Da Guerra Fria à indiferença: Rússia deixa de ajudar os EUA no Afeganistão

Mujib Mashal e Andrew E. Kramer*

Em Cabul (Afeganistão)

  • Rahmat Gul/AP

Dentre todos os conflitos no mundo nos quais Washington está em desacordo com Moscou, a deterioração da situação da segurança no Afeganistão era uma área onde os interesses do governo Obama e as preocupações da Rússia coincidiam. As disputas em torno das guerras na Ucrânia e Síria não impediam os governos de cooperarem no combate ao narcotráfico e proteção das linhas de suprimentos militares. Mas após os sucessos iniciais nessas frentes, a Rússia parece agora estar se distanciando tanto dos Estados Unidos quanto do governo afegão apoiado pelos americanos.

Em um velho campo de batalha da Guerra Fria, onde a Rússia travou uma guerra de quase uma década de duração contra combatentes armados pelos Estados Unidos, Moscou agora tem uma nova estratégia: a indiferença.

"Não participaremos de eventos inúteis e já informamos aos americanos", disse o emissário do presidente Vladimir Putin para o Afeganistão, Zamir N. Kabulov, para a mídia de notícias estatal russa neste mês. A Rússia, ele disse, ficará de fora de qualquer negociação entre o Taleban e o governo afegão em Cabul, apoiada pelos Estados Unidos, Paquistão e China.

"Falando honestamente, já estamos cansados de participar de qualquer coisa iniciada por Washington", disse Kabulov. Ele acrescentou que o Kremlin "não tem nenhum desejo de participar no que os americanos organizam 'às pressas', apenas para atender seus interesses pré-eleitorais e onde nos dão apenas o papel de figurantes"

O governo Putin decidiu tratar por conta própria do que considera uma ameaça imediata à segurança, o caos no Afeganistão e o surgimento ali de outros militantes além do Taleban, especialmente os do Estado Islâmico.

A Rússia reforçou sua maior base militar estrangeira no Tadjiquistão, ao longo da fronteira do Afeganistão, e as forças militares russas realizam exercícios regularmente com os soldados tadjiques. O Kremlin destina US$ 1,2 bilhão para treinar e equipar o Exército tadjique, formando um novo baluarte na Ásia Central, ao norte do Afeganistão.

Kabulov também revelou recentemente que a Rússia abriu canais diretos para o Taleban para trocar informações sobre os militantes no norte do Afeganistão aliados do Estado Islâmico. O Taleban negou estar em contato com Moscou.

As autoridades afegãs temem que uma quebra do consenso entre as potências internacionais com interesse no Afeganistão, assim como o estabelecimento de contatos diretos desses governos com os insurgentes do Taleban, possa minar o governo em Cabul.

Elas também estão preocupadas que as recentes ações por parte do governo russo sejam motivadas por forças fora de seu controle, como a falta de uma estratégia clara por parte dos americanos e o relacionamento tenso de Putin com os Estados Unidos.

"Bilateralmente, temos tido dificuldade em convencer os russos em certas questões, porque cada vez mais nos veem apenas como parte desse jogo maior com os Estados Unidos", disse um alto funcionário afegão, que falou sob a condição de anonimato por temer que seus comentários possam incitar ainda mais desconfiança em Moscou.

As recentes ações do Kremlin são vistas como uma mudança do papel exercido pela Rússia durante os 14 anos de presença da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar do Ocidente) no Afeganistão, uma de cooperação cautelosa, marcada por frequentes contradições.

Mesmo enquanto Moscou ficava alarmada pela presença de quase 140 mil tropas ocidentais em seu quintal, com frequência desprezando a missão como um fracasso, o governo Putin ficava feliz em permitir que a coalizão liderada pelos Estados Unidos contivesse as ameaças comuns representadas pela Al Qaeda e pelo Taleban, assim como pelas drogas, produzidas em abundância pelo Afeganistão e que são traficadas e consumidas na Rússia.

