Mesquita perto da Universidade do Arizona enfrenta hostilidade dos estudantes vizinhos

Fernanda Santos

Em Tucson, Arizona (EUA)

  • Caitlin O'Hara/The New York Times

Rania Kanawati, uma imigrante síria, estava caminhando para seu carro após a Oração de Sexta-Feira no mês passado, no Centro Islâmico de Tucson, quando uma lata de cerveja foi atirada atrás dela, depois outra ao seu lado.

Em outra noite na mesquita, Ahmed Meiloud, um candidato a Ph.D. da Mauritânia que também é o presidente do Centro Islâmico, estava deixando o prédio quando alguém gritou de um carro de passagem: "Terrorista, volte para de onde você veio!"

A congregação diversa do Centro Islâmico –um complexo térreo com domo de cobre vizinho do vasto campus da Universidade do Arizona– tem suportado zombarias, provocações e ataques de vandalismo desde que centenas de estudantes se mudaram para duas torres de apartamentos vizinhas há três anos. Em pelo menos um caso, uma chuva de amendoim picado foi jogada sobre a mesquita; o que é mais comum é latas e garrafas serem atiradas das sacadas dos apartamentos, geralmente durante as populares festas nas noites de sexta e sábado.

"Sim, são estudantes, geralmente estudantes bêbados, mas os ataques não são aleatórios", disse Meiloud. "Nós somos o alvo."

Até o momento, ninguém foi ferido. Mas diante do debate nacional altamente carregado em torno da aceitação de refugiados muçulmanos nos Estados Unidos –assim como o tiroteio em massa por dois terroristas muçulmanos em San Bernardino, Califórnia, em dezembro– as tensões em torno dos insultos e vandalismo aqui são particularmente altas.

"Não podemos ignorar o pano de fundo contra o qual isso está acontecendo, com todos os crimes de ódio contra muçulmanos em toda parte", disse Imraan Siddiqi, o diretor-executivo da divisão do Arizona do Conselho das Relações Americano-Islâmicas.

Nos últimos meses, cartazes islamofóbicos apareceram na Universidade Americana, na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e em outros campi universitários. No Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, a mensagem "Nós mataremos todos os muçulmanos" foi rabiscada em uma parede do banheiro. Em outubro, um estudante da Universidade de Indiana foi preso depois de tentar arrancar o lenço de cabeça de uma mulher muçulmana enquanto ela jantava do lado externo de um restaurante, segundo a polícia de Bloomington, Indiana.

A Universidade do Arizona conta com um corpo estudantil diverso e estudantes e professores descrevem sua cultura como sendo geralmente inclusiva. Mas as minorias no campus dizem não estar imunes a maus-tratos e conceitos equivocados.

Uma série de reuniões entre membros do corpo docente e estudantes foram realizadas em seis centros culturais do campus da universidade nos últimos meses do ano passado, provocadas por episódios de cunho racial na Universidade do Missouri e outros lugares. Segundo anotações do corpo docente a respeito das reuniões, estudantes gays disseram ser molestados livremente por colegas de classe, estudantes negros contaram sobre serem afugentados de disciplinas e diplomas percebidos como sendo apenas para brancos, e estudantes asiáticos falaram sobre "generalizações doentias", em particular envolvendo muçulmanos.

Lynn Nadel, um professor de psicologia e ciências cognitivas e presidente do corpo docente da universidade, disse que as reuniões serviram como um chamado à ação. "Não precisamos esperar pela explosão para olhar ao redor e descobrirmos por conta própria como estamos agindo e como devemos mudar", ele disse.

Apesar dos repetidos esforços por parte da universidade e dos administradores do complexo de apartamentos para deter o molestamento à mesquita e seus membros, os problemas persistem. Mumina Obeid, uma estudante de medicina da universidade e professora da escola dominical do Centro Islâmico, disse que mais de uma vez recolheu garrafas de bebidas alcoólicas espalhadas pelo local onde as crianças brincam no intervalo.

