Ideia radical para reconstruir a Líbia destroçada: restaurar a monarquia

Declan Walsh

Em Trípoli (Líbia)

  • Welayat Tarablos/AFP

    17.fev.2015 - Integrantes do Estado Islâmico ocupam ruas da cidade de Sirte (Líbia), em imagem divulgada pelo site islamita Welayat Tarablos

    17.fev.2015 - Integrantes do Estado Islâmico ocupam ruas da cidade de Sirte (Líbia), em imagem divulgada pelo site islamita Welayat Tarablos

O palácio real abandonado, escondido atrás dos portões trancados e de um jardim descuidado, é um monumento à virulenta rejeição da monarquia líbia pelo coronel Muammar Gaddafi.

Gaddafi derrubou o rei Idris, o líder fundador do país, em um golpe em 1969, mas isso não foi tudo. Ele também aboliu a monarquia, rasgou a bandeira real, baniu ou prendeu os parentes do rei e transformou o palácio com cúpula dourada em espaço para escritórios, uma biblioteca e, depois de 2009, em um luxuoso museu particular de antiguidades clássicas.

Mas a memória popular do rei Idris, que morreu no Cairo em 1983, perdurou em silêncio na Líbia. E hoje, depois da queda de Gaddafi e dos anos de violento tumulto que se seguiram, os monarquistas ocultos do país ressurgiram com uma ideia radical: restaurar uma forma de monarquia, pelo menos temporariamente, para permitir que os líbios se unam atrás de uma figura respeitada e comecem a reconstruir seu país destroçado.

Os estilhaços são muitos, e milícias rivais constantemente lutam pelo domínio. Em um combate feroz na terça-feira (23) na cidade de Benghazi, no leste, vários bairros cruciais mudaram de mãos. No oeste, membros do Estado Islâmico bombardearam um acampamento extremista na semana passada.

"A monarquia oferece a maneira mais viável de sairmos da atual confusão e é o certo para o povo líbio", disse Fathi Abdalla Sikta, do Movimento Retorno à Legitimidade Constitucional. "O rei é um símbolo de união para o povo."

Muitos líbios zombam da ideia como uma fantasia orientada pela nostalgia da breve era da Líbia como reino independente, de 1951 a 1969. Os Estados Unidos e seus aliados apoiaram em peso um processo de paz hesitante, liderado pela ONU, com base na Tunísia, como o melhor para estabilizar o país.

"Não podemos voltar 60 anos atrás", disse Abdulrahman Swehli, um influente político de Misrata, referindo-se ao movimento monarquista. "As pessoas que falam nessas coisas estão vivendo em uma terra de malucos."

A única coisa em que todos os lados concordam é que os problemas da Líbia estão piorando rapidamente.

Do ponto de vista político, o país está dividido entre dois parlamentos rivais --um em Trípoli, no oeste, outro em Tobruk, no leste. Militarmente, um caleidoscópio de milícias leais a diferentes cidades, tribos ou ideologias religiosas disputa o controle. Em Benghazi, onde a guerra é declarada, o conflito é conduzido por um comandante de milícia prepotente, o general Khalifa Hifter; nos outros lugares, uma crise humanitária se avoluma porque o dinheiro do petróleo, fonte de riqueza tradicional da Líbia, está acabando.

Depois há o Estado Islâmico, que em pouco mais de um ano capturou 240 quilômetros de litoral líbio, onde cerca de 6.500 jatos estão baseados, segundo estimativas dos EUA. Essa expansão agressiva atraiu novos recrutas de todo o norte da África. Os países ocidentais alarmados, liderados pelos EUA, estão avaliando uma campanha de ataques aéreos contra o EI, possivelmente nos próximos meses.