Em pouco mais de um ano desde o final da missão de combate da Otan no Afeganistão, os combates aqui se intensificaram, se deslocando para o norte, ao longo da fronteira de mais de 2.000 km com três Estados centro-asiáticos que a Rússia ainda considera como sendo seu ventre. O Taleban dominou brevemente a cidade de Kunduz em setembro.

O mais alto general americano em solo afegão ofereceu declarações contraditórias sobre o grupo insurgente. Em uma audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado neste mês, o comandante das forças americanas e da Otan no Afeganistão, o general John F. Campbell disse: "Nosso país tomou a decisão de que não estamos em guerra com o Taleban". Poucos dias depois em Cabul, ele disse que o Taleban era o inimigo.

O governo russo não teme uma ameaça direta do Taleban, mas sim que combatentes centro-asiáticos possam usar o Afeganistão como campo de preparação para penetrar as fronteiras da Rússia. Um grupo particularmente preocupante é o Movimento Islâmico do Uzbequistão, que conta com algumas facções que já juraram fidelidade ao Estado Islâmico. As autoridades afegãs também relataram a presença de militantes do Tadjiquistão, Tchetchênia e uigures chineses, muitos dos quais vieram das áreas tribais do Paquistão para o Afeganistão.

Combater o narcotráfico que financia em parte a insurreição afegã era uma área de interesse comum para russos e americanos, disse Yuri V. Krupnov, um conselheiro do chefe da agência russa de combate às drogas, Viktor P. Ivanov. Mas isso acabou quando o Departamento do Tesouro americano impôs em 2014 sanções a Ivanov, um associado próximo de Putin.

"Washington não dialoga conosco, apenas impõe seus interesses e soberania, sem o menor interesse pelo ponto de vista da Rússia ou de qualquer outro", disse Krupnov, acrescentando: "O governo Obama enterrou essa promissora linha de cooperação. Todo o espaço para cooperação foi esgotado."

A aliança entre os militantes estrangeiros no Afeganistão pode não ser tão ameaçadora quanto a Rússia teme. Na província de Badakhshan, o número de combatentes estrangeiros é estimado em cerca de 500, alguns viajando com suas famílias, dizem comandantes do Taleban dali. O maior grupo é de combatentes tadjiques, seguidos pelos uzbeques do Movimento Islâmico do Uzbequistão. Os tchetchenos e uigures têm uma presença menor.

Os militantes da Ásia Central são problemáticos para os talibãs afegãos, dizem os comandantes locais, porque usam métodos mais duros e, de forma um tanto escandalosa, são mais relaxados na forma como observam o Islã. Além de tudo isso, o Taleban local ficou furioso por alguns de seus convidados terem recentemente se inclinado para o Estado Islâmico, que consideram como um invasor em seu território.

"A Quetta Shura insiste que os tratemos bem, que precisam de nossa cooperação, mas eles têm muitos defeitos", disse Malawi Amanuddin, o governador paralelo do Taleban em Badakhshan. "Eles dizem estar travando a jihad (guerra santa), mas suas mulheres caminham por aqui sem se cobrirem de acordo com a norma islâmica."

Talvez sejam esses rachas internos que encorajem as autoridades russas a explorarem diretamente os canais com o Taleban, fincando uma cunha ainda mais profunda entre os militantes que ameaçam a Rússia e seus anfitriões afegãos.

"A posição oficial, proveniente do Ministério das Relações Exteriores, é de que a Rússia está se arriscando demais e não tem nada a ganhar" ao cooperar com os Estados Unidos, disse Alexei V. Malashenko, um pesquisador do centro Carnegie em Moscou, em uma entrevista por telefone. "Não conseguimos concordar a respeito da Geórgia, Ucrânia e Síria; por que nos envolvermos em outro conflito a respeito do qual não concordamos?" ele disse, descrevendo a posição russa como "deixe que os americanos esquentem com isso".

*Reportagem de Mujib Mashal, em Cabul, e de Andrew E. Kramer, em Moscou (Rússia)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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