Arquitetura colonial perde espaço no Vietnã, e moradores lamentam

Mike Ives

Em Cidade de Ho Chi Minh (Vietnã)

  • Christian Berg/The New York Times

    Nguyen Thanh Viet, designer e planejador urbano, em prédio da rua Catinat, em Ho Chi Minh, no Vietnã

    Nguyen Thanh Viet, designer e planejador urbano, em prédio da rua Catinat, em Ho Chi Minh, no Vietnã

Quando Nguyen Viet voltou da Inglaterra para o Vietnã, em 2014, foi contratado para criar as diretrizes de um projeto de reurbanização no centro da Cidade de Ho Chi Minh. Ele havia concluído um mestrado em planejamento urbano e estava ansioso para causar impacto.

Antes que conseguisse terminar de escrever as diretrizes, porém, um prédio na área do projeto --um edifício de apartamentos "art deco" de 1929, ao lado da antiga rua Catinat, que fora uma artéria central da Indochina colonial francesa-- foi demolido.

"O que eu percebi é que eles têm muito pouco poder", disse Viet, 28, sobre seus colegas urbanistas. "O destino dos prédios era decidido por outras pessoas."

Os edifícios na rua Catinat, hoje rua Dong Khoi, ajudaram esta extensa cidade de aproximadamente 8 milhões de habitantes, que já se chamou Saigon, a ganhar o apelido de "Pérola do Oriente".

Textos de viagens da era colonial descrevem bulevares arborizados e grandes hotéis com amplas varandas.

Eles também formaram o pano de fundo de "O Americano Tranquilo", romance de Graham Greene ambientado durante a guerra de independência do Vietnã contra a França no início dos anos 1950, e de imagens indeléveis da Guerra do Vietnã.

Mas quando o mercado imobiliário da Cidade de Ho Chi Minh se recuperou, depois da queda que se seguiu à crise financeira de 2008, dezenas de prédios anteriores à guerra --que abrangiam da era colonial à moderna-- foram derrubados para dar espaço a novos. Conforme a modesta silhueta da cidade cresce, os moradores assistem com uma mistura de admiração e preocupação.

"Houve muita destruição, sobretudo nos últimos cinco a sete anos, principalmente por causa desses empreendimentos gigantescos", disse Hoanh Tran, diretor de projeto na HTA+Pizzini Architects, nesta cidade, e um ex-consultor de preservação histórica na cidade de Nova York.

Hoje, muitos dos prédios de apartamentos da era colonial que restam têm uso misto e estão decadentes, embora com certo encanto. O interesse empresarial atrai igualmente comerciantes de estilo moderno e outros mais tradicionais.

Christian Berg/The New York Times
Turistas tiram fotos na basílica de Notre-Dame, em Ho Chi Minh, no Vietnã

Um bom exemplo é o prédio colonial no nº 151 da rua Dong Khoi, com paredes de cimento amarelo e mosaicos de azulejo. O andar térreo tem uma arcada --que já foi a entrada do cinema Catinat-Ciné-- onde vendedores apregoam cartões de felicitações e artesanato.

Mas seus andares superiores abrigam L'Usine, um café e butique de estilo de vida, e a Galerie Quynh, uma galeria de arte comercial que não faria feio em Paris ou Nova York.

Demolir esses antigos edifícios, segundo Tran, abre buracos no tecido social da cidade. "Se acontecer com frequência, em uma década você não reconhecerá este lugar", disse ele.

O centro histórico já apresenta um contraste marcante com sua antiga personalidade. A catedral, os correios e a ópera da era colonial hoje são vizinhos de shopping centers, prédios de apartamentos e escritórios reluzentes.

Um punhado de arranha-céus com mais de 35 andares surgiu desde 2010, e um prédio de 81 pisos está sendo construído pelo conglomerado privado Vingroup.

As estatísticas sobre demolições são raras, mas o Centro de Apoio e Administração do Desenvolvimento Urbano da Cidade de Ho Chi Minh, uma agência de pesquisa franco-vietnamita, descobriu que pelo menos 207 mansões da era colonial em dois dos 24 bairros da cidade foram demolidas ou modificadas de forma significativa entre 1994 e 2014.

Nos últimos anos, milhares de moradores começaram a participar de grupos no Facebook dedicados a valorizar e proteger os edifícios históricos da cidade, segundo vários de seus membros.

Essa onda parece refletir uma tendência mais ampla: embora o Partido Comunista governante no Vietnã proíba a mídia privada e aplique severas penas aos dissidentes internos, a ascensão das redes sociais permitiu que milhões de vietnamitas discutam on-line questões sociais importantes sem muito medo de represálias.