Os que dizem que um rei poderia resgatar o país indicam um príncipe real pouco conhecido, Mohammed el-Senussi, sobrinho-neto do rei Idris. Ele trabalhou no Ministério da Agricultura do governo Gaddafi, mas depois fugiu para o exílio no final dos anos 1980. Foi uma presença de destaque na mídia quando o regime vacilou no início de 2011, oferecendo seus serviços para reconstruir o país, mas nos últimos anos tornou-se uma figura mais afastada. Ocasionalmente ele fala aos líbios por meio de vídeos postados online, mas seu site se concentra em seus hobbies e na paixão pelos esportes e dá pouca informação sobre suas atividades ou fontes de renda.

O príncipe não quis ser entrevistado para este artigo, mas um assessor seu nos EUA, Alaa el-Senussi, disse que ele "está pronto a voltar à Líbia se o povo lhe pedir".
Quantos líbios realmente querem isso é uma questão em aberto. Mas o fato de que a ideia encontra pelo menos apoio nominal em um amplo e às vezes improvável leque de líbios é um sinal, segundo muitos, de como estão desesperados por um líder que encontre uma maneira de superar as crescentes dificuldades do país.

"Se essa luta continuar, muitos líbios verão o retorno da monarquia como uma solução viável", disse Abdulrauf Kara, um comandante de milícia islamista que se tornou uma presença dominante em Trípoli. "Depois de cinco anos, as pessoas estão saturadas dos políticos, porque são mentirosos. Houve muita corrupção e desperdício."

Para o Ocidente e para a maioria dos líbios, o processo político liderado pela ONU encerra a maior promessa, embora seja mais difícil. Desde dezembro, o enviado da ONU, Martin Kobler, tem voado pela região em seu pequeno avião numa tentativa de forjar um governo de união. Mas o esforço estagnou. Disputas acaloradas surgiram sobre quem deve participar do novo governo, e Kobler encontrou oposição acirrada da administração fragmentada em Trípoli, que ultimamente se recusa até a permitir que ele pouse na capital.

O maior ponto de disputa, porém, pode ser Hifter, um antigo colaborador da CIA que retornou à Líbia em 2011.

Em um país cheio de comandantes de milícias, o general é uma figura proeminente e muito divisiva. Ele se retrata como um guerreiro destemido contra o extremismo islâmico, e no leste da Líbia muitas pessoas o saúdam como um herói. Seus inimigos o denunciam como um déspota em formação, faminto por poder. "Ele é um criminoso cujo sonho é ser um ditador", disse Jamal Naji Zubia, o chefe do escritório de mídia estrangeira em Trípoli.

Falando no Cairo na semana passada, Kobler reconheceu que o acordo de paz da ONU foi montado às pressas sob pressão ocidental e que sofreu um "problema de legitimidade" porque foi assinado sem a aceitação por todos os lados. Mas, insistiu, os líbios não têm alternativa senão mover-se depressa, especialmente diante do avanço do EI.

"Não podemos negociar por mais seis meses, particularmente com a expansão do EI", disse Kobler, apontando um mapa que mostra o território controlado pelo grupo no país. "É uma situação em que você tem de agir. Simplesmente não há mais tempo."

A frustração com o processo da ONU ajudou os monarquistas. Eles ficariam felizes com qualquer figura simbólica que conseguisse liderar o país por algum tempo, disse o ativista Sikta. Mas o candidato preferido era o príncipe Mohammed. "Não para sempre", disse Sikta. "Só até realizarmos uma eleição. Ele pode usar sua influência para pôr as milícias na linha."

Mas um rei sem exército pareceria uma tolice em um país inundado por armas e disputas violentas. E, na convulsionada tradição política da Líbia, nem mesmo a família real está imune às facções.

Em saguões de hotéis na Tunísia e no Marrocos, onde se desenrola grande parte da discussão sobre o futuro da Líbia, o príncipe enfrenta a concorrência na forma de um primo, o príncipe Idris el-Senussi, que também oferece seus serviços como construtor de nação.

"Os líbios precisam de alguém em quem possam confiar, uma figura paterna", disse por telefone Idris, um empresário estabelecido na Itália. "Não digo que eu deveria liderar. Mas, se as pessoas quiserem que eu assuma um cargo, estarei disposto."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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