Obeid, 20 anos, que nasceu em Tucson, filho de um pai sírio e mãe mexicana, disse que um menino de 5 anos veio até ela outro dia segurando uma lata de tabaco de mascar que encontrou no playground.

"Que mensagem estamos passando às nossas crianças quando seu local de adoração é tratado como uma lata de lixo?" ela perguntou.

O complexo de apartamentos para aluguel, Sol y Luna, diz oferecer apartamentos mobiliados, piscina de cobertura, um jardim de ioga e vagas de estacionamento, tudo a duas quadras do campus da Universidade do Arizona.

Uma empresa com sede na Pensilvânia, a GMH Capital Partners, comprou a propriedade no final do ano passado e instalou câmeras sensíveis a movimento do lado externo dos prédios, em um esforço para pegar os infratores. Quatro moradores foram despejados dos prédios sob os proprietários anteriores, noticiou o jornal "The Arizona Daily Star".

No mês passado, quando as aulas na universidade foram retomadas e latas e garrafas voltaram a ser jogadas no estacionamento da mesquita, o senhorio começou a considerar o fechamento das sacadas.

Em uma carta aos inquilinos e seus pais, Rand A. Ginsburg, vice-presidente sênior da GMH Capital Partners, ameaçou com multas e mais despejos, prometendo tolerância zero a "ações envolvendo violência ou comportamento destrutivo em relação a outros seres humanos ou organizações" e a "palavras ou ações que representem hostilidade racial ou religiosa".

A mesquita funciona como o centro muçulmano de fato da universidade. A Associação dos Estudantes Muçulmanos tem um escritório ali e é comum ver estudantes em seu interior debruçados sobre seus notebooks, tirando proveito da conexão Wi-Fi gratuita. Ele também atende professores e profissionais, assim como imigrantes e refugiados da Síria, Iraque, Sudão e outros países.

"Esta é uma comunidade muito receptiva", disse Kanawati, que deixou a Síria há muito tempo e é membro da mesquita há 23 anos. "Mas há exceções."

O Centro Islâmico se mudou para seu atual endereço nos anos 90, quando a universidade, cujo corpo estudantil agora chega a cerca de 42 mil, contava com aproximadamente 10 mil estudantes a menos. Na época, os prédios mais altos no bairro tinham apenas um punhado de andares de altura.

Com o crescimento da universidade e uma linha de bonde ligando o campus ao centro, a prefeitura aprovou mudanças de zoneamento que permitiram prédios mais altos e maior adensamento –para proporcionar moradia aos estudantes e mantê-los distantes dos bairros residenciais pitorescos que cercam a universidade, disse Steve Kozachik, um vereador que representa a área.

Em uma sexta-feira recente no Centro Islâmico, um grupo barulhento de mulheres se reuniu após as orações do anoitecer para uma refeição de charutos de folha de uva caseiros e um bolo comprado em uma doceria, enquanto seus filhos brincavam de pega-pega no salão de oração dos homens.

Do lado de fora do centro, Madalyn Lorber, 18 anos, uma estudante do segundo ano que mora nos apartamentos, disse que o único momento em que pensa na mesquita vizinha é quando tem dificuldade para encontrar uma vaga de estacionamento na rua durante as orações nas tardes de sexta-feira.

"Eles ficam na deles", disse Lorber sobre os membros da mesquita, adicionando que seu apartamento fica voltado para a direção oposta.

O vereador Kozachik realizou uma reunião no mês passado com representantes da mesquita, do complexo de apartamentos, da universidade e da polícia. Ele disse que também pediu ao procurador-geral que impetrasse uma ação civil por perturbação contra os proprietários dos prédios de apartamentos caso não consigam conter o problema.

Meiloud, o presidente do Centro Islâmico, disse que a liderança da mesquita considerou a possibilidade de se mudarem dali para acabar com os problemas e com os riscos enfrentados por seus membros, mas a ideia foi logo deixada de lado.

"Nós resolveremos isso", disse Meiloud. "Eles não vão nos afugentar daqui."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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