Milhares de vietnamitas entraram no Facebook no ano passado, por exemplo, para criticar um plano do governo de cortar e substituir 6.700 árvores em Hanói, a capital. As autoridades locais acabaram desistindo.

"Muitos jovens gostariam de participar de um movimento", disse Nguyen Duc Hiep, um cientista ambiental na Austrália e pesquisador convidado na Universidade Ton Duc Thang, nesta cidade.

"Eles não querem ficar olhando e deixar que as autoridades decidam o que deve ser feito; querem ter uma voz", disse Hiep, que também é administrador de um grupo no Facebook dedicado a casas-oficinas "vintage".

Christian Berg/The New York Times
O boulevard Nguyen Hue e o Saigon Tax Trade Center

A revolta pública aqui se concentrou principalmente em um plano para reformar a Saigon Tax Trade Center, uma loja de departamentos de 1924 que foi drasticamente transformada ao longo das décadas, mas cujo interior ainda tem balaustradas de ferro fundido, um piso de lajotas requintado e uma escada grandiosa, além de outras características originais.

O grupo popular de defesa se concentrou nessas características, mas a estética não é sua única motivação: alguns moradores querem proteger o prédio porque lembram que o frequentavam quando crianças.

"É a história que os habitantes querem preservar", disse Tuan A. Phung, cônsul-geral honorário da Finlândia em Cidade de Ho Chi Minh, que liderou uma petição on-line em 2014 para salvar o edifício. "A sensação, o ambiente, as memórias..."

Mais tarde naquele ano, o Ministério da Cultura pediu que o Comitê do Povo, que governa a cidade, interferisse. E no ano passado o proprietário do centro comercial, o Grupo Comercial de Saigon, estatal, enviou às autoridades locais um plano de conservação para seu trabalho de reurbanização.

Mas Phung disse que se preocupa com o plano, que propõe retirar as características de design antigas e depois as reinstalar, porque os detalhes não foram divulgados publicamente.

Christian Berg/The New York Times
O complexo naval Ba Son

"Eles não costumam reagir" às colaborações do público, disse ele sobre os executivos da firma, que não responderam a pedidos de entrevista. "Eles respondem ao chefe, que é o Comitê do Povo."

Igualmente polêmico é um projeto do Vingroup de construir um empreendimento de uso misto em Ba Son, um complexo naval controlado pelos militares na borda do centro urbano.

Em um breve comunicado, o Vingroup explicou que o projeto incluirá elementos comerciais, residenciais e de "preservação do patrimônio", incluindo uma parte com o estaleiro Ba Son original.

Mas a reforma poderá arrasar um dos principais símbolos do nacionalismo vietnamita.

O complexo naval foi desenvolvido durante a dinastia Nguyen e abrigou uma greve trabalhista em 1925 contra os industrialistas franceses liderados pelo futuro presidente Ton Duc Thang. Em 1993, o Ministério da Cultura declarou o estaleiro um sítio histórico nacional.

Arquitetos e outros especialistas dizem em particular que a repercussão histórica do projeto, a associação entre a poderosa empreiteira e os militares, o tornam politicamente delicado. E eles se perguntam se a maioria dos prédios históricos do lugar será renovada com sensibilidade, ou mesmo mantida.

Nguyen Hong Tien, um membro do Ministério da Construção em Hanói, disse que os projetos anteriores do Vingroup no centro da Cidade de Ho Chi Minh beneficiaram a economia e a estética da cidade.

Contudo, acrescentou ele, "se virmos apenas os benefícios imediatos do novo desenvolvimento, no futuro não poderemos restaurar o que perdermos".

Tim Doling, um historiador na Cidade de Ho Chi Minh que lista propriedades ameaçadas em seu site na web, Historic Vietnam, disse que a perda recente de grande parte do patrimônio urbano afetou o apelo turístico do país.

"A chave do turismo é criar histórias sobre paisagens urbanas, e as pessoas vêm aqui para ver os passeios de Graham Greene", explicou ele. "A maior parte das coisas associadas ao escritor desapareceu."

Nessa lista, disse ele, estão o prédio de apartamentos de 1929 que foi demolido em 2014 e outro edifício histórico na antiga rue Catinat, que foi substituído por um shopping center do Vingroup.
 

http://noticias.uol.com.br/album/2015/04/26/queda-de-saigon-marcou-fim-da-guerra-do-vietna-ha-40-anos-veja-imagens-historicas.htm

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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