Opinião: Meu amigo, o ex-extremista islâmico

Nicholas Kristof

Sempre que um muçulmano pratica um ataque terrorista no Ocidente, surge a pergunta: "Por que eles nos odeiam?"

Respostas provocativas vêm de meu amigo Rafiullah Kakar, que teve uma vida mais surpreendente do que quase todas as pessoas que conheço. Rafi é um jovem paquistanês que costumava odiar os Estados Unidos e apoiar o Taleban. Seu irmão se uniu ao Taleban durante certo tempo, mas hoje eu temo que os talebans possam tentar matar Rafi --ah, mas estou me antecipando.

Um de 13 irmãos, Rafi é um pashtun que cresceu em uma casa de barro perto da fronteira do Afeganistão, em uma área famosa por disputas tribais e choques violentos. Seus pais são agricultores analfabetos, e tudo indicava que a educação de Rafi terminaria na quinta série, quando ele foi enviado a um madraçal [escola muçulmana]. Sua mãe queria que ele se tornasse um "hafiz", termo para descrever alguém que decora o Corão inteiro.

"Um motivo pelo qual as pessoas mandam os filhos ao madraçal é que um hafiz pode ir para o paraíso e levar consigo mais dez pessoas", comenta Rafi, explicando uma crença local. "Minha mãe queria que eu fosse um hafiz, de modo que eu seria sua passagem para o paraíso."

Afinal, a vida de Rafi se transformou porque seu irmão mais velho, Akhtar, juntou moedas e enviou Rafi para a melhor escola pública na província da família, o Baluchistão. Rafi tinha uma inteligência acima da média e logo chegou ao topo de sua classe. Mas também caiu sob o encantamento do islamismo político. Um professor de estudos islâmicos carismático transformou Rafi em um simpatizante do Taleban, que desprezava o Ocidente.

"Eu assumi teorias da conspiração segundo as quais o 11 de Setembro foi feito pelos próprios norte-americanos, que havia 4.000 judeus ausentes do trabalho naquele dia", lembra Rafi. "Eu achava que os talebans eram combatentes da liberdade."

Muitas vezes escrevi sobre a educação como antídoto para o extremismo. Mas no Paquistão, foi o colégio que radicalizou Rafi. "A educação pode ser um problema", disse Rafi secamente.

Ele tem razão. É possível ser ingênuo demais sobre o impacto da educação: Osama bin Laden era um engenheiro. Ayman al-Zawahri, o atual líder da Al Qaeda, é um cirurgião que fala três línguas. Rafi comenta que os médicos ou engenheiros paquistaneses às vezes são extremistas, porque no sistema de educação superior de seu país eles adquirem a confiança de um diploma universitário sem o pensamento crítico que (idealmente) vem da apresentação às artes liberais ou ciências humanas.

Os países doadores devem apoiar a educação, diz Rafi, mas dar muito mais atenção ao currículo. Acho que ele tem razão, e também devemos pressionar mais países como a Arábia Saudita para que parem de financiar madraçais extremistas em países pobres da África e da Ásia.

Devemos também investir na educação das meninas, pois ela muda sociedades inteiras. As mulheres educadas têm menos filhos, o que reduz o enorme crescimento populacional --um dos fatores mais correlacionados ao terrorismo e à guerra. E educar as meninas modifica os meninos. Como Rafi.

Quando ele foi à faculdade na cidade de Lahore, conheceu mulheres educadas pela primeira vez. Antes, acreditava que as meninas tinham mentes de segunda ordem e que as mulheres educadas tinham uma moral frouxa.

"Eu nunca havia interagido com uma mulher", disse ele. "Então, na faculdade, havia aquelas mulheres talentosas e articuladas na classe. Foi um choque." Isso fez parte de uma jornada intelectual que levou Rafi a se tornar um defensor apaixonado da educação feminina, incluindo sua própria família. Suas irmãs mais velhas são iletradas, mas a mais moça está seguindo para a faculdade.

Rafi ganhou uma bolsa de estudos Fullbright para o Augustana College, na Dakota do Sul (EUA), experiência que o tornou mais compreensivo sobre os Estados Unidos, embora ainda exasperado com muitas políticas norte-americanas. Depois da faculdade, ele ganhou uma bolsa Rhodes, e no ano passado completou estudos de graduação em Oxford.

Hoje está em Londres, escrevendo para jornais paquistaneses, e pretende retornar a seu país para iniciar um internato para crianças pobres no Baluchistão e futuramente entrar na política --se o Taleban não o apanhar em uma viagem de retorno a sua aldeia.

Hoje Rafi é uma voz contra o Taleban, contra teorias da conspiração e contra o antiamericanismo cego, em parte porque os EUA não ouviram o conselho de Donald Trump para banir os muçulmanos. Vozes norte-americanas extremistas como a de Trump, diz Rafi, reforçam as vozes extremistas em todo o mundo islâmico.

"São pessoas como Donald Trump que são ressaltadas pelos extremistas lá no Oriente", disse-me Rafi. "É um banho de água fria para nós."

Para combater o terrorismo islâmico, o Ocidente gasta bilhões de dólares em teleguiados, mísseis e bases no exterior. Mas negligenciamos a educação e o empoderamento das mulheres, que, se feitos do modo correto, podem ser ainda mais transformadores. As recompensas são notáveis: pelo custo de mobilizar um soldado por um ano podemos fundar mais de 20 escolas.

Rafi nos ensina que um livro pode ser mais poderoso contra o extremismo que um drone. Mas tem de ser o livro certo!

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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