "É um hangar de aeroporto." 

Na época dos nazistas, trabalhadores presos eram forçados a construir aviões nesses hangares. Em 1948 e 1949, aviões C-47 americanos trouxeram milhões de toneladas de alimentos, carvão e outros suprimentos na Ponte Aérea de Berlim, uma operação que, em seu auge, via aviões pousando em intervalos de 90 segundos. 

Muitos dos aviões lançavam pequenos paraquedas com uvas-passas e chocolates. Os "bombardeiros de uvas-passas", como foram apelidados, ainda são lembrados com carinho em uma cidade que tanto amou quanto odiou os americanos. 

Ao longo da Guerra Fria, as Forças Armadas americanas utilizaram o aeroporto, ao lado de voos civis. Após a queda do Muro de Berlim em 1989, os militares americanos gradualmente se retiraram. 

Enquanto a recém-unificada Berlim mesclava suas metades oriental e ocidental, vários usos foram discutidos para Tempelhof. Mas, de uma forma classicamente berlinense, nenhuma foi decidida. No mais recente referendo em 2014, os berlinenses rejeitaram um plano para construção de 4.700 casas, deixando ao mesmo tempo até 85% de seu vasto espaço verde aberto. 

Os planejadores municipais que podem ter reclamado dessa oportunidade perdida de construção de moradias necessárias podem agora estar em parte aliviados. Onde casas permanentes teriam sido construídas, eles agora podem erguer moradias pré-fabricadas para os refugiados não abrigados nos hangares. 

Holger Lippmann, 52 anos, que comanda o Tempelhof Projekt, certamente sentiu os efeitos da evolução do destino do aeroporto. Ele assumiu a função em meados de 2015, em caráter temporário, tendo sido encarregado, por 13 anos, da venda de terras que a cidade achava que não precisava. 

Agora ele permanecerá por pelo menos dois anos e está entre os interessados em preservar cada centímetro das terras municipais, não apenas para os refugiados, mas também para o crescente número de famílias que permanecem em Berlim, ou estão se mudando para cá, pressionando por mais moradias e escolas. 

Uma visita recente em um dia ventoso e de clima razoavelmente agradável resultou em vislumbres dos refugiados, muitos falando ao celular, outros deitados apáticos em seus beliches, e as crianças sendo entretidas por voluntários de um grupo circense e da caridade Save the Children ("Salve as Crianças", em inglês). 

Dezenas de novas unidades, cada uma contendo um vaso sanitário, uma pia e um chuveiro para uso individual, aguardavam ligação à rede. Elas foram compradas depois que os refugiados, em especial as mulheres, se recusavam a usar os chuveiros comunais. 

Quase todo dia traz um novo desafio. Depois que centenas de mulheres foram atacadas na Véspera de Ano Novo em Colônia por jovens que diziam ser imigrantes, as mulheres que trabalham nos mais de 100 escritórios aqui passaram a sentir medo. "Depois de Colônia, passamos a ter uma preocupação e sensibilidade especial", disse Lippmann. 

Os funcionários de Tempelhof antes envolvidos em eventos para arrecadação de fundos –desfiles de moda e cenários para programas de TV, por exemplo– agora estão ocupados cancelando esses contratos e realizando um levantamento das necessidades dos refugiados. 

Segundo Elias, o ideal seria os refugiados passarem apenas poucas semanas aqui antes de avançarem pelo sistema. Ele compara a Alemanha a uma sociedade que estava acostumada a cozinhar apenas com sal e pimenta. 

"Agora", ele disse, "temos uma verdadeira miscelânea de temperos". O afluxo, ele acrescentou, "é positivo –a sociedade está pensando em quais valores ela mais preza".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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